terça-feira, 18 de setembro de 2012

O letreiro



Todo comecinho e metade do ano, em frente ao portão central, eles colocavam aquela faixa reluzente, com letras grandes. Sempre dava uma paradinha, freando minha bicicleta, e observava o movimento, do vai e vem dos preparativos. Mas nunca podia me demorar muito, sempre tinha um serviço ou outro para fazer, graças a Deus e, naquele dia, tinha que ir terminar de botar o piso na casa de Dona Stela.
Dona Stela era diferente das outras patroas para quem já trabalhei. Na casa dela, mais do que enfeites, havia livros, muitos livros, livros na cozinha, livros na sala, livros no quarto do quintal. Eu nunca entendi como uma pessoa só podia ter tanto livro. Às vezes, eu não me continha e perguntava: a senhora já leu isso tudinho? Ela apenas sorria.
Na hora do almoço, Dona Stela segura um garfo com uma mão e a outra fica ocupada passando folha por folha. Duas vezes por ano, ela me chamava para fazer consertos na sua casa, ora para pintar as paredes, ora para aumentar a casa que já era grande. Era sempre antes da chegada de seus netos.
Mas, entre uma empreitada e outra, eu sempre ia lá aos finais de semana, fazer um servicinho ali, outro acolá. Nem me incomodava quando me chamava aos domingos, porque sempre depois do arrumado, tinha um cafezinho adoçado com histórias de sua juventude. Eram tantas histórias, mas tantas, que eu perguntava, ora Dona Stela, se a senhora gosta tanto de livro, porque não escreve um contando tudo isso. Dona Stela sorria e dizia: Seu Raimundo, algumas pessoas nascem para escrever, outras para ler, porque nascem para amar os livros. Eu nasci e cresci para amar o que outras pessoas produziram com tanto amor.
Sempre me despedia pensativo dessas nossas conversas. Um dia teria coragem de contar a ela o que eu não sabia que poderia amar. Gostava das coisas bonitas, mas nem sempre as entendia. Toda vez que pegava em mãos um pincel mais fino para fazer o recorte e os detalhes das pinturas nas paredes, portas e janelas, ficava imaginando que um dia iria botar meus pensamentos pintados. Eles já existiam na minha cabeça, eram tantas as imagens, que associava às modinhas que criava, mas que o tempo cuidava de apagar. Já não era menino moço e minhas costas já estavam mais do que arqueadas. Tinha as contas de casa para pagar, meus filhos para mandar para escola, minha mulher, que nunca satisfeita, reclamava das minhas adorações e não entendia, por que, de vez em quando, eu tinha que tirar o cheiro de bode nos banhos do mar.
Era fins de janeiro e mais uma vez passei em frente ao portão da escola. O letreiro já tinha sido terminado e parecia que naquele vai e vem já tinha o anúncio de mais uma entrada no ano. Mas não tinha tempo para isso, tinha que ir mais cedo à casa de Dona Stela para fazer a lista de compras do resto do material. Fui encontrá-la no quarto dos fundos, já rodeada de seus amores, sentada naquela mesinha antiga, que não cabia companhia nenhuma. As cadeiras estavam ocupadas de torres de livros, como aquelas torres de baralho, via a hora cair tudo em cima dela. Mostrei minhas medidas, que tinha aprendido na urgência das necessidades, com meus números caprichosamente desenhados. Não sabia fazer as contas que via meu menino, quando voltava da escola, escrevendo em seu caderno de tarefas, mas sabia quantos metros e todas as medidas de cerâmicas para assentar numa sala, parecia quase coisa de magia, eu olhava, é já sabia quantas caixas seriam necessárias comprar.
Dona Stela parecia que não tinha muita pressa. Foi puxando conversa e me mostrando umas fotografias de revista, dizendo: Seu Raimundo, quero dessa aqui, anota aí nas suas medidas, que quero uma cerâmica vitória, fosca e com aderência. Dessa cerâmica eu não conhecia não, mas também era tanta novidade no mercado. Mostrei minha folhinha a ela e disse, Dona Stela, não me ignore não, mas a senhora podia escrever esse nome aí que mostro na casa das ferragens, para saber se tem desse modelo. Não sei por que, mas ela ficou parada me olhando, como se pela primeira vez tivesse me visto ou como se eu despertasse nela o que o letreiro fazia comigo. Ela escreveu na folha e mandou dizer que depois acertava a conta na loja. Eu disse, tá bom Dona Stela.
Terminei o serviço duas semanas depois do previsto. A danada da cerâmica era mais delicada para assentar. Mas Dona Stela ficou satisfeita com o resultado. Quando já estava fazendo a manutenção do prédio de Seu Pedro, recebo uma ligação de Dona Stela dizendo que eu passasse lá, que queria me mostrar umas coisas. Claro, Dona Stela, dou uma passadinha aí, depois da hora do almoço.
Ela estava na mesma mesinha do quarto dos fundos, mas as cadeiras estavam todas desocupadas. Mandou que eu puxasse uma, sentou comigo, e disse: a partir de hoje, tire todo dia, meia hora do seu almoço, que vou lhe mostrar como ter amor aos livros. Eu fiquei nervoso, assustado, me tremi todinho por dentro, não conseguia parar as pernas, nem deixar de remexer meus grisalhos, mas sentei depois de dizer, Que é isso, Dona Stela, a senhora é muito ocupada. Foi quando ela me contou, sabe essa casa, esses livros todos, eu nunca tive nada, nasci num sítio pé de serra, para poder estudar, andava mais de duas léguas para ir e voltar da escola mais próxima, utilizava como caderno papel de embrulhar pão, fui estudar na cidade, de favor na casa de parentes, tão mirrada, mas dava conta de cuidar da casa, das roupas e da comida de uma família de seis. Meu pai dizia, minha filha, volte para sua casa, nós não temos muito, mas temos o bastante, não precisa passar por isso, e eu dizia, preciso papai, porque eu amo as letras. E assim, fui vivendo, me formei no magistério, trabalhei, dando aula manhã, tarde e noite, consegui trazer meus pais para uma vida mais confortável, mas, sobretudo, assumi um compromisso comigo, que ajudaria qualquer pessoa que tivesse sede de conhecimento.
Escutei aquilo e uma paz me levou a sentar na cadeira. Durante dois anos seguidos, a cadeira me ficou cativa, até o dia em que escrevi no meu caderno: Sou um letreiro, a letra é linda e agora ela também me pertence.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A mulher bezerra




Sempre temi que quando chegasse esse dia, acabaria por não sentir nada. Talvez por isso tenha gasto minha vida em excessos, em idiossincrasias, apostado na boemia, na boa companhia e em todas as mulheres que passaram por minha vida. Mas isso não importa mais. Diria até que o espaço não é um dos piores em que já estive, já não sinto frio, quiça fome ou aquela vontade feroz de beber o mundo me alimentando das tempestades.
Aqui é escuro e já me permito parar de pensar nela, ou melhor, parar de pensar no que fazer com ela, já que não posso mais ficar à espreita pelas esquinas e bares, na esperança de vê-la passar. Parar de pensar nela seria como fazer tudo de novo uma segunda, quinta ou décima vez. Se tivesse ainda de posse da minha escrivaninha ou dos meus pergaminhos, escreveria para os meus amigos sobre o que fiz, escreveria como um alerta, como um deslumbre, como um desvario, afinal, sempre achei que terminaria meus dias com todos eles, embalados que ficávamos nos botecos da cidade, cada um no seu batuque específico, na sua bebida preferida e nos lances de nossos carteados.
 Não que eu não tenha me casado. Lourdes era realmente uma mulher de verdade, pena que não pude ser para ela o outro da música. Nunca me faltou o guisado de bode, o feijão de corda, a roupa, caprichosamente, engomada, o sapato sempre engraxado, o caldo de mocotó ou a cabeça de galo do dia seguinte. Pena que nossa semente nunca germinou, ela hoje não estaria sozinha. Mas também não imagino com quem esteja agora. Tínhamos entrado, depois de uma década e meia de casados, num ritmo cadenciado, sem grandes trinados e nossos passos, juntos, eram sempre harmoniosos como uma valsa. Era uma música que um homem precisa ter à mão ao procurar o sossego, quando, ziguezagueando ou não, consegue achar a porta de casa e sentir que lá é o seu castelo, lá era um rei. Era nesse lar, que podia desafogar da minha sede de água.
Sempre associei Lourdes àqueles açudes cuja pior das secas não ofereceria perigos. E por alguns dias, mergulhava naquela água calma, funda, e me refazia das minhas noites felinas, procurando a quentura do seu colo. Meus amigos até me invejavam, eles não tinham uma Lourdes para quem voltar. Que deus a abençoe. Sei que ele vai me ouvir, caso São Pedro me abra suas portas.
Mas homem é bicho danado e nunca neguei minha masculinidade. Quando meus olhos injetados das noites viradas se recuperavam, quando a água não saciava mais minha sede, saia de novo, todo alinhado, com goma no cabelo, ainda luzidio, a cantarolar por baixo dos postes de minha cidade, como quem tivesse a dizer, saiam da frente, o rei vai passar e ele tem sede, sede de cachaça.
Foi numa dessas saídas que a conheci. Tinha vindo da cidade grande, alguns diziam até que vinha de terras estrangeiras e que em sua mala tinha um diploma de artes. Parecia uma artista de fato, mas não por causa de uma beleza estonteante, mas pela forma como puxava a cadeira na mesa do Bar de Seu Vicente, ao lado da nossa cativa, e acendia seu cigarro. Ficamos todos animados em saber mais sobre ela e, sem combinação nenhuma, mudamos a natureza de nossas apostas, já não interessava o campeonato de futebol, as lutas livres, as rinhas de galo. Nossa aposta era ela, quem conseguiria primeiro. Não faltavam visitas à sua mesa, gracejos, gabolices, entre outras coisas. Eu na minha mesa estava e nela ficava. Mas não sem perceber que ela nunca pagava nenhuma das bebidas pedidas, não sei se pelos meus colegas que viviam a lhe oferecer drinks ou se pelo Seu Vicente, que esquecia a tripa assada na frigideira, a famosa língua de boi na panela e o fogo do churrasco sumir por si só.
Ficava a espreita-la, numa posição que não oferecesse garantias da minha curiosidade. Afinal, estava ali para estar com meus amigos e voltar para minha Lourdes. Talvez tenha sido isso, talvez tenha sido... Não era nem mais nem menos do que meus companheiros de mesa. Mas um dia, levantando-se de sua cadeira, me interpelou e disse, como se fosse hoje ainda, percebi que gostas de cachaça, tenho em minha casa, uma que trouxe do México, um destilado especial... Nem esperei que o convite se concluísse, fui logo me despedindo e de braços dados, nos dirigimos para sua casa.
Não era bem um lar, não como o do meu reino, era colorido demais, iluminado de menos, cheio de lenços, fitas e uns objetos estranhos dispostos sem ordenamentos pelos poucos ambientes da casa. Pensei, cá comigo, seria a sua arte? Mas logo me desabonei daquele exterior que pertencia a ela e tratei de achegar nos braços seus. Não reconheci a mim no enlaço com ela. Na forma como, afogueados, nos livramos das roupas e eu das minhas vergonhas. Senti-me desalojado, porque começamos uma dança de corpos que quem guiava os passos não era eu, nem o ritmo nem a batucada, que em nada lembrava a valsa dos meus dias. Pensei que isso não era certo, pois homem não podia se deixar guiar. Mas atônito que estava, emborquei a tequila, que descia como pimenta, caindo nos seus enlaços. Ela não se fez de rogada, tirou o que restava das minhas roupas, agora desalinhadas, subiu no meu colo e me comeu. Comeu como quem tem a fome de mil dias, arrochando meu pescoço e mastigando minha virilidade. Não tive controle nenhum. Era dela e somente dela, que ora me apertava, ora me sugava, ora me bebia todo. Entendi a arte e o inusitado da vida, quando nos resumimos a uma só parte do corpo, que no corpo dela, lhe pertencia totalmente.
Fui embora tonto, amassado, desmamado, tempos depois, em direção a Lourdes. E desfalecido, me deitei. Quando acordei, não quis beber café ou água. Lourdes me achou estranho, como também estranhou, quando ao deitarmos, mais a noite, subindo por cima dela, juntei as suas pernas para penetrá-la, como se pudesse recriar o aperto e o arrocho da minha noite de tequila. Mas Lourdes era água. E minha sede era de aguardente.
Voltei ao bar, sentei-me à mesa, ao lado dela, mas ela já não me via, entretida que estava com meus amigos todos. E foi assim, durante dias, que fiquei perdido, perdi a ela, perdi meus amigos e perdi a mim. Cada um deles tinha aquele mesmo olhar que reconhecia quando fazia a barba de frente ao espelho. Vidrado, injetado e vazio de alguém que tinha misturado todos os drinks na esperança de sentir o gosto daquela bebida, daquela mamada.
Os dias foram se tornando longos, a noite mais longa ainda. E eu não pude mais esperar. Queria, novamente, o conforto do meu castelo, mas lá, já não era rei, era um desapropriado, desapropriado de mim mesmo. Foi quando decidi dar cabo nisso tudo e cá estou, depois das rezas e dos choros todos, aninhado nesse caixão, na vontade de sentir, em tão pequeno espaço, abaixo de sete palmos, o arrocho da braçada de pernas daquela mulher bezerra. Aquilo era que era mulher de verdade. E eu, já não era homem nenhum.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Lembrar de esquecer, esquecer de lembrar


Quando irei me desocupar disso tudo? Tento o tempo todo esquecer. Esforço-me a esquecê-la e quando me entretenho em meio aos meus livros todos e aos discos que vou espalhando ao redor da minha cama, um trecho, um refrão, me levam de novo a você, a nós. Com que permissão invadiu assim a minha vida, se você não pretendia ocupar-se dela? Eu, por certo, não saberia precisar o momento em que aconteceu, talvez, tenha sido no dia em que me pediu para desembaraçar os seus cabelos, tanto que você gostava que todos o tocassem, como se isso não significasse nada fora do ordinário, pois parecia que, ao fazê-lo, com seu pescoço debruçado em minhas mãos, numa sensação urgente de prazer, não sei se minha, se sua, se nossa, seria o sinal de perigo que deveria ter posto a mim mesma. Pare Felipa, vinham as letras garrafais em minha mente.
Mas éramos amigas e as amigas se tocam. Apenas não sabia que as minhas mãos tinham uma vontade própria, que minha razão estava no estômago, que minha alma estava nas pernas trêmulas. Que as mesmas mãos que delicadamente escovavam seus longos fios, faziam uma força tremenda para não pesar sobre seu corpo, arrumando-a e me desarrumando toda, nessa mesma cama que, hoje, fico treinando o esquecimento, ao escrever. As mesmas mãos que desavisadas, se meteram por entre os seus cabelos, sentindo sua nuca. Bem que você poderia ter se afastado, ao invés de reclinar-se sobre mim, retirando a blusa, para que ficasse mais confortável, como me disse na ocasião. Confortável, para quem? Lembro que pensei, ao mesmo tempo em que cuidava de penteá-la. Não sei precisar o momento em que deitamos juntas na cama, em que me vi também despida, esqueço-me das etapas, mas a lembrança do sentir, essa sim, está em mim, como uma coisa ruim que preciso enxotar, exorcizando o cheiro da sua pele, o gosto da sua boca, o deslizar de nós duas, juntas, em meio àquela cama de solteiro.
Mas não é disso que trata esse texto, essa foi o marco das lembranças, a mais custosa de expurgar. As outras, também são difíceis de esquecer, difícil esquecer os momentos de quando me roubou beijos no carro do seu namorado, de quando me lançou nas paredes do banheiro do restaurante onde costumávamos ir, dos encontros de fim de tarde, regados a descobertas, descortinamentos e desvarios. Já são anos de contabilidade dessas lembranças, mas parece que foi ontem, assim como o dia em que me deixou, em que disse que estava apaixonada por outra, que não me amava mais. Eu permiti que você destruísse pedaços de mim, que minha razão voltasse ao lugar que antes lhe era de costume, que minha alma retornasse ao seu centro, que minha vontade fosse podada e amordaçada. Já faz tanto tempo, mas nunca me lembro de esquecer, de esquecer o caos, a dor, a saudade, o desejo, as vontades, os planos todos...  
Estabeleci prazos para o meu esquecimento, mas sempre que me aproximo deles, no meu esforço de lembrar, os esqueço. Você foi a minha primeira paixão, o meu primeiro amor, a minha primeira mulher. Não que eu não tenha experimentado outros corpos, mas procurava em outros, os nossos, embolada que estava nas minhas lembranças.
Na lembrança de apagá-la, destruí-la, implodi-la nos braços alheios, mais me remetia aos contornos seus, as risadas, as confidências, os achaques, os ciúmes, os nossos gozos, as nossas bocas juntas, de mim, inteira, ao lado seu.
Mas escrevo para esquecê-la e lembro-me o tempo todo de fazê-lo, ainda na mesma cama de solteiro, sendo que, dessa vez, senhora das minhas letras garrafais: JÁ NÃO ESTOU EM CACOS, JÁ SEI SORRIR QUANDO A VEJO EM COMPANHIAS OUTRAS, JÁ LEMBRO QUE NÃO A AMO MAIS, APENAS ESQUEÇO-ME DE QUERÊ-LA TANTO...
QUE MERDA! MALDITAS RETICÊNCIAS...

Ps. Havia esquecido esse texto nos arquivos que lembrei de apagar.

domingo, 19 de agosto de 2012

Sim, eu sou uma vadia!



Benedita estava coando o café quando Márcia entrou em sua casa. Vinha que vinha apressada, parecia que um touro enfurecido estava nas suas saias. Nem mesmo havia pedido licença, quando, ligeira, puxou a cadeira e se pôs a falar.
- Isso é mesmo um absurdo. Bem que José disse que o tempo já é do fim dos dias. Primeiro essas moças andaram de ficar empoleiradas em suas bicicletas ou na garupa das motos, andando feito homem até tarde da noite. Você viu o que vai ter mais tarde? Elas vão se reunir em passeata, a tal da marcha das vadias. Helena disse que vai, eu já falei que não ia deixar de jeito nenhum. Ora essa, a pessoa nem consegue ainda arcar com o peso dela e já acha que pode fazer o que quer, não senhora, comigo não, quem come do meu pirão, tem que ouvir minha razão. Onde já se viu isso? José não sai daquela porcaria de jogo, eu falo, falo, falo e tá pensando que alguém me escuta. Nem pra ajudar com Helena ele serve, fica só me ignorando. Tou mesmo querendo saber se ela vai. Ah, se quero...
- Márcia, pegue uma xícara para você, tem um pãozinho quente pra acompanhar. Não fique tão aperreada, isso é coisa dessa juventude mesmo.
- E eu quero lá saber de história de juventude. Desde que Helena entrou nessa universidade, não vai mais à igreja, não conversa mais comigo, nem me responder mais, ela responde, só faz balançar a cabeça. Como se não precisasse mais dizer por onde anda ou com quem anda. Vêm uns colegas dela bem estranhos lá em casa. Eu acho que esse povo nem tomar banho toma. Tudo com jeito de maconheiro. O pior é que eu nem posso ler mais as cartas dela pra saber o que ela anda fazendo da vida, agora é email pra cá, email pra lá...
Benedita fez de conta que continuava ouvindo, suspirou e serviu o café. Servir é o que sabia fazer. Pelo menos quem sabe Helena aprendesse outras coisas na escola. Benedita nunca teve um filho, apesar de já ter engravidado  três vezes. Meus anjinhos, ela pensava, Deus levou para um lugar melhor. Ninguém merecia viver o inferno em vida que ela mesma conhecia.
- ... essa menina não sai da frente do computador, você acredita que outro dia, ela sentou na cadeira umas quatro horas da tarde e quando eu levantei pra ajeitar o café de José, ela ainda tava lá, na frente daquele troço. Diz que fica fazendo trabalho da faculdade, mas eu sei que trabalho é esse... se fosse trabalho de futuro, se ela pensasse no futuro não tinha terminado o noivado com Bruno. Aquele sim era um genro de futuro, trabalhador. Melhor marido ela não ia arrumar, eu disse, tanto que falei, mas parece que entra num ouvido e sai no outro. E Helena só fica dizendo que essa não é a vida que ela quer pra ela, que quer se formar. Se formar pra quê, quem é que vai cuidar dos filhos dela? Ela pensa o quê, que é melhor do que os outros... Eu mesma mal consegui terminar o segundo grau, era mamadeira, fralda pra lavar, tinha que botar o feijão no fogo e ainda aguentar o choro de Helena, que nunca conseguia dormir mais do que três horas seguidas...
Helena, pensava Benedita, parecia que tinha o fogo do mundo todo. Tão cheia de energia, tão cheia de vontade, não sabia porque sua mãe não percebia o milagre que era Helena. Sempre que via Helena saindo de casa, toda faceira, intuía que ela ia fazer muitas coisas na vida. Mais do que ela mesma ou do que mesmo sua própria mãe, que parecia só se ocupar da vida alheia. Tinha certeza que Helena não seria rendida por homem nenhum. Às vezes achava que tolerava Márcia, por causa de Helena. Às vezes achava que se tolerava, por causa de Helena.
- ... bem que você podia falar com Helena pra ela desistir dessa idéia maluca de ir numa marcha de vadia. Quem em sã consciência ia querer fazer parte disso? Ela fica dizendo que é um protesto para parar a violência contra as mulheres que foram estupradas, que é uma forma política de lutar pelo direito das mulheres. Eu não acho nada disso, mulher que quer ser respeitada, não pode se dá ao desfrute. Como é que o povo vai respeitar as mulheres se elas se chamam de vadia. Helena pensa que eu não vi como é essa marcha, eu posso não ler como ela, mas não sou burra não, eu acompanho tudo na televisão, eu vi a safadeza, um bando de mulher vestida com roupa de quenga gritando, dançando... 
Benedita parou o que estava fazendo. Arrumou o cabelo atrás da orelha e resolveu também tomar o café.
- Benedita, você não vai dizer nada, ela sempre lhe escuta. Eu nem sei mais o que fazer. Afinal, você é a madrinha dela e ela lhe quer muito bem. Tira essas maluquices da cabeça dela. Essas moças pensam que podem andar na rua de todo jeito, depois acham ruim quando um homem se aproveita.
-  Pare Márcia, não fale assim, você não sabe do que está falando!
- Ora, como não sei? Você não viu o que aconteceu com a filha de Fátima, primeiro começou a andar seminua, agora vive trazendo presente caro pra mãe dela, que fica toda prosa dizendo que a filha é uma mulher de negócios, eu sei que negócio é esse que ela faz... uma vadia, como essas moças que vão pra essas passeatas com os peitos de fora.
Benedita sentiu um calor subindo pelo seu corpo, sua garganta travou, como se tivesse um bolo congelando seu íntimo. Frio e quente. Seus olhos passaram a não ver o que estava à frente, e só conseguia ouvir o som dos socos, que levara a vida inteira, o ruído de seu choro engolido nas tantas vezes que levara chutes em seu ventre inchado, cuja promessa era a vinda dos seus anjinhos. Imagens suas, no hospital, dizendo que tinha caído da escada, sua vergonha de ver seu ventre costurado por estranhos toda vez que ele lhe enfiava suas ferramentas, as cicatrizes todas de queimado em suas pernas e em suas nádegas, dos cochichos dos vizinhos quando falava que tinha sofrido um acidente lavando a roupa no domingo. Seu corpo, tomado agora pela sua memória, parecia somar a mudez de uma vida inteira. Começou a se arranhar, rasgando suas vestes, enquanto ia em direção ao banheiro, deixando Márcia pasmada, quando também começou a se maquiar. Não era uma maquiagem como a das estrelas, era a maquiagem de uma mulher que queria dar o rosto ao mundo.
- Criatura, pra onde você vai assim, tão tresloucada? João daqui a pouco chega da oficina.
Benedita não parou seu tempo para responder, simplesmente continuou o seu frenesi, desarrumando as vestes que sempre fizera questão que permanecessem em ordem. Enquanto fazia isso, com o rosto afogueado, ia jogando pelos cantos do quarto as roupas arrumadas pela cor, todas quase postas no mesmo lado do armário, cinzas, beges, brancas, até achar o xale rosa com miçangas verdes que Helena havia bordado para ela, quando ainda era mocinha. À medida que ia se desnudando, deixando seus seios caírem sobre seu corpo, ia rasgando as meias que lhe cobriam as pernas, procurando, na caixa de costura, sua tesoura, a mesma que muitas vezes pensara em usar no João, para cortar as saias que estava vestindo. Seus seios que nunca alimentaram ninguém, que nunca foram beijados com ternura, que foram sempre cobertos até o pescoço para disfarçar as marcas roxas, amarelas, verdes, que tratava passando arnica, ficaram agora desnudos e pesados ao sabor do calor da tarde. Não eram os seios de alguém que se orgulhasse da juventude dos seus dias, mas nunca se orgulhara tanto deles quanto agora, deixando-os à mostra, enfeitados pelas contas verdes do seu xale, como se aquelas fossem as joias mais raras e exclusivas.
Márcia, com sua tagarelice infindável, parecia uma metralhadora, dizendo que eu estava louca, sim, eu estava louca, louca para falar, louca por já ter ouvido tanto, louca por ter me calado sempre, por ter perdido os filhos que nunca tive, por ter desistido de estudar, por ter me apaixonado por João e por achar que ele sempre tinha razão, mesmo naqueles dias, quando ele me culpava por ter se exaltado e eu aceitava, tão culpada.
- Cala a boca, Márcia, já lhe escutei o bastante!!!
- Mas Benedita, você está parecendo uma vadia, nua e com a cara pintada desse jeito...
- Sim, eu sou uma vadia! – disse Benedita, enquanto saia de casa a procura de Helena.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Agosto de Deus



Veio assim desaforado. Era agosto, como sempre agosto tinha de ser. Quando ele punha as mãos em mim, me molhava toda e me repreendia imediatamente. Não que ele tocasse aquilo que não poderia ser tocado, não antes que nós cassássemos. Já havia dito, ele não era um desavisado, só depois, depois das bençãos. Depois tiraríamos os atrasos. Mas ele tinha pressa. Era da minha igreja, por que não percebia? Não percebia que teríamos o tempo todo do mundo. Mas ele tinha pressa, e me amassava entre um culto e outro. E eu dizia: está bom, ele dizia em seguida, está ótimo, tão rápido quanto suas mãos. Apenas achava graça do trocadilho. Não sei se era pelo frescor dos meus dias, se era pela vontade de repreender ou pelo fato de que não nos beijávamos. No íntimo, rejubilava-me ao relembrar que as putas não beijavam. Era o meu corpo, era a minha boca, e qualquer coisa mais íntima me desagradava, me deixava degradada. A mim e ao meu Deus.  Mas era agosto e ele me disse, me toque! Eu o toquei, não sem medo, me lembrei dos mil infernos, dos demônios todos, do meu pai que já era falecido, do sermão do pastor que me alertava o tempo inteiro e quanto mais eu lembrava mais molhada ficava, derretida, como se meu corpo fosse um outro, aquele do inferno, com as mulheres com as curvas todas, me achando sexy, me figurando entre elas. Eu era uma delas. Não, eu não era, não sabia onde colocar as mãos, nunca tinha tocado um corpo rijo. Eu era de Deus. Queria dizer tudo isso.  Mas não tive tempo, Meu Deus, você sabe que não tive tempo, porque você estava dentro de mim. Mas bem que você podia ter saído naquele momento, podia ter dado passagem a ele que me fez a corte. E aí, me dei mal, nem estava com ele nem com o Senhor. E o Senhor me atrapalhou. Me atrapalhou, com as vozes todas  que falavam em seu nome. É, essa foi a minha vez, a minha primeira vez, a muita de outras.  Mas não foi minha simplesmente, foi nossa, e você, hoje, se atreve a me perguntar se foi bom, quando a única resposta possível é,  foi, foi a gosto de Deus.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A confissão de Palimp VI




Você já arrumou o gravador? Já posso começar? Bom, me desculpe o nervosismo, mas nunca tinha feito isso antes. Não que eu não desejasse, mas sempre fiquei receoso. Ficava até receoso de dizer receoso e não receosa. Mas acho que já posso falar assim, como sujeito homem. Engraçado, sujeito homem era sempre como meu pai se referia aos amigos e eu sempre alimentei, bem lá no fundo, uma vontade de ouvi-lo me chamar assim também. Que Deus o tenha ou Lucífer, sei lá. Não cabe a mim adivinhar quem o recebeu depois de morto. Tá, tudo bem, vou tentar começar do início, é porque é difícil para minha pessoa saber exatamente quando foi que eu me reinicei, apaguei meus velhos arquivos e escolhi novos programas. Sei que minha história passa ao longe da Branca de Neve, mas o espelho sempre foi um personagem fundamental. Era amor e ódio. E isso é muito difícil. Os espelhos estão em todos os lugares e são muitos. Experimenta ir num shopping ou até mesmo se refrescar nos banheiros... Era um verdadeiro martírio. Por isso sempre preferi os banheiros dos postos de gasolina, pois, ainda que ardidos de urina, era um alívio que nas paredes só pudesse ver o encardido dos azulejos. Cresci assim, a fugir dos espelhos, porque acreditava que podia me refugiar na imagem que havia criado em meus sonhos. Nada disso era explícito, raramente as pessoas percebiam, mas também, raramente me percebiam. Tinha umas coleguinhas da escola que diziam, vem cá menina, vem botar um batom. Eu ia e não ia. Ficava de frente a bancada, enquanto elas passavam e olhava para frente sem que na frente nada existisse. As amiguinhas, ah, as amiguinhas, quem será que as inventou? Por mim, pegava naqueles pescoços delgados e torcia feito mainha ao matar a galinha de domingo. Na hora dos esportes, então, era um drama. Nunca tinha sido convocada para as danças que eram ridiculamente espalhafatosas naqueles shows de ginásio de esporte. Ah, você quer saber por que eu falo convocada e não convocado. Me perco no meu próprio passado, como nele eu era perdido. Mas qualquer coisa você revisa no editorial. Regula os pronomes. Aproveita e ajeita também meu português que é pra ver se combina com o talho desse uniforme. Eu ainda tou me adaptando. Hahahha. Adaptando, parece que vivo a me adaptar. Quando não é uma coisa é outra. Só sei que a escola me matou. Matou pedaços dentro de mim como nem minha família, até então, tinha conseguido, pois em casa eu brincava de menino invisível, e nunca nenhum deles me viu. Sabe aquelas brincadeiras que não custam nada, não dependem dos brinquedos que você ganha e do qual nenhum era o que tinha sonhado?! Bem, era assim mesmo. Dia das crianças, então, nada de ficar feliz. Era apenas um rosto amarelo, não, não havia sorriso, desembrulhando bonecas das mais variadas e olhando de esguelha para os joguinhos dos vizinhos. Ingrata, era assim que me chamavam e tudo que eu queria era uma bicicleta pra virar bicho solto no mundo. No natal, ganhei uma Sissi, dessas róseas, com direito a cestinha e tudo. Ia passear com as colegas. Uma vez ela disse, seu braço é estranho, parece que tem músculos, parece braço de menino. O nome dela era Marina e eu me vi perdidamente apaixonado. Marina era linda, morena, toda pintada, olho agateado, sorriso fácil, maneiras bruscas. Costumava ser a megera da escola, tão clichê isso, mas eu a seguia assim mesmo, seguia como se tivesse sido adestrado. Jogava os jogos que ela queria, as brincadeiras que escolhia, carregava suas tralhas, ousava passar do seu perfume, só para lembrar o cheiro dela. Até o dia que Carlos, em meio à sala toda, disse que eu era sapata e que queria Marina só pra mim. Até hoje me lembro das risadas. E eu, ali, abobalhado, sem saber o que era sapata. Mas desse dia em diante, só usei sandálias de dedo. Marina ficou pra trás e eu já não sonhava com ela, mas sonhava em ser ela, sonhava até em, sendo ela, estar com Carlos. Me odiava por isso, e comecei a odiar também os sonhos, assim como os espelhos.  Já não queria mais ir à escola e estando lá me refugiava nos livros até o dia em que pude ir embora. Na faculdade, entrei no curso de línguas. Queria aprender a falar todas elas e enquanto isso me calava no português. Não tinha interesse. Queria ir pra bem longe. Não sabia que ia voltar e que hoje ia falar com você. Que ironia, não? No mundo conheci pessoas como eu, sem cara, sem rostidade, aprendi conceitos, fiz oficinas de filosofia, vi que ser estranho era capital simbólico nas grandes cidades. Foi quando eu decidi mudar, depois de assistir aquele filme, aquele que o rapaz colecionava pele de moças. Como era o nome...? O silêncio dos inocentes. Queria uma nova pele. Uma pele que pudesse encarar o espelho e podar seus pêlos. Me inscrevi em programas públicos, mandei emails, mandei cartas, preenchi arquivos, fiz séculos de terapia, só nunca falei daquele filme. Participei de grupos de solidariedade de gordos. Ora, por que fiz isso? Eles também queriam arrancar pedaços de si. Me identifiquei com os androides, participei de debates sobre androginia, sobre os queers e a leva toda. Enquanto isso me envolvia com uns e outras. Até que a encontrei. Dra. Frankie Stein, tão século XIX, tão século XXI. Ela topou fazer a transferência. E assim, me transferi para outro corpo. Um corpo de pronomes próprios. Foi até divertido servir de modelo para suas experiências. Claro que eu gostava dela, nunca a quis mal. Não fique ansioso, já digo... mas é tão óbvio porque a matei, porque não poderia ser diferente... ela era a memória de quem eu fui antes. Com ela, eu não teria pertencimento. E, por favor, quando você concluir, não coloque o nome que me deram ao nascer, mas o que me deram nos jornais, sim, meu nome é Palimp VI, o único presente que me deram e que eu quis que fosse m---eu.  

domingo, 3 de junho de 2012

A generosa



Quando ela vinha, seus saltos tocavam uma música primitiva, acompanhada pelo bambolear dos seus quadris. Os rostos viravam em uníssono e as mais diversas reações se desenhavam com o seu gingado, numa mistura nada homogênea. Mas ela passava, pela calçada, religiosamente, ao fim da tarde. A praça, então, parecia diminuir de ritmo, como se naquele tempo-espaço, tudo ao redor se congelasse, e ela, apenas ela, adquirisse a mobilidade do mundo ao dar a volta na lua.

Não conhecia quem a conhecesse de perto. Nenhum de nós. Ela nunca olhava de lado, tampouco para cima ou para baixo, seu olhar era tão reto, como a desconfiar da fartura de suas curvas todas. Diziam que ela era uma mulher do mundo, diziam que ela era mulher de um só, diziam que ela era dela mesma. Diziam muito, mas nada que viesse de perto.

Até que um dia, a cidade enfeitada de bandeirolas coloridas, mesinhas floridas, palco armado, anunciou os festejos do São João, fechou as portas do comércio mais cedo e, ao fim da tarde, convidou seus citadinos para juntos, e distribuídos entre todos os quiosques, alimentados pela luz elétrica, já trêmula pelo altear da fumaça dos fogos e fogueiras, dançarem ao sabor do milho assado e dos quentões.  

Ainda era menino moço, emudecido pela timidez da minha voz e pela inexperiência dos meus gestos. Mas era um rapaz de olhar guloso e queria dar conta de ver tudo. Apenas lamentei a calçada tão cheia, temia não vê-la hoje. Os colegas logo me acharam e me entretive em meio a tantas figurações. Parecia que Dona Maria estava triste ao lado de Seu José que, ritmadamente, erguia seu copo suado de gelado para os seus bigodes como a sorver a sede do mundo todo. Percebi que os pés de Dona Maria, por baixo da mesa xadrez, seguiam o ritmo do trio de zabumba, triângulo e sanfona, como se o direito e o esquerdo estivessem um nos braços do outro.

Raimundo, viúvo há uma quinzena de anos, não saia do pé do poste, como se ele mesmo tivesse a companhia para o fim dos seus dias. Elaine, do outro lado do arraial, desfolhava o verde da cerca de coqueiros, juntando os palitinhos como se fosse abrir uma fábrica de pipas. Fernanda, toda vestida de coronel, parecia a mesma, forte, longa e de cara limpa. Francisco, todo serelepe, convidava todas as moçoilas para bailar, nenhuma lhe fazendo menção.

Enquanto cobria os ouvidos com as mãos à espera do pipocar dos traques, ouvi o tilintar do salto e meu coração zabumba esperou. Lá estava ela, vindo, mas dessa vez seu andar era feito de giros. Quem estava perto, deu passagem. Quem estava longe, estreitou o olhar. E ela, de frente ao palco, rodava a saia, deixando entrever suas pernas torneadas, ao mesmo tempo em que sua boca vermelha, entoava junto, as músicas que, para mim, passaram a soar com quentura. Procurei, rapidamente, sua companhia. Não havia, ela estava só. Dançando não abraçada com um outro, mas com os braços erguidos em floreados. Não compreendia como um mesmo corpo podia ir a direções tão diferentes e parecer estar indo junto. Sua dança, de tão altiva, parecia ocultar o segredo da natureza. Era uma força. E à medida que ela entoava e rebolava no meio daquele improviso de salão no centro da praça, me remexia todo internamente, como se dançasse uma quadrilha inteira.

Ela passou e girando, deu um abraço em Raimundo, tirou Dona Maria para dançar, deu um selinho na boca de Fernanda, que ficou corada com mil maquiagens, boca toda avermelhada, fez um coração de coqueiro para Elaine, que convidou Francisco a bailar, esvaziou o copo de Seu José, que sem ter o que mais beber, começou a olhar novamente para os pés casados de sua mulher, e se foi, não sem antes sapecar meu rosto de beijinhos.

Ela nunca mais apareceu na cidade depois dessa noite. Mas, nós, que nunca a tivemos, tão perto, deixamos de comparecer a festa de São João. Soube tempos depois que, naquela mesma noite, tinham sussurrado em seu ouvido, enquanto a enlaçavam pela cintura que, finalmente, haviam encontrado o encanto do mundo todo e que ela podia desaguar em terra firme. E assim, ela teria partido, feito chuva, a fertilizar a terra alheia.