sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobre os astros




Conta a lenda que um dia chegaria aquela que leria os sinais todos, da água, da terra, do fogo e do ar, e que dessa leitura aprenderiam a ser leve, bem leve, leve na vida, leve como o pulo do gato, leve como o cheiro do bafo de chuva, leve como uma corrida desenfreada, leve, apenas leve.

Aqueles que naquela comunidade moravam, ou por lá ocupavam as suas tardes ou suas noites, experimentando o fardo dos dias mais árduos ou o frenesi dos mergulhos simultâneos, não entendiam como naquele espaço tão circunscrito e tão estéril, brotava, entre entulhos e bagulhos, as flores mais raras. Cada flor era um acontecimento em si mesmo e parecia ser o presságio da vinda dela.

Raros eram os eventos em que se reuniam todos. Raro, como um trevo de quatro folhas, raro, como um tempo não tão contínuo. Desses encontros, pouco se encontra nos registros históricos, mas isso nunca seria um problema, ou, tampouco, afetaria as memórias, pois a singularidade de tanta raridade era multiplicada em milhares de outros momentos.

Momentos como naquele dia, em que desavisados, pegaram as estradas erradas e experimentaram o suco em bolhas que explodia garganta adentro e deixava o riso solto de tão doce.

Ou como no outro, quando depois de falarem horas a fio, ninguém entendia mais nada, como se a fala de jazz, que soava como rock, que amava como uma bossa tão nova, fosse a antiga música ancestral, dos batuques, das dissonâncias e dos encontros.

Um dia, inclusive, uma delas disse, num dia que não era de fala, disse cochichando no ouvido de outro, que há muito, no dia em que ela soube da profecia, tinha ouvido outra história qualquer, que nem sabia porque aquilo dizia, mas que queria dizer baixinho, como se fosse contar o maior dos segredos, e como se aquilo fosse uma tarefa hercúlea, para ela que contava e para o outro que se engravidava do segredo ao pé do ouvido.

Quando aquela que decifrará a água, a terra, o fogo e o ar
Nos quatro elementos, decodificar
Talvez ela diga para os quatro dos quatros dos quatros de todos nós
Que a ligeireza da vida pede ritmos diferentes

Que aquele que explode e sai na frente em frente
Vem um largado, cavalgando atrás
Levando o destino adiante
Pois o fogo precisa do ar
Que leva a bandeira para o próximo, como numa
Maratona de milhares de metros

E que daí, bem dali, a terra segura os empurrões de todas as vidas
Porque a vida é sobretudo água,
Fluida, fecunda, mutável e transformadora
Ela fecunda a terra
Aplaina o fogo, condensando todo o nosso ar


Aquele que ouviu entendeu pouco, entendeu muito. Sentiu que ali estava a leitura do mundo. E já não era necessário esperar. Estava ali. E ali ficou, escutando a vontade de verdade de todos os astros.


P.S. Baseado numa história real.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Mar e brisa



Era uma vez uma pequena que veio de muito, muito longe, do outro lado do mundo, daquele lado de lá que a gente pensa sobre o que aconteceria conosco sem a gravidade, quando caímos em buracos pela vida afora. Quando ela veio, veio como semente, cruzando mares.

Para alguns, ela era uma promessa, um espírito, uma ideia. Eu sempre a pensei como semente. O fato é que ela chegou depois de uma longa travessia. Veio embalada na esperança de novos futuros, de novas habitações, veio como célula a germinar após duas gerações de travessia.

Logo cedo, essa pequena aprendeu a colher. Não raro, era vista ora nos bananais de sua família, ora pilotando uma grande máquina de entrega dos frutos. Foi na terra, portanto, que ela cresceu. Mas logo, aprendeu a olhar para o céu. Como se ainda tivesse em seu íntimo toda a potência das travessias e, quando chegou o momento, o cruzou.

Foi para uma terra também distante. Veio para perto do mar. Aqui fez família, jarros em flor, ofertou orquídeas aos mais chegados, encantou muitos e estudou os astros.

Se apaixonou pelo sertão e lá, apenas ela, sentia a brisa de todas as travessias.

Desde pequena princesa, até se empoderar rainha, sem príncipe, sem rei, sem reino. Apenas a senhora do mar e da brisa.


Um dia, talvez, eu termine essa história, mas ainda não é chegado o tempo, pois há muita terra ainda a ser germinada. Por isso, essa é uma história curtinha, ainda existem muitas linhas a serem preenchidas pelas travessias dessa pequena, tão grande, rainha do mar e da brisa.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Notas de uma professora



Hoje estou velha, muito velha. Começou assim seu discurso como paraninfa da última turma de formandos daquela escola de freiras em que tinha ensinado mais de meio século, estudado uma década. Muitos de vocês estão me vendo em carne viva pela primeira vez, mas sou aquela cujo retrato está pendurado no bebedouro do corredor do Lado B, por isso posso dizer que estou aqui uma vida inteira. Talvez os que lhe pariram, ou os que pariram os que lhe pariram, tenham me conhecido nos tempos em que a lousa e eu erámos amigas inseparáveis. Hoje mal posso segurar minhas notas, tampouco posso me furtar delas e confiar na minha memória. O salão, lindamente decorado, flores, arranjos, toalhas de linho, os perfumes mais variados, não parecia tão atento e, assim, ela sentiu que estava em casa. Não posso mensurar o que significou para mim esse convite. Desde que o recebi, que escrevo poesia e leio filosofia, que voltei a ouvir música e a pintar aquarelas, que penso no que poderia dizer a tantos jovens que estão a se formar. Reconheço muitos dos que aqui estão. Vejo médicos, advogados, políticos, padres, gente distinta, alguns executivos, e sinto que contribui para isso. Nisso, uma salva de palmas vinda do lado esquerdo, puxou uma verdadeira ovação. Não sabemos se o repentino rubor que lhe escureceu as faces, era resultado do excessivo burburinho ou do rouge mal aplicado. De qualquer maneira, o salão parecia mais ouvido. Não que isso tivesse feito alguma diferença para a palestrante. Assim como o alcance de sua visão, há muito que pouco lhe chegava aos ouvidos, nem mesma a sua própria voz ela conseguia, seguramente, acompanhar. Nada disso a intimidou, nem quando ela disse, que havia dedicado sua vida a educação e que essa era a sua vocação. Muitas outras palmas seguiram sua fala. Ela sabia disso porque sentia que havia um certo deslocamento no ar. Não daqueles que a deixavam enjoada, com ânsias, mas do outro tipo, que parecia acender lugares há muito enregelados. Minha vida inteira dediquei ao ensino, continuou, e hoje sou realizada por estar aqui, vendo meu trabalho reconhecido. Quero agradecer a todos vocês que tornaram isso possível. E quero desejar a vocês que hoje se formam um destino igualmente compromissado, qualquer que seja o caminho escolhido. Foi minha fortuna servir como professora. E desejo fortuna a todos vocês, porque ninguém vive sem partilhar. Recebo essa homenagem com muito carinho e espero nunca esquecer esse dia. É isso que ainda me faz estar viva. Isso e o carinho dos meus ex-alunos. Se ela pudesse enxergar, talvez desconfiasse do pipocar de luzes que vinham da plateia. Se ela tivesse um smartphone e quiça soubesse o que era isso, talvez suspeitasse do efêmero de todos os monumentos, quando sua imagem congelada se multiplicava em milhares de retratos mundo afora, minha professora de infância#, tão querida#, me ensinou os valores da vida#, inesquecível professora#, Dona Carmen, lúcida como no meu tempo de menino#, Professora querida#, Foi minha professora, hoje é da minha princesa#, amo#, Saudades eternas#, nunca esquecerei minha primeira professora#, agradeço a professora carminha que me ensinou a ler#... O mestre de cerimônias já se encaminhava para pegar o microfone, quando ela suspirou profundamente e disse que queria, ainda, aproveitar a ocasião para agradecer em especial a alguns ex-alunos, que ela não sabia se estariam na plateia, mas que nunca a esqueceram. Agradeceu ao doutor João pelo ecocardiograma que ela não pode pagar e pela receita genérica, que conseguia renovar mês após mês, na fila da Pharmacia J. Um beijo no coração para a senhora Marluce, que havia lhe deixado morar no quarto da Rua das Camélias. Os panetones que recebeu no natal, durante cinco anos seguidos, do senhor Arthur. Um agradecimento especial ao doutor Carlos, que havia agilizado sua aposentadoria, depois de várias idas ao INSS, quando a cadastrou como sitiante de alguma de suas terras. E, finalmente, a Eduarda, ex-aluna, tão bonitinha, que sempre encenava, por causa do enroladinho negro dos seus cabelos, a irmã má de Cinderela, nessa mesma escola, hoje professora e escritora, que lhe dedicou o livro Ironias do feminino: vida que [não] merece ser vivida. Me despeço, então, com um Muito Obrigada.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Me abandone jamais



      
Ainda era menino moço quando tive minha mão prometida a ela. Da promessa feita, recebi, vindo de muito longe, uma fotografia três por quatro, uma carta desenhada por letras miúdas e cacheadas e um lenço manchado de batom, que no contraste com o pequeno do riscado, parecia maior do que qualquer outra boca já vista por mim.

Não sabia exatamente o que significavam aquelas ofertas nem tampouco o que viria a ser o prometido da coisa toda, mas isso não ocupava os meus tempos de mocidade. Gostava mesmo era do jogo de bila no quintal do vizinho, depois de uma chuva caída, quando a terra assentava igual cimento fresco, aguardando o escultor mais audacioso, modelando curvas, rampas, buracos, muros, como se o mundo pudesse ser desenhado e superado num tempo comum. 

Nos dias de terra seca, quando o sol era o desafio maior, acendendo o mundo com a quentura do fogo, bom mesmo era quando vinha o vento por trás da serra de Seu José, espantando a brasa da pele, como se fosse o combustível perfeito para as pipas que eu e muitos dos meus amigos fazíamos com as riscas dos coqueiros, os papeis de presentes que pegávamos de nossas avós, colados com o sumo dos arbustos do sertão e empinadas com os carreteis emendados, pintassem os céus do colorido de todos os arco-íris. Nem sei porque lembrei disso tudo, pois a conta dessa memória é igual ao maior feito de um trancoso. Uma conta maior do que os trinta vezes trinta, quando os zeros não nos é familiar. Ainda assim, todo feliz, naquele sertão.

E quando nos trinta cheguei, já não tinha o tempo de me ocupar com o tido, talvez o ido, pois os marcadores já eram espaciais e ela vinha de viagem, prometida que estava por aqueles que por mim falavam. No dia que ela chegou, olhei de banda, na segunda melhor roupa que tinha, sapato engomado, bigode cerzido, perfume oleado. Reparei que ela era toda alinhada, cheirosa como cravo de rosa, bonita como uma pedra polida, viçosa como uma floresta encantada.

Todo tímido fiquei, olhei sem nem ver, sorri para dentro, fiz as mesuras todas e a promessa cumpri. Cumpri também de banda, do lado que nem era meu, com a melhor roupa que tinha. Tiraram fotos, fizeram brindes, jogaram rosas, nos deram casa, geladeira, fogão, cama, sofá e toalhas.  Mas desde o primeiro dia, que eu a vi e que penso que ela me olhou, que fiquei desconfiado. Fiz como homem as mesmas coisas que sabia que tinha que fazer quando menino. Fiz assim de eito, tentando fazer certo, de jeito a não deixar faltar o pão de milho, a carne de toda semana e a conta de luz, muitas vezes atrasada.

Ocupado que estava, com as coisas por mim não prometidas, verguei sobre os dias todos. Foram semanas, meses, anos, com ela compartilhados, na labuta ferrenha, dos filhos já nascidos, das ressacas ressentidas, das traições permitidas, das rinhas envelhecidas, que depois de algumas taças vencidas, ela me olhou e cantou, quase numa rima antiga:


Eu venho de longe e do tempo
Que me prometeram
Não me disseram que seriam
Senhores do meu dia
Nem censores das minhas noites
E vim sem atinar nem nada

Mas quando lhe vi
De algodão bordado
Sandália trançada
Cigarro de palha

Pensei num mundo sem igual
Suspirei folgada
Tive os seus filhos todos
Lavei muita louça tão louca

Nem vi os dias passarem, apesar de conta-los todos
Acordei cedo, dormi cedo também
Afoguei meus calores no abanar de minhas saias
Tentei ser mais calma, mais rápida

Aprendi a ouvir suas biritas todas
E no dia seguinte, sem cor, botei meu batom vermelho
Funguei o vento de minhas deusas todas
E me despi das brincadeiras de menina

Quando me chegou pelo correio
Um pedido de promessa eterna
Acreditei na folha das postagens
E das rimas muitas vezes lidas
Outra vezes ouvidas

Dos amores cantados
E de velhas histórias de amor
Acreditei que escreveria a minha, que seria sua
Que seria nossa

Mas roubaram o que nem era meu
Tomaram a minha vida inteira
No dia mesmo do prometido
Como se eu pudesse pedir a um maestro
Podemos refazer de novo?

Como se a refazenda da vida
De hoje pra ontem
Me deixasse mais sábia ou quiça você
Nem hoje nem amanhã tampouco antes

Eu pudesse dizer
Não me abandone jamais
Ou pelos menos as cartas de outrem...
Quando me chegou sua foto, todo feliz
     quando eu querendo
sertão menino.




Ouvindo assim, olhando para ela, quando a lua, combinou com um brilho qualquer, eu pudesse, no meu arfar, ser um outro, o outro possível para ela. O outro possível para mim. E, finalmente, a desejei.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Born to die


Naquela tarde quando me dei por recebe-lo, fiz da minha vida um de tudo, sabedora do curto das horas. Sabia que seria o tempo de uma garrafa de vinho de taças em par, uma tarde de jour. Claro que havia duas garrafas a mais no armário da cozinha, só não desejava que minha ansiedade pudesse ser comprovada no meu refrigerador, não com ele, que sempre se fazia tão apressado, dizendo tenho duas horas.

Também queria ser assim, apressada. Mas meu tempo era o de antigamente. Nas duas horas para ele, passava semanas inteiras a pensar, hora e meia na manicure, cinco horas de faxina no meu apartamento, duas horas na depiladora e o tempo que se gasta para se ter uma epifania sobre que lingerie usar.

Se eu narrasse a tarde toda, você poderia achar que sou afeita a esses encontros. Não é o caso. Só agora me permiti. Minhas amigas, as de longa data, sabem do que estou falando. Sabem, inclusive, que o tom dessa minha narrativa poderia ser cômico, como se apenas eu pudesse rir de mim mesma. E apenas para mim e para elas, confesso.

Confesso que naquelas duas horas, do momento em que ele tocou na minha campainha e chegou todo ligeiro, afoito numa tarde de outubro, como se só tivesse me visto em fevereiro, tive receio de que não me reconhecesse em maio, de que passasse pelo umbral da porta em julho, cruzasse a ante sala em agosto e deitasse na minha cama em setembro, tivesse finda as duas horas em novembro, quando o tempo se revelasse o de um ano inteiro.

Ije, disse, enquanto ele estava sentado no meu sofá de algodão e passava uma mão por entre os seus cabelos, enquanto a outra ocupava de segura-lo pelo queixo. Escolhi essa calcinha para você.

Ele rapidamente se refez. Deu mais um gole no vinho ainda frio. E me olhou profundamente, enquanto dizia, nunca a vi tão bela, tão bela. Quero beijá-la até sentir seus lábios tremerem, como se ali fosse um rosto, afogueado, de todo ardente, quando me disse infinitos ardores e me declamou todos os fervores.

Seria assim minha narrativa, se fosse por acaso publiciza-la.
Mais do momento em que disse ije, depois da ante sala, no som de Born to die, que comprei a duras penas, retruquei como se soubesse inglês,


Keep making me laugh
Let's go get high
Road's long, we carry on
Try to have fun in the meantime.

Ele nem ao menos ouviu ou me ouviu. Tampouco sabia inglês. Mas não era de todo despido de sabedoria. Sob o fundo inglês, o algodão, a fábrica, riu gostoso e indagou sobre o tempo, sobre as dobras, sobre as intensidades, fazendo do vinho e da música o que nem eu sabia ser capaz.

Pegou no nude da minha roupa intima e fez milhões de tricôs. Desse tricô, que brincou como se fossem pelos púbicos, fez tranças. Das tranças que teceu, fez cordas, que debaixo para cima, ia escalando, com se seus dentes a fincar as minhas coxas, fosse a melhor aplicação do dry looling.

Enquanto ele falava com minha lingerie, já desfigurada, posta de lado, disse para ela, como ela era úmida, gostosa, farta, intumescida na mão e na boca, como uma verdadeira buceta devia ser.


Eu não sei o que sentir, nem ao menos o que dizer as minhas amigas. Senti que naquele momento em que ele fez um monologo com ela, falava a mim e a todas depois de mim, mais que eu queria que fosse sobretudo a mim. E como eu odiei as que vieram depois de mim, odeie apenas, naquele momento único, em que ele me beijou como se fosse a única buceta possível de tanta sede, como se minha buceta o fartasse e não fosse tudo.

E, talvez, numa tarde qualquer, quando eu quiser fuder, ligue pra ele, e diga, você tem duas horas, venha e me coma, nem fale muito, só tenho duas horas. E estou sem lingerie.




Da ultima vez que publiquei, meu filho disse, pra um conto, você escreve muito pouco, pra isso é excesso. E assim...

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A volta dos que não foram



Como o herói da história que meu avô sempre contava depois da ceia, ao meu pai, fui batizado Ulisses, filho de Hércules, neto de Gideão. Meu avô gracejava sempre que a nossa estirpe era de heróis, das que figuravam nas escrituras mais antigas, ainda que suas mãos mal pegassem em lápis ou folhas, como se o que viesse antes do nosso vivido, dependesse apenas de sua fala rápida, grávida de uma memória prodigiosa.

Meus antepassados, assim como eu, desde cedo eram introduzidos nas lides da vida. Cresceram no trabalho com a terra, sulcando aquele barro vermelho, que não apenas ocupava o vinco das unhas, mas tomava conta da pele inteira. Sempre que eles despontavam, sob o pôr do sol, no alcance dos olhos, vinham trigueiros, risonhos e vermelhos, sobretudo, vermelhos, queimados do sol, banhados da terra, como se o corpo deles fosse a extensão do que faziam entre o café com batatas, servidos ainda com o canto dos galos, e a sopa de feijão de todos os fins de tarde.

Quando chegou o tempo que faria parte dessa companhia, meu avô ainda era vivo. E se eu achava que ele era um prosador de mesa cheia, descobri que as palavras eram mais abundantes do que as sementes que eu tinha que jogar entre um sulco e outro daquele vermelhão sem fim.

Assim como as tardes encarnadas, vi minha pele se pintando em meio ao falatório do meu avô e ao ritmo das enxadadas do meu pai. Curiosamente, meu pai não falava coisa alguma, quando muito resmungava que havia ouvido, depois de ser chamado com atenção.

Logo, minha mãe, que nas poucas horas que lhe sobrava das tardes de verão, se pegava no seu bem mais precioso e se punha a costurar, ganhei de presente meu primeiro par de calças, dizendo, uma roupa de gente grande, para aquele já tão crescido. Corri feliz como as galinhas depois de um dia de debulhes e sobras. Senti que ali começariam as minhas histórias e que eu semearia os que viriam de mim com o vivido de antes e o vivido dali em diante, como se o tempo pudesse ser reto em sua sabedoria e a minha vontade, de tão soberana, congelasse meus sonhos de menino a me alimentar pela vida afora.

Mas a vida, essa sim, fica bulindo nas nossas histórias. E quando ela falha, não tarda em dizer quem é que manda. Um dia, meu avô viajou, como se a prosa fosse o pior dos amigos cobrando usuras antigas, num tom zombeteiro da volta dos que não foram.  E os dias na terra passaram a ser habitados apenas pelo ritmado do meu pai, silencioso como só ele sabia ser.

Cada dia era mais longo do que o outro. A batata que antes era colhida e cozida para anunciar a lide, parecia triste, amarga, cheirando a ferro curtido de ferrugem. A sopa, que sempre anunciara os risos, as pelejas, as fanfarras, minguara igual as bravatas do velho herói.

Dei então pra me furtar do que sempre havia conhecido. Peguei mulher, juntei barriga, dei para jogar, desaprendi do ouvido, perdi dentes, fermentei o cereal plantado, cometi abusos e fui abusado quando, então, pelas estradas me joguei.

Virei caixeiro, negociante, marinheiro, cafetão, professor, mula, pesquei sereias, cacei baleias, fiz filhos, tomei tragos, provei coisa que não era de homem macho e pelo mundo todo fiz mil voltas, até me entontecer por inteiro.

Um dia, parado na janela de um prédio alto, pensei sobre aquele mundo  vagalume e para onde ainda me levaria, que milhões de novas coisas botaria em minha conta, quando me peguei lembrando de uma das histórias do meu avô, quase como se eu pudesse ouvi-lo, me chamando de novo para sentar em nossa mesa.

Essa história é a história de um grande guerreiro. Ele era forte como o touro escolhido pros cruzamentos. Ágil como guinés nas manhãs de um sábado de festa. Fértil como ele só, era pai de uma dezena de meninos. Tinha uma mulher que era linda que só ela. Um dia chamaram ele para apartar uma briga de vizinhos que viviam trocando tiros e injúrias. Lá das terras do alto da serra. E ele foi, foi com seus filhos mais velhos, já todos burregos grandes, como se fosse o general do exército francês. O caminho foi tão longe que no meio já não tinha carne seca nem pó para o café. Mas eles não voltaram atrás no prometido, o tamanho do herói era o tamanho da palavra dada. Sua mulher não tinha gostado dessa aventura, sabia que o tempo que ele havia dito que estaria em cima daquela serra, seria mais alto que ela estava disposta a esperar.


Os filhos que com ele foram, fincaram casas pelo caminho, casaram e hastearam bandeiras mundo afora, como se o caminho de ida e de vinda, deixasse de ser uma reta. Eles ali prosperaram, desbravam mato, fizeram fazenda, uns criaram gado, outros descobriram ouro. E de lá, de onde tiveram parada, mandaram presentes para sua mãe. Nunca faltou nada a ela, nada que ela não gostasse de comer e de vestir. A fartura chegava a ser tanta, que os vizinhos, vira e mexe, iam se empanturrar por lá. Tinha uns que levavam violas, outros sanfonas, sem falar nos zabumbeiros. Muitas das músicas que eram tocadas nos forrós improvisados, como se cada um dos dançantes já não soubesse dos dias que eram o das festas, falavam das histórias do grande herói. Já sabiam até como ele deu fim à guerra tão grande foi o sucesso de findar a peleja. Mas ninguém sabia onde danado ele estava. 

      Tinha até um concurso de adivinhação para dizer o dia que ele voltava. Parecia até que tinham dado destino nele até que ele voltou, porque o que faz um grande herói é a hora de ir e a hora de voltar sem perder a própria palavra, pois mesmo quando dá uma coisa dentro da gente, de sair mundo afora e ganhar todas as batalhas, se aprende que a paz não só se ganha com a guerra. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dexter mata Lobão!


A grama do vizinho verdejava sem as flores malditas. Mas nem sempre fora assim. Alguns anos atrás ele chegara com apenas uma pequena mudança. Percebi, enquanto verificava a caixa dos correios, que ele era de parcas posses. Não tinha mais do que um colchão, uma mesa de quatro cadeiras, uma geladeira velha e seu gato. Lembro que na época pensei em como ele havia conseguido entrar na nossa vizinhança, mas logo tratei de esquecer, não parecia que seria permanente.

Dias depois de sua chegada, fiquei levemente irritado com o som que vinha desse meu vizinho. Parecia que as vozes completavam a ausência de posses. Eram vozes de muitos e todos falavam com um estranho sotaque. Me aproximei da cerca viva que nos separava querendo descobrir de que lugar ele vinha. Não soube discernir totalmente, mas alguma coisa me dizia que eram nortistas. Não que tivesse descoberto alguma cadência própria. Mas pela intensidade do barulho, cordas, coros, batuques e pela cor marronzinha do vizinho, acreditei que ele tinha descido de lá.

Talvez eu até tivesse embebecido mais minhas rosas, investigado mais um pouco, se não tivesse tido um susto daqueles, quando o gato do vizinho, desses sem raça definida, escondido por entre os arbustos, me pegou olhando, como se dissesse, que indiscreto. Tratei logo de arrumar minhas ferramentas de jardim e voltei para o interior da minha casa.

Higienizei as mãos no lavabo do piso térreo e lavei o rosto. Se fosse um dia como outro qualquer, como os dias de ontem, teria passado a loção no rosto, tomado meu leite quente com amêndoas, conferido o jornal on line italiano, e ido para meus lençóis egípcios, ligado minha Foscarini e folheado os livros que o arquiteto me indicara para deixar a mão na mesinha de cabeceira. Seria o sono certo, o sono dos justos. E nunca havia me falhado.

Uma hora depois, farfalhei os panos, me descobrindo todo, como se o som que se propagava pelo mesmo céu, meu e do vizinho, tivesse invadido meu lar.

No outro dia, quando cheguei no escritório, cheguei engomado, terno em riste, riscado, o mesmo que havia usado para os dias especiais. Segui corredor adentro, parando apenas para averiguar minha agenda com a secretária, quando, com a mão já posta na empunhadura da minha sala, ela disse: O senhor está precisando de algo? Claro que disse não, claro que de forma ríspida. Apenas não sei se ela percebeu minha hesitação. Mas ela não era paga para perceber nada, lembrei, enquanto assinalava na agenda, um lembrete de substitui-la.

O caso é que aquele dia bagunçou o resto do meu tempo. Entre um processo e outro, enquanto despachava, lembrava da advertência do gato e do olhar, levemente espantado, da secretária, que cuidei de trocar no dia seguinte.

Em casa, já ambientado, preferi ficar sem ir ao jardim. Correram dias. Meses até. Nunca fui muito católico, mas acompanhei, toda noite, o jornal italiano quando noticiou a aposentadoria do papa alemão. Cheguei a pensar, que tempos loucos esses, em que festejam a saída de um europeu, salvo de passagem, com extremo bom gosto, pois secretamente me regozijei quando vi que ele havia usado o mesmo sapato vermelho que comprara para os dias de verão, ser substituído por um argentino franzino, que falava em marte, que falava em gays, que falava neles. Daquele dia em diante, preferi os noticiários ingleses. Estava farto da cobertura italiana.

Eu sabia, pela ancestralidade do meu nome, que ali, onde eu nasci, não era a minha origem. Cheguei até a pagar, uns trocos qualquer, ao melhor historiador das origens, queria mandar tecer meu brasão, em cima da lareira, pelas tecelãs usadas no último desfile prét-a-porter, mas me neguei a pendurar a renda das paraíbas. Onde eles estavam com a cabeça?

Em meio a tudo isso, tinha o meu vizinho. Ele ainda existia. Não sei se outros móveis haviam sido despachados no seu endereço. Mas, com certeza, sua velha mudança ainda estava lá.

Outro dia, esbarrei com aquele farsante de historiador que havia contratado em frente a área comum do meu condomínio. Audacioso, me informou sobre seu último artigo publicado, falando asneiras sobre as origens rurais das famílias que colonizaram meu país. Cortei rapidamente a conversa, não sem perguntar para que casa ele estava indo. Ele respondeu e eu senti uma fúria me tomando conta, como se eu reconhecesse as vozes do meu vizinho.

Nesse dia, voltei ao meu jardim. Queria ouvir, por entre o eco daquelas parcas posses, se meu nome seria anunciado. Não lavei as mãos, não peguei minhas ferramentas, apenas me aproximei da cerca viva e vi que ali era um dia de festa. Ouvi quando cantaram em coro que dois e dois eram cinco, que a estupidez era maior, as vivas a sociedade alternativa, que se vive para consertar, que a mente está na imensidão, que pelas vias se escorre o sangue e o vinho, que nem se voa nem se pode flutuar, que o dia é branco, que o jogador conhece o jogo pela regra...

Me agachei perto da mesma brecha que havia olhado no primeiro dia. Havia esquecido do gato, quando ouvi o maior dos miados: Nós gatos já nascemos pobres ...

Voltei imediatamente. Procurei na minha despensa. Peguei caviar-salmão-linguado-meu-melhor-vinho-um-charuto-de-fora-meu-melhor-sorriso-como-se-fosse-o-primeiro-dia-sem-deixar-de-levar-alguns-vinhos-italianos-da-minha-adega-preparei-como-quem-azeita-tudo-toquei-na-campainha-e-dei-as-boas-vindas-quatro-anos-depois.

O vizinho agradeceu. A visita disse: ooooi. Me virei rapidamente, me desculpando por não entrar. Fiz um afago no gato, meio sem graça, e voltei para casa.

Dias depois, o quiproquó nos jornais. As manchetes: A vizinhança desvalorizada. Professor de esquerda com rituais satânicos. Orgia e permissividade. Empresários fogem para Miami. Juiz processa agente do Detran por estar embriagado. Helicóptero com cocaína é da família do senador. Dexter mata Lobão! 


ps. acompanhei todas as notícias. Eu e o gato. O adotei, pelo bem da comunidade. Era o meu pro-brono-especial. Só lamento ele não ter raça alguma