segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Me abandone jamais



      
Ainda era menino moço quando tive minha mão prometida a ela. Da promessa feita, recebi, vindo de muito longe, uma fotografia três por quatro, uma carta desenhada por letras miúdas e cacheadas e um lenço manchado de batom, que no contraste com o pequeno do riscado, parecia maior do que qualquer outra boca já vista por mim.

Não sabia exatamente o que significavam aquelas ofertas nem tampouco o que viria a ser o prometido da coisa toda, mas isso não ocupava os meus tempos de mocidade. Gostava mesmo era do jogo de bila no quintal do vizinho, depois de uma chuva caída, quando a terra assentava igual cimento fresco, aguardando o escultor mais audacioso, modelando curvas, rampas, buracos, muros, como se o mundo pudesse ser desenhado e superado num tempo comum. 

Nos dias de terra seca, quando o sol era o desafio maior, acendendo o mundo com a quentura do fogo, bom mesmo era quando vinha o vento por trás da serra de Seu José, espantando a brasa da pele, como se fosse o combustível perfeito para as pipas que eu e muitos dos meus amigos fazíamos com as riscas dos coqueiros, os papeis de presentes que pegávamos de nossas avós, colados com o sumo dos arbustos do sertão e empinadas com os carreteis emendados, pintassem os céus do colorido de todos os arco-íris. Nem sei porque lembrei disso tudo, pois a conta dessa memória é igual ao maior feito de um trancoso. Uma conta maior do que os trinta vezes trinta, quando os zeros não nos é familiar. Ainda assim, todo feliz, naquele sertão.

E quando nos trinta cheguei, já não tinha o tempo de me ocupar com o tido, talvez o ido, pois os marcadores já eram espaciais e ela vinha de viagem, prometida que estava por aqueles que por mim falavam. No dia que ela chegou, olhei de banda, na segunda melhor roupa que tinha, sapato engomado, bigode cerzido, perfume oleado. Reparei que ela era toda alinhada, cheirosa como cravo de rosa, bonita como uma pedra polida, viçosa como uma floresta encantada.

Todo tímido fiquei, olhei sem nem ver, sorri para dentro, fiz as mesuras todas e a promessa cumpri. Cumpri também de banda, do lado que nem era meu, com a melhor roupa que tinha. Tiraram fotos, fizeram brindes, jogaram rosas, nos deram casa, geladeira, fogão, cama, sofá e toalhas.  Mas desde o primeiro dia, que eu a vi e que penso que ela me olhou, que fiquei desconfiado. Fiz como homem as mesmas coisas que sabia que tinha que fazer quando menino. Fiz assim de eito, tentando fazer certo, de jeito a não deixar faltar o pão de milho, a carne de toda semana e a conta de luz, muitas vezes atrasada.

Ocupado que estava, com as coisas por mim não prometidas, verguei sobre os dias todos. Foram semanas, meses, anos, com ela compartilhados, na labuta ferrenha, dos filhos já nascidos, das ressacas ressentidas, das traições permitidas, das rinhas envelhecidas, que depois de algumas taças vencidas, ela me olhou e cantou, quase numa rima antiga:


Eu venho de longe e do tempo
Que me prometeram
Não me disseram que seriam
Senhores do meu dia
Nem censores das minhas noites
E vim sem atinar nem nada

Mas quando lhe vi
De algodão bordado
Sandália trançada
Cigarro de palha

Pensei num mundo sem igual
Suspirei folgada
Tive os seus filhos todos
Lavei muita louça tão louca

Nem vi os dias passarem, apesar de conta-los todos
Acordei cedo, dormi cedo também
Afoguei meus calores no abanar de minhas saias
Tentei ser mais calma, mais rápida

Aprendi a ouvir suas biritas todas
E no dia seguinte, sem cor, botei meu batom vermelho
Funguei o vento de minhas deusas todas
E me despi das brincadeiras de menina

Quando me chegou pelo correio
Um pedido de promessa eterna
Acreditei na folha das postagens
E das rimas muitas vezes lidas
Outra vezes ouvidas

Dos amores cantados
E de velhas histórias de amor
Acreditei que escreveria a minha, que seria sua
Que seria nossa

Mas roubaram o que nem era meu
Tomaram a minha vida inteira
No dia mesmo do prometido
Como se eu pudesse pedir a um maestro
Podemos refazer de novo?

Como se a refazenda da vida
De hoje pra ontem
Me deixasse mais sábia ou quiça você
Nem hoje nem amanhã tampouco antes

Eu pudesse dizer
Não me abandone jamais
Ou pelos menos as cartas de outrem...
Quando me chegou sua foto, todo feliz
     quando eu querendo
sertão menino.




Ouvindo assim, olhando para ela, quando a lua, combinou com um brilho qualquer, eu pudesse, no meu arfar, ser um outro, o outro possível para ela. O outro possível para mim. E, finalmente, a desejei.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Born to die


Naquela tarde quando me dei por recebe-lo, fiz da minha vida um de tudo, sabedora do curto das horas. Sabia que seria o tempo de uma garrafa de vinho de taças em par, uma tarde de jour. Claro que havia duas garrafas a mais no armário da cozinha, só não desejava que minha ansiedade pudesse ser comprovada no meu refrigerador, não com ele, que sempre se fazia tão apressado, dizendo tenho duas horas.

Também queria ser assim, apressada. Mas meu tempo era o de antigamente. Nas duas horas para ele, passava semanas inteiras a pensar, hora e meia na manicure, cinco horas de faxina no meu apartamento, duas horas na depiladora e o tempo que se gasta para se ter uma epifania sobre que lingerie usar.

Se eu narrasse a tarde toda, você poderia achar que sou afeita a esses encontros. Não é o caso. Só agora me permiti. Minhas amigas, as de longa data, sabem do que estou falando. Sabem, inclusive, que o tom dessa minha narrativa poderia ser cômico, como se apenas eu pudesse rir de mim mesma. E apenas para mim e para elas, confesso.

Confesso que naquelas duas horas, do momento em que ele tocou na minha campainha e chegou todo ligeiro, afoito numa tarde de outubro, como se só tivesse me visto em fevereiro, tive receio de que não me reconhecesse em maio, de que passasse pelo umbral da porta em julho, cruzasse a ante sala em agosto e deitasse na minha cama em setembro, tivesse finda as duas horas em novembro, quando o tempo se revelasse o de um ano inteiro.

Ije, disse, enquanto ele estava sentado no meu sofá de algodão e passava uma mão por entre os seus cabelos, enquanto a outra ocupava de segura-lo pelo queixo. Escolhi essa calcinha para você.

Ele rapidamente se refez. Deu mais um gole no vinho ainda frio. E me olhou profundamente, enquanto dizia, nunca a vi tão bela, tão bela. Quero beijá-la até sentir seus lábios tremerem, como se ali fosse um rosto, afogueado, de todo ardente, quando me disse infinitos ardores e me declamou todos os fervores.

Seria assim minha narrativa, se fosse por acaso publiciza-la.
Mais do momento em que disse ije, depois da ante sala, no som de Born to die, que comprei a duras penas, retruquei como se soubesse inglês,


Keep making me laugh
Let's go get high
Road's long, we carry on
Try to have fun in the meantime.

Ele nem ao menos ouviu ou me ouviu. Tampouco sabia inglês. Mas não era de todo despido de sabedoria. Sob o fundo inglês, o algodão, a fábrica, riu gostoso e indagou sobre o tempo, sobre as dobras, sobre as intensidades, fazendo do vinho e da música o que nem eu sabia ser capaz.

Pegou no nude da minha roupa intima e fez milhões de tricôs. Desse tricô, que brincou como se fossem pelos púbicos, fez tranças. Das tranças que teceu, fez cordas, que debaixo para cima, ia escalando, com se seus dentes a fincar as minhas coxas, fosse a melhor aplicação do dry looling.

Enquanto ele falava com minha lingerie, já desfigurada, posta de lado, disse para ela, como ela era úmida, gostosa, farta, intumescida na mão e na boca, como uma verdadeira buceta devia ser.


Eu não sei o que sentir, nem ao menos o que dizer as minhas amigas. Senti que naquele momento em que ele fez um monologo com ela, falava a mim e a todas depois de mim, mais que eu queria que fosse sobretudo a mim. E como eu odiei as que vieram depois de mim, odeie apenas, naquele momento único, em que ele me beijou como se fosse a única buceta possível de tanta sede, como se minha buceta o fartasse e não fosse tudo.

E, talvez, numa tarde qualquer, quando eu quiser fuder, ligue pra ele, e diga, você tem duas horas, venha e me coma, nem fale muito, só tenho duas horas. E estou sem lingerie.




Da ultima vez que publiquei, meu filho disse, pra um conto, você escreve muito pouco, pra isso é excesso. E assim...

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A volta dos que não foram



Como o herói da história que meu avô sempre contava depois da ceia, ao meu pai, fui batizado Ulisses, filho de Hércules, neto de Gideão. Meu avô gracejava sempre que a nossa estirpe era de heróis, das que figuravam nas escrituras mais antigas, ainda que suas mãos mal pegassem em lápis ou folhas, como se o que viesse antes do nosso vivido, dependesse apenas de sua fala rápida, grávida de uma memória prodigiosa.

Meus antepassados, assim como eu, desde cedo eram introduzidos nas lides da vida. Cresceram no trabalho com a terra, sulcando aquele barro vermelho, que não apenas ocupava o vinco das unhas, mas tomava conta da pele inteira. Sempre que eles despontavam, sob o pôr do sol, no alcance dos olhos, vinham trigueiros, risonhos e vermelhos, sobretudo, vermelhos, queimados do sol, banhados da terra, como se o corpo deles fosse a extensão do que faziam entre o café com batatas, servidos ainda com o canto dos galos, e a sopa de feijão de todos os fins de tarde.

Quando chegou o tempo que faria parte dessa companhia, meu avô ainda era vivo. E se eu achava que ele era um prosador de mesa cheia, descobri que as palavras eram mais abundantes do que as sementes que eu tinha que jogar entre um sulco e outro daquele vermelhão sem fim.

Assim como as tardes encarnadas, vi minha pele se pintando em meio ao falatório do meu avô e ao ritmo das enxadadas do meu pai. Curiosamente, meu pai não falava coisa alguma, quando muito resmungava que havia ouvido, depois de ser chamado com atenção.

Logo, minha mãe, que nas poucas horas que lhe sobrava das tardes de verão, se pegava no seu bem mais precioso e se punha a costurar, ganhei de presente meu primeiro par de calças, dizendo, uma roupa de gente grande, para aquele já tão crescido. Corri feliz como as galinhas depois de um dia de debulhes e sobras. Senti que ali começariam as minhas histórias e que eu semearia os que viriam de mim com o vivido de antes e o vivido dali em diante, como se o tempo pudesse ser reto em sua sabedoria e a minha vontade, de tão soberana, congelasse meus sonhos de menino a me alimentar pela vida afora.

Mas a vida, essa sim, fica bulindo nas nossas histórias. E quando ela falha, não tarda em dizer quem é que manda. Um dia, meu avô viajou, como se a prosa fosse o pior dos amigos cobrando usuras antigas, num tom zombeteiro da volta dos que não foram.  E os dias na terra passaram a ser habitados apenas pelo ritmado do meu pai, silencioso como só ele sabia ser.

Cada dia era mais longo do que o outro. A batata que antes era colhida e cozida para anunciar a lide, parecia triste, amarga, cheirando a ferro curtido de ferrugem. A sopa, que sempre anunciara os risos, as pelejas, as fanfarras, minguara igual as bravatas do velho herói.

Dei então pra me furtar do que sempre havia conhecido. Peguei mulher, juntei barriga, dei para jogar, desaprendi do ouvido, perdi dentes, fermentei o cereal plantado, cometi abusos e fui abusado quando, então, pelas estradas me joguei.

Virei caixeiro, negociante, marinheiro, cafetão, professor, mula, pesquei sereias, cacei baleias, fiz filhos, tomei tragos, provei coisa que não era de homem macho e pelo mundo todo fiz mil voltas, até me entontecer por inteiro.

Um dia, parado na janela de um prédio alto, pensei sobre aquele mundo  vagalume e para onde ainda me levaria, que milhões de novas coisas botaria em minha conta, quando me peguei lembrando de uma das histórias do meu avô, quase como se eu pudesse ouvi-lo, me chamando de novo para sentar em nossa mesa.

Essa história é a história de um grande guerreiro. Ele era forte como o touro escolhido pros cruzamentos. Ágil como guinés nas manhãs de um sábado de festa. Fértil como ele só, era pai de uma dezena de meninos. Tinha uma mulher que era linda que só ela. Um dia chamaram ele para apartar uma briga de vizinhos que viviam trocando tiros e injúrias. Lá das terras do alto da serra. E ele foi, foi com seus filhos mais velhos, já todos burregos grandes, como se fosse o general do exército francês. O caminho foi tão longe que no meio já não tinha carne seca nem pó para o café. Mas eles não voltaram atrás no prometido, o tamanho do herói era o tamanho da palavra dada. Sua mulher não tinha gostado dessa aventura, sabia que o tempo que ele havia dito que estaria em cima daquela serra, seria mais alto que ela estava disposta a esperar.


Os filhos que com ele foram, fincaram casas pelo caminho, casaram e hastearam bandeiras mundo afora, como se o caminho de ida e de vinda, deixasse de ser uma reta. Eles ali prosperaram, desbravam mato, fizeram fazenda, uns criaram gado, outros descobriram ouro. E de lá, de onde tiveram parada, mandaram presentes para sua mãe. Nunca faltou nada a ela, nada que ela não gostasse de comer e de vestir. A fartura chegava a ser tanta, que os vizinhos, vira e mexe, iam se empanturrar por lá. Tinha uns que levavam violas, outros sanfonas, sem falar nos zabumbeiros. Muitas das músicas que eram tocadas nos forrós improvisados, como se cada um dos dançantes já não soubesse dos dias que eram o das festas, falavam das histórias do grande herói. Já sabiam até como ele deu fim à guerra tão grande foi o sucesso de findar a peleja. Mas ninguém sabia onde danado ele estava. 

      Tinha até um concurso de adivinhação para dizer o dia que ele voltava. Parecia até que tinham dado destino nele até que ele voltou, porque o que faz um grande herói é a hora de ir e a hora de voltar sem perder a própria palavra, pois mesmo quando dá uma coisa dentro da gente, de sair mundo afora e ganhar todas as batalhas, se aprende que a paz não só se ganha com a guerra. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dexter mata Lobão!


A grama do vizinho verdejava sem as flores malditas. Mas nem sempre fora assim. Alguns anos atrás ele chegara com apenas uma pequena mudança. Percebi, enquanto verificava a caixa dos correios, que ele era de parcas posses. Não tinha mais do que um colchão, uma mesa de quatro cadeiras, uma geladeira velha e seu gato. Lembro que na época pensei em como ele havia conseguido entrar na nossa vizinhança, mas logo tratei de esquecer, não parecia que seria permanente.

Dias depois de sua chegada, fiquei levemente irritado com o som que vinha desse meu vizinho. Parecia que as vozes completavam a ausência de posses. Eram vozes de muitos e todos falavam com um estranho sotaque. Me aproximei da cerca viva que nos separava querendo descobrir de que lugar ele vinha. Não soube discernir totalmente, mas alguma coisa me dizia que eram nortistas. Não que tivesse descoberto alguma cadência própria. Mas pela intensidade do barulho, cordas, coros, batuques e pela cor marronzinha do vizinho, acreditei que ele tinha descido de lá.

Talvez eu até tivesse embebecido mais minhas rosas, investigado mais um pouco, se não tivesse tido um susto daqueles, quando o gato do vizinho, desses sem raça definida, escondido por entre os arbustos, me pegou olhando, como se dissesse, que indiscreto. Tratei logo de arrumar minhas ferramentas de jardim e voltei para o interior da minha casa.

Higienizei as mãos no lavabo do piso térreo e lavei o rosto. Se fosse um dia como outro qualquer, como os dias de ontem, teria passado a loção no rosto, tomado meu leite quente com amêndoas, conferido o jornal on line italiano, e ido para meus lençóis egípcios, ligado minha Foscarini e folheado os livros que o arquiteto me indicara para deixar a mão na mesinha de cabeceira. Seria o sono certo, o sono dos justos. E nunca havia me falhado.

Uma hora depois, farfalhei os panos, me descobrindo todo, como se o som que se propagava pelo mesmo céu, meu e do vizinho, tivesse invadido meu lar.

No outro dia, quando cheguei no escritório, cheguei engomado, terno em riste, riscado, o mesmo que havia usado para os dias especiais. Segui corredor adentro, parando apenas para averiguar minha agenda com a secretária, quando, com a mão já posta na empunhadura da minha sala, ela disse: O senhor está precisando de algo? Claro que disse não, claro que de forma ríspida. Apenas não sei se ela percebeu minha hesitação. Mas ela não era paga para perceber nada, lembrei, enquanto assinalava na agenda, um lembrete de substitui-la.

O caso é que aquele dia bagunçou o resto do meu tempo. Entre um processo e outro, enquanto despachava, lembrava da advertência do gato e do olhar, levemente espantado, da secretária, que cuidei de trocar no dia seguinte.

Em casa, já ambientado, preferi ficar sem ir ao jardim. Correram dias. Meses até. Nunca fui muito católico, mas acompanhei, toda noite, o jornal italiano quando noticiou a aposentadoria do papa alemão. Cheguei a pensar, que tempos loucos esses, em que festejam a saída de um europeu, salvo de passagem, com extremo bom gosto, pois secretamente me regozijei quando vi que ele havia usado o mesmo sapato vermelho que comprara para os dias de verão, ser substituído por um argentino franzino, que falava em marte, que falava em gays, que falava neles. Daquele dia em diante, preferi os noticiários ingleses. Estava farto da cobertura italiana.

Eu sabia, pela ancestralidade do meu nome, que ali, onde eu nasci, não era a minha origem. Cheguei até a pagar, uns trocos qualquer, ao melhor historiador das origens, queria mandar tecer meu brasão, em cima da lareira, pelas tecelãs usadas no último desfile prét-a-porter, mas me neguei a pendurar a renda das paraíbas. Onde eles estavam com a cabeça?

Em meio a tudo isso, tinha o meu vizinho. Ele ainda existia. Não sei se outros móveis haviam sido despachados no seu endereço. Mas, com certeza, sua velha mudança ainda estava lá.

Outro dia, esbarrei com aquele farsante de historiador que havia contratado em frente a área comum do meu condomínio. Audacioso, me informou sobre seu último artigo publicado, falando asneiras sobre as origens rurais das famílias que colonizaram meu país. Cortei rapidamente a conversa, não sem perguntar para que casa ele estava indo. Ele respondeu e eu senti uma fúria me tomando conta, como se eu reconhecesse as vozes do meu vizinho.

Nesse dia, voltei ao meu jardim. Queria ouvir, por entre o eco daquelas parcas posses, se meu nome seria anunciado. Não lavei as mãos, não peguei minhas ferramentas, apenas me aproximei da cerca viva e vi que ali era um dia de festa. Ouvi quando cantaram em coro que dois e dois eram cinco, que a estupidez era maior, as vivas a sociedade alternativa, que se vive para consertar, que a mente está na imensidão, que pelas vias se escorre o sangue e o vinho, que nem se voa nem se pode flutuar, que o dia é branco, que o jogador conhece o jogo pela regra...

Me agachei perto da mesma brecha que havia olhado no primeiro dia. Havia esquecido do gato, quando ouvi o maior dos miados: Nós gatos já nascemos pobres ...

Voltei imediatamente. Procurei na minha despensa. Peguei caviar-salmão-linguado-meu-melhor-vinho-um-charuto-de-fora-meu-melhor-sorriso-como-se-fosse-o-primeiro-dia-sem-deixar-de-levar-alguns-vinhos-italianos-da-minha-adega-preparei-como-quem-azeita-tudo-toquei-na-campainha-e-dei-as-boas-vindas-quatro-anos-depois.

O vizinho agradeceu. A visita disse: ooooi. Me virei rapidamente, me desculpando por não entrar. Fiz um afago no gato, meio sem graça, e voltei para casa.

Dias depois, o quiproquó nos jornais. As manchetes: A vizinhança desvalorizada. Professor de esquerda com rituais satânicos. Orgia e permissividade. Empresários fogem para Miami. Juiz processa agente do Detran por estar embriagado. Helicóptero com cocaína é da família do senador. Dexter mata Lobão! 


ps. acompanhei todas as notícias. Eu e o gato. O adotei, pelo bem da comunidade. Era o meu pro-brono-especial. Só lamento ele não ter raça alguma

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eu sou...


Meu nome é Manuel e eu sou alcoólatra. Hoje são seis anos sem tomar uma gota de qualquer bebida barata ou não. Mas minha dor contabiliza 10 anos. São dez anos que não escuto a barulheira de Ellen ou de João, quando ao chegarem da escola, perguntavam a sua mãe Carmen, minha esposa, papai chegou? Ela, que também já não está no meu cotidiano, dizia sempre aos nossos filhos, ele está quase chegando.  Não por acaso sou contador da firma que fora do meu tio. E por isso não esqueço a contagem de cada dia passado do que aconteceu há dez anos atrás, quando cheguei tarde para o encontro com as crianças, causando espirros na mais alérgica delas, quando disse, desculpem papai, hoje o dia foi longo, foram muitas contas a prestar, que tal irmos todos comermos uma pizza. A criançada adora uma pizza. Carmen não, seu pesar de mais uma noite a dormir com o ronco da minha bebedeira, lhe fazia pensar na farofa de cuscuz e na galinha que passara a tarde toda a temperar. Estava cansada, eu sabia, como sabia também que não adiantava justificar o dia todo, pressionado que estava para pôr ordem nas contas da empresa. Ela não entendia que o fato de ser sobrinho do chefe de tudo, me tributava uma carga maior. E que eu precisava da saída, depois do trabalho, para encontrar com os amigos e sentir que meu corpo era como aquela cerveja aberta, despressurizando o dia. Carmen, conformada com a alegria das crianças, enquanto guardava nas suas gavetas seu próprio desgosto, sorriu e disse naquela voz de mãe, a Ellen e a João, não esqueçam seus casacos, a noite promete chuva. Tentou pegar a chave da perua, que costumava rodar pela cidade, preenchendo de víveres para o consumo da semana, para os tantos jantares não comidos por mim, sem falar nas tantas tralhas das crianças, quando eu disse, não, vamos no meu carro, já está lá fora. Seguimos os quatros e para quem nos viu chegar na pizzaria de Francesca, parecia acompanhar os sorrisos dos meus filhos, como a acrescentar, que bela é essa família. Enquanto o pedido era feito, com as arengas sobre os sabores, pedi um balde de long neck, sob o olhar cansado da minha mulher e me servi antes de todos. A pizzaria de Francesca era o nosso cantinho, sempre íamos, tinha balanço, quadros de pintar e tantas outras distrações para os casais com filhos, enquanto esperavam pelo sabor quentinho vindo do forno de lenha. Enquanto a pizza não estava pronta, ligeiramente consumi meu balde, enquanto Carmen se serviu de suco de abacaxi com hortelã. Ela estava em outra das suas loucas dietas, emagrecendo a olhos vistos, tão esbelta quanto no dia em que me lembro de ter me apaixonado por ela. Durante o tempo do retorno do garçom, não falamos muito, parecia que nem era necessário, quando muito as perguntas de sempre, o que faremos no final de semana, você viu o carro novo do José, estou pensando em fazer yoga, me matriculei num curso de arte daquele Instituto Multicultural da Rua Cinco. Para tudo que escutava, sem ouvir, eu balançava a cabeça e dava a maior força, até que o silêncio tomava conta de mim e eu apenas colhia as palavras de Carmen para poder separá-las em letras de quatro em quatro. Parecia que os números não ficavam no escritório, mas estavam enterrados na minha consciência. A pizza chegou, pedi mais um baldinho, que veio suado, quase como se me prometesse um refrescamento íntimo. Juntos, depois deles se alimentarem, nos reunimos para irmos para casa, acenamos para outros casais conhecidos, e pegamos a estrada. Na altura da Rua São Jorge, já garoando, virei para a direita sem ligar a seta. O caminho era conhecido e meu desejo era deitar meu corpo, pois na horizontal os números não me incomodavam. Não lembro de mais nada depois daquela curva. Acordei no hospital, cheio de curativos leves, cabeça ainda meio zonza, que pareceu entrar em curto-circuito, quando o médico, apressado em atender os outros feridos, me deu alta, não sem antes dizer, sinto muito. Só o senhor sobreviveu ao acidente. Do meu lado, ouvi gemidos. Pareciam também terem sobrevividos ao crash, apesar de suas ataduras terem o alcance de uma múmia. A enfermeira, enquanto eu catava os rebotalhos da roupa do escritório, chegou, com passo macio, perguntando se poderia ligar para alguém da família para que me acompanhassem em casa. Eu só pensei que minha família éramos nós quatro. Agradeci. E sai. No primeiro dos bares, logo na rua ao lado direito do hospital, parei e bebi meus mortos. Os bebi por quatro anos seguidos. E na conta dos quatro anos, quando lembrei que a-n-o-s significa a conta perfeita na minha mente, parei de beber. Hoje fez seis anos. S-e-i-s-a-n-o-s. E me sinto completo na incompletude. É isso.

Os aplausos foram fortes. E ele me pareceu precisar de muita matemática das palavras perfeitas, porque enquanto ouvia o cumprimento dos outros, seu rosto pedia desesperadamente um trago, para afoga-lo num copo qualquer.

A história que veio depois da dele parecia repetir um refrão que cheirava a cravos e defuntos. Assim como as próximas narrativas. Todos diziam o próprio nome, seguido do Eu sou alcoólatra.

E eu pensava no Eu sou como a primeira das coisas a serem ditas naquele círculo de cadeiras. Todos sabiam que as histórias narradas ali, embaixo daquelas telhas vermelhas, seriam ecoadas apenas nos ladrilhos desbotados, riscados pelo arrastar de tantas sessões e pelo passo pesado de todos, como se o ritornelo circular daquela disposição de corpos, criasse uma sinergia em que simultaneamente as leituras sobre o passado fizesse uma combinatória singular sobre a posteridade das experiências.

O instrutor, que ouvia atentamente a todos, ele também um ex, olhou para mim, que ali estava pela primeira vez e perguntou se eu queria partilhar.

Cruzei minhas pernas, passei, nervosamente, os dedos por entre os cabelos e falei bem baixo meu nome. Quando articulei o Eu sou... entendi que aquele grupo não me pertencia. Que eu, ainda, não poderia me nomear. E na ausência de mim, juntei minha bolsa e o guarda-chuva que havia deixado no chão, ao lado da minha cadeira, saindo apressada, sem nem ao menos me desculpar ou dizer até logo.

Demorei para achar as chaves do carro na urgência toda que me habitava. Ao dar partida no motor, soou o rádio, na voz de Gal, “um dia eu volto, talvez eu volte, um dia eu volto, quem sabe...”

Procurei o boteco perto do hospital que Manuel falou e dessa vez, como há muito não fazia, pedi duas doses duplas com gelo e limão. D-u-a-s-d-o-s-e-s-d-u-p-l-a-s-c-o-m-g-e-l-o-e-l-i-m-ã-o. 4 de 6. Os anos que eram dele, contados na dor de seu relato, me pareceu a soma perfeita, o alinhamento de t-u-d-o.

            Ou quem sabe, nada. N-a-d-a.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O quinto



Ela era a senhora do mundo. Semeava a terra, o vento, o ar e o fogo, não necessariamente nessa ordem. Apesar do saber só ser da Senhora, ela era magnânima. Instituiu como A primeira reforma, a cartilha a ser doada para todos. E nela, doou, como quem multiplica a vida, a consciência para todos. Disse que os tempos de outrora era tempos de desordem, tempos de amores vis, de quiproquós insignificantes, de colonização da legião, das paradas de multidões sem cerne, só carne sem o dom da vida, de corpos sem espíritos.

Era preciso, aprendi pequenina, não pelos números de anos, mas pela ausência de memória, que a vida de outrora, do Antes de tudo, as pessoas tinham a barriga cheia, mas eram vazias do Espírito. Não se conectavam com a terra, com as flores, com as árvores, que deviam crescer, lado a lado, para que a colheita, de cada uma das culturas, não se misturasse com as outras. Os campos, de terra e de água, fecundadas, era verdadeiras miragens, coisas para um homem só.

Eu cresci colhendo soja. Minha mãe colheu soja também. Soube que minha avó idem.

Das antigas escrituras, que achei guardada enterrada ao lado do túmulo da minha bisavó, cuja letra até hoje sinto dificuldades em decifrar, tinha mais páginas do que cinzas.

Não que eu tivesse desejado profanar o corpo de quem um dia fora o depósito de algo maior. Não fui eu que perscrutei a superfície das lápides remotas. Era mais uma das reformas da Senhora. Aqueles cujo batismo não foi no Templo Divino, que eram os chamados seguidores da legião, que pariram sem fé, que deram sem autorização, que não procriaram na Lei, que não racharam os seios aos filhos, que afrontaram o locatário do divino... Desculpe, pela falta de todos os registros, eu ainda sou da quarta série. Não lembro de todos os Mandamentos. Eu apenas passava por lá, quando as máquinas começaram a revolver a terra, desocupando o solo profano, quando vi, que ao lado da terra revolvida, brotava como que fosse o pecado das profundezas todas, centenas de livros e todas eram assinaladas pelo nome da minha bisavó.

Sai ligeira de lá, com o catecismo embaixo do braço, já sentindo o corpo em brasa, como se fosse padecer pela ausência da Senhora. Juro, Senhora, juro aqui, nesse depoimento, que foi assim. E, por essa falta, me martirizo.

Acho que quando voltei ao desterrado, voltei porque estava em febre. Não tive intenção de ir contra as reformas. Sei que o espirito fica abaixo do meu peito. Sei que preciso ouvi-lo, mas do que a minha cabeça, que insiste em incendiar minhas noites. Sei também que minha mente deve saber de onde o Espírito me chega. Eu sei de tudo isso, minha Senhora. Nem fui a primeira da classe. Demorei um pouco para entoar os cânticos. Sei que errei em algumas falas. Mas eu sempre semeie aquilo que me foi ensinado.

Primeiro a Senhora. Segundo Ele. Terceiro a Família.

Mas ela era minha bisavó. Era família. E não sabia do seu passado pregresso. O importante não era o presente, Senhora? Pensei que indo lá, sabedora da devoção das minhas origens familiares inteiras, estava preservando o primeiro dos mandamentos.


Sei qual o meu lugar, sei do que ouvi da minha mãe, e do pouco que pude escutar da minha avó. Já estou perto de fazer filho, queria poder dizer a ele ou a ela, da origem de quem plantou num campo inteiro e comeu da sua mão. Queria dizer ao meu filho, cujo pai seria da sua escolha, que a terra plantada e a colheita levada, era o inteiro da vida da nossa família.

Mas eu não pude deixar de ler. Mas eu não pude deixar de ler. Li tudo. Li sobre um tal de Pessoa. Saramago. Manoel de Barros. Orwell. Marx. Rowling. Huxley. Palahniuk. Collins. Foucault. Dick. Loureiro. Assaré. Dickens. Sade... li todos no máximo de dois dias, como se tivesse furtado algo que meu espírito devolveria depois de um fim de semana.

Durante esse tempo, não comi o fruto da terra, não bebi água. Me ausentei do grupo das queimadas e tampouco consegui respirar como antes. Sei que meu tempo se foi. Já gastei o quinto da hora me dada, mas agora estou pronta para ir. Liguem as máquinas. Que o filho que hoje será preservado da minha morte, tenha todos os elementos. Os que a Senhora professa e os que acredito serem minha herança.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ressuscita-me

Sozinha, ao seu lado, enquanto toma a sua cerveja, pedindo, mulher, seja boa, traga outra, fico imaginando, por quantos acertos tão mais, terei que responder. Você me olha de lado, dizendo que meu penteado tá chique, mas era o mesmo de onze meses atrás e agora sim. Espere mais um pouco. Disse tudo isso, sem nem ao menos olhar, enquanto trocava os canais.

Eu sabia, quase sem saber, que o tempo passado, oito vezes oito, seria a nossa conta do infinito, mas não estava pronta ainda por me dar por vencida. Nem sei que guerra era essa que travei por tanto tempo. Nosso melhor de nós já era falecido. Ele e sua guitarra azul. Morreu de over, me disseram, naquela que era a melhor das estações. E eu sem saber querendo ver aquela berrante tatuagem de coração vermelho coroado de espinhos, apenas desejando, bata novamente por mim, por favor. Ele viajou cedo e deixou suas mochilas todas, no mesmo quarto que hoje é usado para as costuras que faço, tentando aqui e ali, o trocado para o pior dos meus vícios.

No íntimo, daquela intimidade que nem se confessa em pesadelos, pedi a Deus, me leve antes, não me deixe sem o dia em que a falta supurasse todos os meus quereres, como se ao pedir tanto, fizesse do outro, lugar de silêncio, de todo silêncio que aprendi a conviver com ele, que me pede outra cerveja. Sabia que a fala terminaria logo, no refrigerador, tinha apenas um par delas.

Mas ele nunca foi de muitas palavras. Quando muito dizia, Deus proverá. E assim foi me fiando e eu, toda fiada, como quem fizesse do dia a dia a coleção dos melhores retalhos, me ocupasse apenas a coser.  E olha, que a colcha daria para cobrir a cama de muitos de mim, apenas de mim, como se a colcha e a prateleira fossem a soma da minha vida toda.

Como no dia em que ele, em meio a festa do milho, na fazenda antiga, quando todos celebravam a chuva, olhou para mim e disse, quero fazer uma fazenda com você, daquelas enfeitadas de mil tricôs, bordados e ardores. Logo eu, que só gostava de pinturas, sonhava em ser artista, queria que meu rosto fosse a tela em branco, cujo desenho, pudesse ser rabisco, pudesse ser estilo, pudesse ser o milagre que me foi negado no dia em que nasci. Da fazenda dele, sonhei com milhões de paisagens. Me senti terra fecundada. E me despedi dos mil artistas que me viriam.

Já levo, digo da cozinha, enquanto destampava a saideira. Tinha, antes de pensar em somar, apenas um par. Ao entregar, em mãos, boa mulher que sou, pensando na fazenda que deixamos para trás, eu e ele, sem o som da guitarra que alegrou e preocupou nossos dias, apenas eu e ele, despido de filho, sem os netos a acenar com a posteridade, sem as fogueiras, o milho e o céu, solucei, como se tivesse, entre uma ida e outra, entre a cozinha e a sala, emborcado o múltiplo do bebido da vida dele inteira.

Fiquei embriagada, tropecei sobre ele e o cortei na mão em que ele esperava ser servido. Ele, arquejando, disse, mulher, você me cortou, e eu apenas disse, me dê um gole, pintando, finalmente, meus lábios de rubro.

E foi assim, não como era uma vez, sem contos nenhum, que teci mais uma peça, depois de décadas, para a colcha que desconfiava dos acasos, como se a pintura, enfim, tivesse a mão do sentido ou apenas mais uma peça cerzida...


Ps. eu teria que terminar, mais tenho problemas. Mas pela primeira vez, a última das cervejas abri para mim, apesar de bebermos os dois. E nunca me senti tão maquiada.