quinta-feira, 12 de julho de 2012

A confissão de Palimp VI




Você já arrumou o gravador? Já posso começar? Bom, me desculpe o nervosismo, mas nunca tinha feito isso antes. Não que eu não desejasse, mas sempre fiquei receoso. Ficava até receoso de dizer receoso e não receosa. Mas acho que já posso falar assim, como sujeito homem. Engraçado, sujeito homem era sempre como meu pai se referia aos amigos e eu sempre alimentei, bem lá no fundo, uma vontade de ouvi-lo me chamar assim também. Que Deus o tenha ou Lucífer, sei lá. Não cabe a mim adivinhar quem o recebeu depois de morto. Tá, tudo bem, vou tentar começar do início, é porque é difícil para minha pessoa saber exatamente quando foi que eu me reinicei, apaguei meus velhos arquivos e escolhi novos programas. Sei que minha história passa ao longe da Branca de Neve, mas o espelho sempre foi um personagem fundamental. Era amor e ódio. E isso é muito difícil. Os espelhos estão em todos os lugares e são muitos. Experimenta ir num shopping ou até mesmo se refrescar nos banheiros... Era um verdadeiro martírio. Por isso sempre preferi os banheiros dos postos de gasolina, pois, ainda que ardidos de urina, era um alívio que nas paredes só pudesse ver o encardido dos azulejos. Cresci assim, a fugir dos espelhos, porque acreditava que podia me refugiar na imagem que havia criado em meus sonhos. Nada disso era explícito, raramente as pessoas percebiam, mas também, raramente me percebiam. Tinha umas coleguinhas da escola que diziam, vem cá menina, vem botar um batom. Eu ia e não ia. Ficava de frente a bancada, enquanto elas passavam e olhava para frente sem que na frente nada existisse. As amiguinhas, ah, as amiguinhas, quem será que as inventou? Por mim, pegava naqueles pescoços delgados e torcia feito mainha ao matar a galinha de domingo. Na hora dos esportes, então, era um drama. Nunca tinha sido convocada para as danças que eram ridiculamente espalhafatosas naqueles shows de ginásio de esporte. Ah, você quer saber por que eu falo convocada e não convocado. Me perco no meu próprio passado, como nele eu era perdido. Mas qualquer coisa você revisa no editorial. Regula os pronomes. Aproveita e ajeita também meu português que é pra ver se combina com o talho desse uniforme. Eu ainda tou me adaptando. Hahahha. Adaptando, parece que vivo a me adaptar. Quando não é uma coisa é outra. Só sei que a escola me matou. Matou pedaços dentro de mim como nem minha família, até então, tinha conseguido, pois em casa eu brincava de menino invisível, e nunca nenhum deles me viu. Sabe aquelas brincadeiras que não custam nada, não dependem dos brinquedos que você ganha e do qual nenhum era o que tinha sonhado?! Bem, era assim mesmo. Dia das crianças, então, nada de ficar feliz. Era apenas um rosto amarelo, não, não havia sorriso, desembrulhando bonecas das mais variadas e olhando de esguelha para os joguinhos dos vizinhos. Ingrata, era assim que me chamavam e tudo que eu queria era uma bicicleta pra virar bicho solto no mundo. No natal, ganhei uma Sissi, dessas róseas, com direito a cestinha e tudo. Ia passear com as colegas. Uma vez ela disse, seu braço é estranho, parece que tem músculos, parece braço de menino. O nome dela era Marina e eu me vi perdidamente apaixonado. Marina era linda, morena, toda pintada, olho agateado, sorriso fácil, maneiras bruscas. Costumava ser a megera da escola, tão clichê isso, mas eu a seguia assim mesmo, seguia como se tivesse sido adestrado. Jogava os jogos que ela queria, as brincadeiras que escolhia, carregava suas tralhas, ousava passar do seu perfume, só para lembrar o cheiro dela. Até o dia que Carlos, em meio à sala toda, disse que eu era sapata e que queria Marina só pra mim. Até hoje me lembro das risadas. E eu, ali, abobalhado, sem saber o que era sapata. Mas desse dia em diante, só usei sandálias de dedo. Marina ficou pra trás e eu já não sonhava com ela, mas sonhava em ser ela, sonhava até em, sendo ela, estar com Carlos. Me odiava por isso, e comecei a odiar também os sonhos, assim como os espelhos.  Já não queria mais ir à escola e estando lá me refugiava nos livros até o dia em que pude ir embora. Na faculdade, entrei no curso de línguas. Queria aprender a falar todas elas e enquanto isso me calava no português. Não tinha interesse. Queria ir pra bem longe. Não sabia que ia voltar e que hoje ia falar com você. Que ironia, não? No mundo conheci pessoas como eu, sem cara, sem rostidade, aprendi conceitos, fiz oficinas de filosofia, vi que ser estranho era capital simbólico nas grandes cidades. Foi quando eu decidi mudar, depois de assistir aquele filme, aquele que o rapaz colecionava pele de moças. Como era o nome...? O silêncio dos inocentes. Queria uma nova pele. Uma pele que pudesse encarar o espelho e podar seus pêlos. Me inscrevi em programas públicos, mandei emails, mandei cartas, preenchi arquivos, fiz séculos de terapia, só nunca falei daquele filme. Participei de grupos de solidariedade de gordos. Ora, por que fiz isso? Eles também queriam arrancar pedaços de si. Me identifiquei com os androides, participei de debates sobre androginia, sobre os queers e a leva toda. Enquanto isso me envolvia com uns e outras. Até que a encontrei. Dra. Frankie Stein, tão século XIX, tão século XXI. Ela topou fazer a transferência. E assim, me transferi para outro corpo. Um corpo de pronomes próprios. Foi até divertido servir de modelo para suas experiências. Claro que eu gostava dela, nunca a quis mal. Não fique ansioso, já digo... mas é tão óbvio porque a matei, porque não poderia ser diferente... ela era a memória de quem eu fui antes. Com ela, eu não teria pertencimento. E, por favor, quando você concluir, não coloque o nome que me deram ao nascer, mas o que me deram nos jornais, sim, meu nome é Palimp VI, o único presente que me deram e que eu quis que fosse m---eu.  

domingo, 3 de junho de 2012

A generosa



Quando ela vinha, seus saltos tocavam uma música primitiva, acompanhada pelo bambolear dos seus quadris. Os rostos viravam em uníssono e as mais diversas reações se desenhavam com o seu gingado, numa mistura nada homogênea. Mas ela passava, pela calçada, religiosamente, ao fim da tarde. A praça, então, parecia diminuir de ritmo, como se naquele tempo-espaço, tudo ao redor se congelasse, e ela, apenas ela, adquirisse a mobilidade do mundo ao dar a volta na lua.

Não conhecia quem a conhecesse de perto. Nenhum de nós. Ela nunca olhava de lado, tampouco para cima ou para baixo, seu olhar era tão reto, como a desconfiar da fartura de suas curvas todas. Diziam que ela era uma mulher do mundo, diziam que ela era mulher de um só, diziam que ela era dela mesma. Diziam muito, mas nada que viesse de perto.

Até que um dia, a cidade enfeitada de bandeirolas coloridas, mesinhas floridas, palco armado, anunciou os festejos do São João, fechou as portas do comércio mais cedo e, ao fim da tarde, convidou seus citadinos para juntos, e distribuídos entre todos os quiosques, alimentados pela luz elétrica, já trêmula pelo altear da fumaça dos fogos e fogueiras, dançarem ao sabor do milho assado e dos quentões.  

Ainda era menino moço, emudecido pela timidez da minha voz e pela inexperiência dos meus gestos. Mas era um rapaz de olhar guloso e queria dar conta de ver tudo. Apenas lamentei a calçada tão cheia, temia não vê-la hoje. Os colegas logo me acharam e me entretive em meio a tantas figurações. Parecia que Dona Maria estava triste ao lado de Seu José que, ritmadamente, erguia seu copo suado de gelado para os seus bigodes como a sorver a sede do mundo todo. Percebi que os pés de Dona Maria, por baixo da mesa xadrez, seguiam o ritmo do trio de zabumba, triângulo e sanfona, como se o direito e o esquerdo estivessem um nos braços do outro.

Raimundo, viúvo há uma quinzena de anos, não saia do pé do poste, como se ele mesmo tivesse a companhia para o fim dos seus dias. Elaine, do outro lado do arraial, desfolhava o verde da cerca de coqueiros, juntando os palitinhos como se fosse abrir uma fábrica de pipas. Fernanda, toda vestida de coronel, parecia a mesma, forte, longa e de cara limpa. Francisco, todo serelepe, convidava todas as moçoilas para bailar, nenhuma lhe fazendo menção.

Enquanto cobria os ouvidos com as mãos à espera do pipocar dos traques, ouvi o tilintar do salto e meu coração zabumba esperou. Lá estava ela, vindo, mas dessa vez seu andar era feito de giros. Quem estava perto, deu passagem. Quem estava longe, estreitou o olhar. E ela, de frente ao palco, rodava a saia, deixando entrever suas pernas torneadas, ao mesmo tempo em que sua boca vermelha, entoava junto, as músicas que, para mim, passaram a soar com quentura. Procurei, rapidamente, sua companhia. Não havia, ela estava só. Dançando não abraçada com um outro, mas com os braços erguidos em floreados. Não compreendia como um mesmo corpo podia ir a direções tão diferentes e parecer estar indo junto. Sua dança, de tão altiva, parecia ocultar o segredo da natureza. Era uma força. E à medida que ela entoava e rebolava no meio daquele improviso de salão no centro da praça, me remexia todo internamente, como se dançasse uma quadrilha inteira.

Ela passou e girando, deu um abraço em Raimundo, tirou Dona Maria para dançar, deu um selinho na boca de Fernanda, que ficou corada com mil maquiagens, boca toda avermelhada, fez um coração de coqueiro para Elaine, que convidou Francisco a bailar, esvaziou o copo de Seu José, que sem ter o que mais beber, começou a olhar novamente para os pés casados de sua mulher, e se foi, não sem antes sapecar meu rosto de beijinhos.

Ela nunca mais apareceu na cidade depois dessa noite. Mas, nós, que nunca a tivemos, tão perto, deixamos de comparecer a festa de São João. Soube tempos depois que, naquela mesma noite, tinham sussurrado em seu ouvido, enquanto a enlaçavam pela cintura que, finalmente, haviam encontrado o encanto do mundo todo e que ela podia desaguar em terra firme. E assim, ela teria partido, feito chuva, a fertilizar a terra alheia.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

O dia da mãe



Desde cedo aprendera a ser invisível. Brincava, apenas consigo, de pirata, sendo um bando inteiro. Eram muitos os mundos a saquear e desbravar. Para isso, inventou outro de si. Quando cansava da brincadeira, virava um ciclope. Todas as potências, criava para si, corpo todo fragilizado. Sua mãe trocava sua fralda, lavava sua intimidade, estendia sua vida.

Desde cedo, sabia que seu corpo seria sempre um corpo encarcerado. Via seus primos, irmãos e vizinhos brincarem ao longe, com a trovoada de risos, arengas e correrias. Ele não podia. Mas todos lhe diziam, não se entristeça, você é o melhor deles, foi o mais esperado, o amamos tanto.

E assim, por entre a cama sempre de lençóis animados e laqueada pelos aparelhos ortopédicos, se perdia em universos paralelos. Acreditava que poderia viver de sonhos. Mas enquanto alguns esperavam sua morte, seus sonhos caducaram e, ele mesmo, também desejou transcender. Sua rotina, desconcertada pelo uso dos dias, lhe causava furores. E ele quente, já não era Zeus, Thor, nem tampouco Wolverine. Desinteressou-se pelo mundo, pela linguagem, pelo sonho. E assim, tão triste, ele viu sua face despontar em pêlos. Os banhos, deixaram de ser alegres encontros com sua banheira dos barquinhos, passaram a ser constrangidas vivências com um outro que despontava tal como aquela indesejada abundância de quereres estranhos.

Não sonhava mais com o som que lhe fora roubado da algazarra das ruas e dos caminhantes, mais se revolvia com seus acontecimentos internos. Os familiares, nas ocasiões dos calendários festivos, diziam, como cresceu esse rapazinho. E na inquietude dele, sabia que seu crescimento, que lhe era um lugar tão incômodo, o era mais para os outros. No seu alcance, se rebelou, em meio a tantos hormônios e afastava, bruscamente, o que lhe era ofertado, já não queria o cheiro da alfazema, não queria o colorido das estampas dos pijamas. Percebia como triste ficava sua mãe, querendo que ele ainda não crescesse não, que ainda tivesse medo do bicho papão e lhe chamasse nas noites de trovoadas.

Depois, ele experimentou, a resignação. E também esperou pela data já passada, pois já queria partir. Não sabia exatamente o porquê de sua vinda, mas sentira que fora finalmente liberto daquela prisão tão carcomida.

Quando sua presença já era lamentada como ausência, ele não soube, mais no seu ritual de despedida, sua mãe desolada, tonta como uma embriagada, em meio aos soluços, lembrou aos presentes que,  comiserados estavam, nunca amou tanto, porque quando o seu filho, embalado pelas estórias que lhe contava, perguntava sempre, mamãe por que eu pergunto tanto porquê, ela feliz retrucava, ainda que dolorida, que a vida, tão distraída, tinha seus mistérios e que as perguntas eram preciosas, porque desconfiava dos destinos e respondia quem era quem. Ele, na sua pequenice, tão servil, tão rebelde, tão cárcere de si, ainda inquiria, quem eu sou mamãe, e ela, banhada em faces, recordou que disse, você é aquele que me ensinou o sentido do amor. E isso é tudo, é mais do que saberia sozinha. 




Ps. Que saudades de Babá...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Café avec amarula



Nós já nos arrastávamos juntos há anos. Ele levava o cachorro para passear, eu fazia o café da manhã. Ele saia para o trabalho, eu me dirigia para a cama. Ele era responsável pela feira, eu pagava a conta da luz. Dividíamos o mesmo quarto, mas não a mesma língua. O apartamento que costumávamos trocar a cada dois anos, em meio a algazarras e expectativas, quando escolhíamos os novos móveis ou repaginávamos os nossos velhos troféus, virara um ritual banal, silencioso, mecânico. Já era o nosso nono apartamento. E eu havia nascido no décimo dia de uma gravidez de quase dez meses. A chegada do prazo para o décimo apartamento estava próxima e nós estávamos cada vez mais distantes.

Apesar de não nos falarmos, eu não queria abrir mão dos nossos silêncios. Apesar de não nos tocarmos, também não queria abrir mão dos possíveis esbarros entre a bancada da cozinha e a sala de estar. E assim, íamos, juntos, trilhando caminhos tão díspares.

Mas ele era presença conhecida e ainda que me debatesse entre ficar ou ir, sozinha enfim, meu corpo travava e o ar que entrava em meus pulmões era racionado, entre ansiosas inspiradas e espaçadas golfadas.

Ontem, ele chegou com o jornal e pude ver que passeava por entre as páginas dos classificados. Refugiei-me por entre o edredom, até que E. me liga, chamando para passearmos e atualizar as novidades. E., como sempre, tinha muitas e rimos muito juntas, brincando de tudo bem, enquanto tomávamos, sentadas, muito café com amarula, até que chegou aquele momento em que não pude mais engolir e disse a ela:


- Minha linda, tão bom estar com você. Mas não aguento mais estar comigo.

- O que houve de novo?

- Não é o que houve de novo, é o que não houve...  

- Como você está com ele?

- Nós, há muito, não estamos, mas não consigo ir. Temo a solidão. Mas sei que nossa relação está com o prazo de validade vencida, tal como o vinho vinagrado, tal como o queijo embolorado e que há muito não bebo ou como. Meu corpo está como o solo que antes abrigava um açude, seco, rasurado, esquadrinhado em fendas, esvaziado de presente.

- Por que você não parte para outra história?

- Como? Eu não sei como fazê-lo. Não sei mais como é estar comigo apenas, só sei como é estar sem mim. Eu já tentei antes, tentei me soltar, me excitei, inventei outras histórias, mas sempre aquele breque de não saber se ainda era desejável, se ainda alguém se interessaria por mim, se ainda saberia como tocar lábios alheios... Eu não sei de mim sem ele.

- ...

- Queria meu grito do uirapuru ao amanhecer, minha calda de sereia quando os barcos se avizinharem, meus cabelos longos de outrora que acobertava minhas mini-saias, queria minha libido solta a correr o mundo, gritar ao gozar e me surpreender, de maneiras que nem possa imaginar como, que minha memória não alcance, descobrindo uma em mim que desconheço, quero, sobretudo, me surpreender.

- Faça. Crie novos prazos, valide novas possibilidades, experimente ficar consigo... Você consegue, afinal, alguém que habita tanto desejo, tem que se permitir.

- Eu quero, tenho medo, desejo profundamente, escureço, continuo, me debato, aposto, me perco... Preciso de conselhos.

E. ficou parada. Depois do meu desabafo, se foi. Eu também me fui, sem conselho algum. Uma semana depois, soube, por amiga em comum, que E. pediu licença sem vencimento do trabalho e fora tentar a vida em Paris, tinha voltado a pintar. Seu primeiro quadro vendido, ou trocado por bisnagas e conhaques, chamava-se Café avec Amarula.

Fiquei feliz. Tinha finalmente me surpreendido. Dez meses depois, na minha décima casa, no meu primeiro café, brindei sozinha, grávida de mim.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Carta



Falei rapidamente com você ao telefone. Anunciei que havia tido um sonho e que esse tinha sido doce, como um chocolate apimentado ou como uma tequila desaquecida num gole de cerveja. Quente e refrescante. Porém, você estava ao telefone, guiando entre afazeres, quando me disse apressadamente: - Escreva seu sonho.

Nunca tive presteza com as palavras, pois elas me fogem sempre que vou ter a chance de vê-lo ou ouvi-lo, na sua voz ritmada, pausadamente trêmula, que continuamente anuncia, com tanta delicada firmeza, gostar da mudez.

Como tagarelar, então?!  E apenas tagarelo, tagarelo e tagarelo tanto que a ocasião se aproxima do burlesco, principalmente, quando ao me olhar de volta, seus olhos sorriem, com a tolerância que, aparentemente, lhe é peculiar.

Como sempre, me perco em arrodeios. E não falei do meu sweet dream. Nele, estávamos desnudos e arfantes. E tontos, não sei se das cervejas ingeridas ou se da estranheza do encontro. Como todo sonho, esse me pareceu surreal, como se dentro da doçura dele, soubesse que não estávamos dormindo ou tampouco acordados.

Não houve diálogos, mas essa não era a tal estranheza, pois quando falávamos dos compostos químicos, da ecologia do mundo, da globalização e do quiproquó dos dias, o silêncio nunca fora uma problemática. A mudez sempre vinha quando estávamos flutuando no ar e a paisagem surreal construía esse mundo de expectativas, em que íamos desfolhando os estágios da consciência (?) ao mesmo tempo em que, na secura do silêncio, vinha à liquidez dos toques, das experimentações.

Não sei se era essa a carta que você espera ler, pois queria apenas lhe falar do doce sonho que vivi em algumas horas, talvez em instantes, talvez em anos, tão simultâneo como meus flashbacks, meus desejos e a própria vida, em seu eterno, e surpreendente, vir a ser.

E nesse introito todo, minha timidez não me deixa narrá-lo, com os pormenores de uma escrita afetada, ainda que o viva em secretas reminiscências. Mas...

Que sua noite, ao descer sobre seu corpo, venha como uma caixinha de sonhos, daquelas recheadas de doces.


Londres, agosto de 1983.
Ps.
Either way, I don't wanna wake up from you.  
(Turn the lights on) – Eurythmics.
   

terça-feira, 10 de abril de 2012

Short cuts ²


Aquela era a manhã do dia que traria mil naufrágios e novas ilhas. E eu, ainda ancorada, pensava apenas no peso do pernil no forno, no terceiro conserto do carro, no perigo iminente dos fogos de artifício – sem saber que eles arderiam, naquela noite, mais em mim que nos ouvidos dos cães.

Era tarde quando cheguei na casa que já me vira em festas outras, com mulheres outras, e com tristezas várias. Cheguei sem saber que aquela era a noite que me levaria a novas ilhas, mil naufrágios. Rápida, o pernil imenso na assadeira felizmente encobrindo meu rosto que teme tanto ser visto, atravessei a sala evitando ainda saber quem estava ali. E a voz familiar me diz  “por que tão tarde?”. Eu, na resposta constrangida, digo algo tolo sobre o pernil e meu embaraço, que ninguém nota, cresce e cresce.

Eu nunca a via. Nunca só. Ou melhor, uma ou duas vezes, talvez no supermercado, e eu sempre hesitante, temendo um oi que não teria retorno, ou um olhar que demonstrasse sua total falta de familiaridade com quem eu sou. Quem eu sou? Quem eu era, ali? E eu não sabia que era ela que me levaria a novos portos quando me apresentou a alguém, na festa, falando sobre meu humor ácido. Não gostei da acidez, eu que planejo doçuras, e tentava entender onde o erro, onde a força escondida das palavras que digo sem saber. De novo fora de mim, faço outro comentário, monotemático, sobre como ela deveria mesmo era ficar com C. Num canto da cozinha, depois, ela me pergunta por quê. Por quê C. ? Por que eu deveria estar preocupada com C? Porque eu desejava por alguns instantes que o tempo se voltasse sobre si mesmo e eu pudesse recomeçar, sendo séria e doce e não ácida, e que não falasse tantas bobagens de forma compulsiva apenas porque aquele silêncio (ela sempre foi a pausa entre as notas) me pesava como devem pesar as patas dos centauros. E nesse tempo espiralado eu não seria eu e nem teria âncoras de séculos, e poderia então desejá-la como eu mesma e não através das possibilidades de C.

Mas mesmo então sem ser outra, sendo eu,  com esse sorriso torto, eu digo o que não se diz, na expectativa de que minha boca de seriedade e riso pela metade pudesse ser ali a possível contenção da águas, aquilo que impedisse o desejo – aquele mesmo que se instaurara quando eu disse “gostosa” – de virar o rio que varreria com violência as margens e as tornaria férteis pra sempre. Mas eu disse. E o meio sorriso nada pôde contra aquilo que se desenhara tão precisamente com as palavras.

Outras, em seguida, sussurradas (ela é toda silêncios, já disse?) perto da minha nuca, me fizeram ouvir o rangido das âncoras sendo arrancadas. Era o mar, o rio, começando me levar àquelas outras ilhas. Um naufrágio de quem eu pensava ser, outro naufrágio de onde eu pensava estar.

O resto da noite,  xadrez interminável. A Torre (que, eu não sabia, ainda, viria a ruir).Os olhos se cruzando no jogo. As palavras se cruzando, em conversas sobre redes – ela, parte do tempo, numa rede em que eu a via em intervalos oscilantes.

Eu queria não ser eu. O tempo – serpente devorando o próprio rabo, me fazia inventar teses, teorias, desejos de um futuro que não era o meu, mas que a faziam falar. Ela, cheia de silêncios, me olhava atenta, e falava outras teses e teorias que eu devia ler. Entre nós, então, se tecia um começo. E prometíamos ambas mais e mais palavras, pensando de fato que as frases podem ter mãos, dedos, boca, língua, e que nos tocávamos através delas. Meu desejo a tocava entre sílabas, entre as frases improvisadas que anunciavam outras tantas que nos diríamos ainda, pela vida (ou mar) adentro.

Como agora.

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presente. não aquele momento de tempo entre o passado e o futuro. presente, algo que se ganha em alguma ocasião – especial ou não. talvez esse seja o ponto de partida. presente de crispina – um desses seres que pode habitar apenas a nossa imaginação. nesse caso, uma êre. presente anunciado nas semanas finais de 2011. sequer imaginei o que poderia ser.

o presente insuspeito veio na passagem do ano: chegou com 2012. na forma de uma emoção inesperada. daquelas que chegam sem avisar, alteram os trajetos e mudam os planos.

festa de réveillon. já estou um pouco alta. animada, com as amigas mais próximas por perto. mas com a sensação de que faltava ainda t. chegar. amiga? não exatamente. até, então, alguém que tinha encontrado 2 vezes, apenas. mas que, por essas coisas inexplicáveis, gostava de encontrar. apesar da inquietação e da falta de palavras que me tomava ao encontrá-la. supunha ser pq sua sagacidade, humor e velocidade de pensamento me faziam parecer boba.

- “pq só chegou agora?” (perguntei, como se houvesse intimidade suficiente para tal questionamento)

- “eu atrasei, mas trouxe o pernil, tá?”

hum?! (pensei: o que o pernil tem a ver com isso... com a vontade de te reencontrar)

a festa segue animada. fumo um pouco, danço outro pouco, acompanho os movimentos de algumas pessoas até que t. vem conversar comigo (sim, não conseguia ‘puxar’ muito assunto com ela, aquela sensação de se sentir idiota falando com alguém interessante, inteligente e sagaz). me pergunta algo sobre namorada: se estou namorando, se ‘peguei’ minha professora de ioga, pq não namoro uma amiga em comum. respondo a tudo – quase formalmente – até que interrogo, pq raios ela insiste que eu namore nossa amiga em comum.

- “pq?” – diz ela – “pq te acho uma gostosa e se não fosse casada, te pegava”. e saí. pra variar, fiquei sem palavras. cérebro já levemente lento, pelo álcool, penso: “mas que cantada barata”. tarde demais, a cantada barata no meu ouvido se fez acompanhar de reações inesperadas no meu corpo: aquele arrepio que percorre a espinha, acompanhado do frio na barriga e acelerar dos batimentos cardíacos. 

preciso dizer que não pensei em mais nada, depois disso? estaria mentindo, pensei e muito: em como retribuir a “cantada barata”. hum, só com outra.

na primeira oportunidade, colei minha boca em seu ouvido, pra dizer: “adoraria fazer yoga contigo”. ah, e a vontade de rir ante a surpresa nos olhos dela... até o final da festa, pude captar pequenos detalhes: seu jeito de dançar (os movimentos do corpo mesclados ao olhar), as mãos pequenas (como gosto), a voz deliciosa e envolvente...

sequer poderia imaginar os próximos movimentos...

***

Ps. As personagens emergiram do texto e deixaram suas próprias marcas. E que belas, são essas marcas. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Short cuts




Campinas, a cidade brilhava em meio à parafernália própria dos arranjos de fim de ano. Os comentários, na padaria onde tomava meu café com leite e comia o pão quentinho e dourado da chapa, eram da nova decoração no apartamento dos famosos cantores sertanejos e seus robôs de natal. Eram até bonitos, apesar de um tanto pedante. Mas a cidade brilhava. Eu nem tanto. Tinha só aquele brilhinho íntimo, ainda um tanto escondido das amigas em comum, esperançosa que estava de que na reunião da casa de Mariah, a fosse encontrar. Sei que não a veria sozinha, sabia que teria que cumprimentar a sua companheira, mas apenas eu sabia do pisca-pisca que habitava meu corpo. Enquanto caminhava pelas alamedas de Barão Geraldo, sombreada pelo seu verde, me via sorrindo boba, me via sorrindo ansiosa. Parecia que constelava comigo mesma.

Das mulheres, amigas das amigas, ela sempre me pareceu a mais bela. Daquelas que a beleza parece falar diretamente a mim. Por isso, decidi ir. Essa minha fala secreta, apenas me pertencia. Talvez nem ela mesma escutasse, sempre fui tão discreta, e nos raros, porque escassos e preciosos, encontros em que pude vê-la e ouvi-la, ela sempre se ocupava em me apresentar a uma conhecida, realçando benesses. Parecia que me ver sozinha a incomodava. Eu, delicadamente, me declinava, como se sozinha me bastasse, mas o que mais me bastava era essa bela fala secreta que, segura no meu íntimo, me deixava sorrir enquanto ela me ofertava possibilidades outras.

A noite chegou, mas seu manto escuro demorou a baixar. Era Campinas, e os dias estavam mais longos e secos. Eu, na minha urgência despretensiosa, comecei a me preparar. Ritualística como sou, ainda ampliei meu corpo na yoga, o banhando em seguida, sem deixar de lado meu chá de carqueja, sabia que veriam vinhos. E sabia que não seriam poucos.

Parti rumo à casa de Mariah. Estava cheia, como de costume, e todas as amigas ali estavam presentes, as risadas alegres, os beijos afetuosos. Ainda não a havia visto, mas sentia sua presença, já ensaiando algumas frases.

Avistei ao longe e logo ela se aproximou. Chamou-me de gostosa ao pé do ouvido, depois de algumas taças, também cantei ao seu. E ficamos assim, entre as rodas e os círculos todos, a nos esbarrar. Ela já não me prometeu companhias alheias. Era ela, talvez, sempre tenha sido.

Os borbulhantes estouraram com os abraços todos de feliz ano novo. Com mais alguns brindes, fui embora. Talvez ela tenha ficado, não só com sua companheira, mas também comigo, porque no dia seguinte, ela me mandou dizer: Fique, não vá. Eu fui, mas ainda estou, estamos em maio, e desde então nunca mais falei sozinha a minha linguagem secreta. Short cuts.