Você já arrumou o gravador? Já posso começar? Bom, me desculpe o
nervosismo, mas nunca tinha feito isso antes. Não que eu não desejasse, mas
sempre fiquei receoso. Ficava até receoso de dizer receoso e não receosa. Mas acho
que já posso falar assim, como sujeito homem. Engraçado, sujeito homem era
sempre como meu pai se referia aos amigos e eu sempre alimentei, bem lá no
fundo, uma vontade de ouvi-lo me chamar assim também. Que Deus o tenha ou
Lucífer, sei lá. Não cabe a mim adivinhar quem o recebeu depois de morto. Tá,
tudo bem, vou tentar começar do início, é porque é difícil para minha pessoa
saber exatamente quando foi que eu me reinicei, apaguei meus velhos arquivos e
escolhi novos programas. Sei que minha história passa ao longe da Branca de
Neve, mas o espelho sempre foi um personagem fundamental. Era amor e ódio. E isso é muito
difícil. Os espelhos estão em todos os lugares e são muitos. Experimenta ir num
shopping ou até mesmo se refrescar nos banheiros... Era um verdadeiro martírio.
Por isso sempre preferi os banheiros dos postos de gasolina, pois, ainda que
ardidos de urina, era um alívio que nas paredes só pudesse ver o encardido dos azulejos.
Cresci assim, a fugir dos espelhos, porque acreditava que podia me refugiar na
imagem que havia criado em meus sonhos. Nada disso era explícito, raramente as
pessoas percebiam, mas também, raramente me percebiam. Tinha umas coleguinhas
da escola que diziam, vem cá menina, vem botar um batom. Eu ia e não ia. Ficava de
frente a bancada, enquanto elas passavam e olhava para frente sem que na frente
nada existisse. As amiguinhas, ah, as amiguinhas, quem será que as inventou? Por
mim, pegava naqueles pescoços delgados e torcia feito mainha ao matar a galinha
de domingo. Na hora dos esportes, então, era um drama. Nunca tinha sido convocada
para as danças que eram ridiculamente espalhafatosas naqueles shows de ginásio
de esporte. Ah, você quer saber por que eu falo convocada e não convocado. Me perco
no meu próprio passado, como nele eu era perdido. Mas qualquer coisa você revisa
no editorial. Regula os pronomes. Aproveita e ajeita também meu português que é
pra ver se combina com o talho desse uniforme. Eu ainda tou me adaptando. Hahahha.
Adaptando, parece que vivo a me adaptar. Quando não é uma coisa é outra. Só sei
que a escola me matou. Matou pedaços dentro de mim como nem minha família, até
então, tinha conseguido, pois em casa eu brincava de menino invisível, e nunca
nenhum deles me viu. Sabe aquelas brincadeiras que não custam nada, não dependem
dos brinquedos que você ganha e do qual nenhum era o que tinha sonhado?! Bem,
era assim mesmo. Dia das crianças, então, nada de ficar feliz. Era apenas um
rosto amarelo, não, não havia sorriso, desembrulhando bonecas das mais variadas
e olhando de esguelha para os joguinhos dos vizinhos. Ingrata, era assim que me
chamavam e tudo que eu queria era uma bicicleta pra virar bicho solto no mundo.
No natal, ganhei uma Sissi, dessas róseas, com direito a cestinha e tudo. Ia passear
com as colegas. Uma vez ela disse, seu braço é estranho, parece que tem
músculos, parece braço de menino. O nome dela era Marina e eu me vi
perdidamente apaixonado. Marina era linda, morena, toda pintada, olho agateado,
sorriso fácil, maneiras bruscas. Costumava ser a megera da escola, tão clichê
isso, mas eu a seguia assim mesmo, seguia como se tivesse sido adestrado. Jogava
os jogos que ela queria, as brincadeiras que escolhia, carregava suas tralhas,
ousava passar do seu perfume, só para lembrar o cheiro dela. Até o dia que
Carlos, em meio à sala toda, disse que eu era sapata e que queria Marina só pra
mim. Até hoje me lembro das risadas. E eu, ali, abobalhado, sem saber o que era
sapata. Mas desse dia em diante, só usei sandálias de dedo. Marina ficou pra
trás e eu já não sonhava com ela, mas sonhava em ser ela, sonhava até em, sendo
ela, estar com Carlos. Me odiava por isso, e comecei a odiar também os sonhos,
assim como os espelhos. Já não queria
mais ir à escola e estando lá me refugiava nos livros até o dia em que pude ir
embora. Na faculdade, entrei no curso de línguas. Queria aprender a falar todas
elas e enquanto isso me calava no português. Não tinha interesse. Queria ir pra
bem longe. Não sabia que ia voltar e que hoje ia falar com você. Que ironia,
não? No mundo conheci pessoas como eu, sem cara, sem rostidade, aprendi
conceitos, fiz oficinas de filosofia, vi que ser estranho era capital simbólico
nas grandes cidades. Foi quando eu decidi mudar, depois de assistir aquele
filme, aquele que o rapaz colecionava pele de moças. Como era o nome...? O
silêncio dos inocentes. Queria uma nova pele. Uma pele que pudesse encarar o
espelho e podar seus pêlos. Me inscrevi em programas públicos, mandei emails,
mandei cartas, preenchi arquivos, fiz séculos de terapia, só nunca falei
daquele filme. Participei de grupos de solidariedade de gordos. Ora, por que
fiz isso? Eles também queriam arrancar pedaços de si. Me identifiquei com os
androides, participei de debates sobre androginia, sobre os queers e a leva
toda. Enquanto isso me envolvia com uns e outras. Até que a encontrei. Dra.
Frankie Stein, tão século XIX, tão
século XXI. Ela topou fazer a transferência. E assim, me transferi para outro
corpo. Um corpo de pronomes próprios. Foi até divertido servir de modelo para
suas experiências. Claro que eu gostava dela, nunca a quis mal. Não fique
ansioso, já digo... mas é tão óbvio porque a matei, porque não poderia ser
diferente... ela era a memória de quem eu fui antes. Com ela, eu não teria
pertencimento. E, por favor, quando você concluir, não coloque o nome que me
deram ao nascer, mas o que me deram nos jornais, sim, meu nome é Palimp VI, o
único presente que me deram e que eu quis que fosse m---eu.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
domingo, 3 de junho de 2012
A generosa
Quando ela vinha, seus saltos tocavam uma música primitiva, acompanhada
pelo bambolear dos seus quadris. Os rostos viravam em uníssono e as mais
diversas reações se desenhavam com o seu gingado, numa mistura nada homogênea.
Mas ela passava, pela calçada, religiosamente, ao fim da tarde. A praça, então,
parecia diminuir de ritmo, como se naquele tempo-espaço, tudo ao redor se
congelasse, e ela, apenas ela, adquirisse a mobilidade do mundo ao dar a volta
na lua.
Não conhecia quem a conhecesse de perto. Nenhum de nós. Ela nunca olhava
de lado, tampouco para cima ou para baixo, seu olhar era tão reto, como a
desconfiar da fartura de suas curvas todas. Diziam que ela era uma mulher do
mundo, diziam que ela era mulher de um só, diziam que ela era dela mesma. Diziam
muito, mas nada que viesse de perto.
Até que um dia, a cidade enfeitada de bandeirolas coloridas, mesinhas
floridas, palco armado, anunciou os festejos do São João, fechou as portas do
comércio mais cedo e, ao fim da tarde, convidou seus citadinos para juntos, e distribuídos
entre todos os quiosques, alimentados pela luz elétrica, já trêmula pelo
altear da fumaça dos fogos e fogueiras, dançarem ao sabor do milho assado e dos
quentões.
Ainda era menino moço, emudecido pela timidez da minha voz e pela inexperiência
dos meus gestos. Mas era um rapaz de olhar guloso e queria dar conta de ver
tudo. Apenas lamentei a calçada tão cheia, temia não vê-la hoje. Os colegas
logo me acharam e me entretive em meio a tantas figurações. Parecia que Dona
Maria estava triste ao lado de Seu José que, ritmadamente, erguia seu copo
suado de gelado para os seus bigodes como a sorver a sede do mundo todo. Percebi
que os pés de Dona Maria, por baixo da mesa xadrez, seguiam o ritmo do trio de
zabumba, triângulo e sanfona, como se o direito e o esquerdo estivessem um nos
braços do outro.
Raimundo, viúvo há uma quinzena de anos, não saia do pé do poste, como
se ele mesmo tivesse a companhia para o fim dos seus dias. Elaine, do outro lado
do arraial, desfolhava o verde da cerca de coqueiros, juntando os palitinhos
como se fosse abrir uma fábrica de pipas. Fernanda, toda vestida de coronel,
parecia a mesma, forte, longa e de cara limpa. Francisco, todo serelepe,
convidava todas as moçoilas para bailar, nenhuma lhe fazendo menção.
Enquanto cobria os ouvidos com as mãos à espera do pipocar dos traques,
ouvi o tilintar do salto e meu coração zabumba esperou. Lá estava ela, vindo,
mas dessa vez seu andar era feito de giros. Quem estava perto, deu passagem. Quem
estava longe, estreitou o olhar. E ela, de frente ao palco, rodava a saia,
deixando entrever suas pernas torneadas, ao mesmo tempo em que sua boca
vermelha, entoava junto, as músicas que, para mim, passaram a soar com
quentura. Procurei, rapidamente, sua companhia. Não havia, ela estava só. Dançando
não abraçada com um outro, mas com os braços erguidos em floreados. Não compreendia
como um mesmo corpo podia ir a direções tão diferentes e parecer estar indo
junto. Sua dança, de tão altiva, parecia ocultar o segredo da natureza. Era uma
força. E à medida que ela entoava e rebolava no meio daquele improviso de salão
no centro da praça, me remexia todo internamente, como se dançasse uma quadrilha inteira.
Ela passou e girando, deu um abraço em Raimundo, tirou Dona Maria para
dançar, deu um selinho na boca de Fernanda, que ficou corada com mil
maquiagens, boca toda avermelhada, fez um coração de coqueiro para Elaine, que convidou Francisco a bailar, esvaziou o copo de Seu José, que sem ter o que mais beber,
começou a olhar novamente para os pés casados de sua mulher, e se foi, não sem
antes sapecar meu rosto de beijinhos.
Ela nunca mais apareceu na cidade depois dessa noite. Mas, nós, que
nunca a tivemos, tão perto, deixamos de comparecer a festa de São João. Soube tempos
depois que, naquela mesma noite, tinham sussurrado em seu ouvido, enquanto a
enlaçavam pela cintura que, finalmente, haviam encontrado o encanto do mundo
todo e que ela podia desaguar em terra firme. E assim, ela teria partido, feito
chuva, a fertilizar a terra alheia.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
O dia da mãe
Desde cedo aprendera a ser invisível. Brincava,
apenas consigo, de pirata, sendo um bando inteiro. Eram muitos os mundos a
saquear e desbravar. Para isso, inventou outro de si. Quando cansava da
brincadeira, virava um ciclope. Todas as potências, criava para si, corpo todo
fragilizado. Sua mãe trocava sua fralda, lavava sua intimidade, estendia sua
vida.
Desde cedo, sabia que seu corpo seria
sempre um corpo encarcerado. Via seus primos, irmãos e vizinhos brincarem ao
longe, com a trovoada de risos, arengas e correrias. Ele não podia. Mas todos
lhe diziam, não se entristeça, você é o melhor deles, foi o mais esperado, o
amamos tanto.
E assim, por entre a cama sempre de lençóis
animados e laqueada pelos aparelhos ortopédicos, se perdia em universos
paralelos. Acreditava que poderia viver de sonhos. Mas enquanto alguns
esperavam sua morte, seus sonhos caducaram e, ele mesmo, também desejou transcender.
Sua rotina, desconcertada pelo uso dos dias, lhe causava furores. E ele quente,
já não era Zeus, Thor, nem tampouco Wolverine. Desinteressou-se pelo mundo, pela
linguagem, pelo sonho. E assim, tão triste, ele viu sua face despontar em pêlos.
Os banhos, deixaram de ser alegres encontros com sua banheira dos barquinhos, passaram
a ser constrangidas vivências com um outro que despontava tal como aquela
indesejada abundância de quereres estranhos.
Não sonhava mais com o som que lhe
fora roubado da algazarra das ruas e dos caminhantes, mais se revolvia com seus
acontecimentos internos. Os familiares, nas ocasiões dos calendários festivos,
diziam, como cresceu esse rapazinho. E na inquietude dele, sabia que seu
crescimento, que lhe era um lugar tão incômodo, o era mais para os outros. No seu
alcance, se rebelou, em meio a tantos hormônios e afastava, bruscamente, o que
lhe era ofertado, já não queria o cheiro da alfazema, não queria o colorido das
estampas dos pijamas. Percebia como triste ficava sua mãe, querendo que ele
ainda não crescesse não, que ainda tivesse medo do bicho papão e lhe chamasse
nas noites de trovoadas.
Depois, ele experimentou, a resignação. E
também esperou pela data já passada, pois já queria partir. Não sabia
exatamente o porquê de sua vinda, mas sentira que fora finalmente liberto daquela prisão tão carcomida.
Quando sua presença já era lamentada
como ausência, ele não soube, mais no seu ritual de despedida, sua mãe
desolada, tonta como uma embriagada, em meio aos soluços, lembrou aos presentes que, comiserados estavam, nunca amou tanto, porque quando o seu filho,
embalado pelas estórias que lhe contava, perguntava sempre, mamãe por que eu
pergunto tanto porquê, ela feliz retrucava, ainda que dolorida, que a vida,
tão distraída, tinha seus mistérios e que as perguntas eram preciosas, porque
desconfiava dos destinos e respondia quem era quem. Ele, na sua pequenice, tão
servil, tão rebelde, tão cárcere de si, ainda inquiria, quem eu sou mamãe, e
ela, banhada em faces, recordou que disse, você é aquele que me ensinou o
sentido do amor. E isso é tudo, é mais do que saberia sozinha.
Ps. Que saudades de Babá...
quinta-feira, 26 de abril de 2012
Café avec amarula
Nós já
nos arrastávamos juntos há anos. Ele levava o cachorro para passear, eu fazia o
café da manhã. Ele saia para o trabalho, eu me dirigia para a cama. Ele era
responsável pela feira, eu pagava a conta da luz. Dividíamos o mesmo quarto,
mas não a mesma língua. O apartamento que costumávamos trocar a cada dois anos,
em meio a algazarras e expectativas, quando escolhíamos os novos móveis ou
repaginávamos os nossos velhos troféus, virara um ritual
banal, silencioso, mecânico. Já era o nosso nono apartamento. E eu havia nascido
no décimo dia de uma gravidez de quase dez meses. A chegada do prazo para o décimo
apartamento estava próxima e nós estávamos cada vez mais distantes.
Apesar de
não nos falarmos, eu não queria abrir mão dos nossos silêncios. Apesar de não
nos tocarmos, também não queria abrir mão dos possíveis esbarros entre a
bancada da cozinha e a sala de estar. E assim, íamos, juntos, trilhando
caminhos tão díspares.
Mas ele
era presença conhecida e ainda que me debatesse entre ficar ou ir, sozinha
enfim, meu corpo travava e o ar que entrava em meus pulmões era racionado,
entre ansiosas inspiradas e espaçadas golfadas.
Ontem,
ele chegou com o jornal e pude ver que passeava por entre as páginas dos
classificados. Refugiei-me por entre o edredom, até que E. me liga, chamando
para passearmos e atualizar as novidades. E., como sempre, tinha muitas e rimos
muito juntas, brincando de tudo bem, enquanto tomávamos, sentadas, muito café
com amarula, até que chegou aquele momento em que não pude mais engolir e disse
a ela:
- Minha
linda, tão bom estar com você. Mas não aguento mais estar comigo.
- O que
houve de novo?
- Não é
o que houve de novo, é o que não houve...
- Como você
está com ele?
- Nós,
há muito, não estamos, mas não consigo ir. Temo a solidão. Mas sei que nossa
relação está com o prazo de validade vencida, tal como o vinho vinagrado, tal como
o queijo embolorado e que há muito não bebo ou como. Meu corpo está como o solo
que antes abrigava um açude, seco, rasurado, esquadrinhado em fendas, esvaziado
de presente.
- Por
que você não parte para outra história?
- Como?
Eu não sei como fazê-lo. Não sei mais como é estar comigo apenas, só sei como é
estar sem mim. Eu já tentei antes, tentei me soltar, me excitei, inventei
outras histórias, mas sempre aquele breque de não saber se ainda era desejável,
se ainda alguém se interessaria por mim, se ainda saberia como tocar lábios
alheios... Eu não sei de mim sem ele.
- ...
-
Queria meu grito do uirapuru ao amanhecer, minha calda de sereia quando os
barcos se avizinharem, meus cabelos longos de outrora que acobertava minhas
mini-saias, queria minha libido solta a correr o mundo, gritar ao gozar e me
surpreender, de maneiras que nem possa imaginar como, que minha memória não alcance,
descobrindo uma em mim que desconheço, quero, sobretudo, me surpreender.
- Faça.
Crie novos prazos, valide novas possibilidades, experimente ficar consigo... Você
consegue, afinal, alguém que habita tanto desejo, tem que se permitir.
- Eu
quero, tenho medo, desejo profundamente, escureço, continuo, me debato, aposto,
me perco... Preciso de conselhos.
E.
ficou parada. Depois do meu desabafo, se foi. Eu também me fui, sem conselho algum. Uma semana depois, soube, por amiga em comum, que E. pediu licença
sem vencimento do trabalho e fora tentar a vida em Paris, tinha voltado a
pintar. Seu primeiro quadro vendido, ou trocado por bisnagas e conhaques,
chamava-se Café avec Amarula.
Fiquei
feliz. Tinha finalmente me surpreendido. Dez meses depois, na minha décima
casa, no meu primeiro café, brindei sozinha, grávida de mim.
terça-feira, 17 de abril de 2012
Carta
Falei
rapidamente com você ao telefone. Anunciei que havia tido um sonho e que esse tinha
sido doce, como um chocolate apimentado ou como uma tequila desaquecida num
gole de cerveja. Quente e refrescante. Porém, você estava ao telefone, guiando
entre afazeres, quando me disse apressadamente: - Escreva seu sonho.
Nunca tive
presteza com as palavras, pois elas me fogem sempre que vou ter a chance de
vê-lo ou ouvi-lo, na sua voz ritmada, pausadamente trêmula, que continuamente
anuncia, com tanta delicada firmeza, gostar da mudez.
Como
tagarelar, então?! E apenas tagarelo,
tagarelo e tagarelo tanto que a ocasião se aproxima do burlesco,
principalmente, quando ao me olhar de volta, seus olhos sorriem, com a
tolerância que, aparentemente, lhe é peculiar.
Como
sempre, me perco em arrodeios. E não falei do meu sweet dream. Nele, estávamos
desnudos e arfantes. E tontos, não sei se das cervejas ingeridas ou se da
estranheza do encontro. Como todo sonho, esse me pareceu surreal, como se
dentro da doçura dele, soubesse que não estávamos dormindo ou tampouco acordados.
Não
houve diálogos, mas essa não era a tal estranheza, pois quando falávamos dos
compostos químicos, da ecologia do mundo, da globalização e do quiproquó dos
dias, o silêncio nunca fora uma problemática. A mudez sempre vinha quando
estávamos flutuando no ar e a paisagem surreal construía esse mundo de
expectativas, em que íamos desfolhando os estágios da consciência (?) ao mesmo
tempo em que, na secura do silêncio, vinha à liquidez dos toques, das
experimentações.
Não sei
se era essa a carta que você espera ler, pois queria apenas lhe falar do doce sonho
que vivi em algumas horas, talvez em instantes, talvez em anos, tão simultâneo
como meus flashbacks, meus desejos e a própria vida, em seu eterno, e
surpreendente, vir a ser.
E nesse
introito todo, minha timidez não me deixa narrá-lo, com os pormenores de uma
escrita afetada, ainda que o viva em secretas reminiscências. Mas...
Que sua
noite, ao descer sobre seu corpo, venha como uma caixinha de sonhos, daquelas
recheadas de doces.
Londres,
agosto de 1983.
Ps.
Either way, I don't wanna
wake up from you.
(Turn the lights on) – Eurythmics.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Short cuts ²
Aquela era a manhã do dia que traria mil naufrágios e novas ilhas. E eu,
ainda ancorada, pensava apenas no peso do pernil no forno, no terceiro conserto
do carro, no perigo iminente dos fogos de artifício – sem saber que eles
arderiam, naquela noite, mais em mim que nos ouvidos dos cães.
Era tarde quando cheguei na casa que já me vira em festas outras, com
mulheres outras, e com tristezas várias. Cheguei sem saber que aquela era a
noite que me levaria a novas ilhas, mil naufrágios. Rápida, o pernil imenso na
assadeira felizmente encobrindo meu rosto que teme tanto ser visto, atravessei
a sala evitando ainda saber quem estava ali. E a voz familiar me diz “por que tão tarde?”. Eu, na resposta
constrangida, digo algo tolo sobre o pernil e meu embaraço, que ninguém nota,
cresce e cresce.
Eu nunca a via. Nunca só. Ou melhor, uma ou duas vezes, talvez no
supermercado, e eu sempre hesitante, temendo um oi que não teria retorno, ou um
olhar que demonstrasse sua total falta de familiaridade com quem eu sou. Quem
eu sou? Quem eu era, ali? E eu não sabia que era ela que me levaria a novos
portos quando me apresentou a alguém, na festa, falando sobre meu humor ácido.
Não gostei da acidez, eu que planejo doçuras, e tentava entender onde o erro,
onde a força escondida das palavras que digo sem saber. De novo fora de mim,
faço outro comentário, monotemático, sobre como ela deveria mesmo era ficar com
C. Num canto da cozinha, depois, ela me pergunta por quê. Por quê C. ? Por que
eu deveria estar preocupada com C? Porque eu desejava por alguns instantes que
o tempo se voltasse sobre si mesmo e eu pudesse recomeçar, sendo séria e doce e
não ácida, e que não falasse tantas bobagens de forma compulsiva apenas porque
aquele silêncio (ela sempre foi a pausa entre as notas) me pesava como devem
pesar as patas dos centauros. E nesse tempo espiralado eu não seria eu e nem
teria âncoras de séculos, e poderia então desejá-la como eu mesma e não através
das possibilidades de C.
Mas mesmo então sem ser outra, sendo eu,
com esse sorriso torto, eu digo o que não se diz, na expectativa de que
minha boca de seriedade e riso pela metade pudesse ser ali a possível contenção
da águas, aquilo que impedisse o desejo – aquele mesmo que se instaurara quando
eu disse “gostosa” – de virar o rio que varreria com violência as margens e as
tornaria férteis pra sempre. Mas eu disse. E o meio sorriso nada pôde contra
aquilo que se desenhara tão precisamente com as palavras.
Outras, em seguida, sussurradas (ela é toda silêncios, já disse?) perto
da minha nuca, me fizeram ouvir o rangido das âncoras sendo arrancadas. Era o
mar, o rio, começando me levar àquelas outras ilhas. Um naufrágio de quem eu
pensava ser, outro naufrágio de onde eu pensava estar.
O resto da noite, xadrez
interminável. A Torre (que, eu não sabia, ainda, viria a ruir).Os olhos se
cruzando no jogo. As palavras se cruzando, em conversas sobre redes – ela,
parte do tempo, numa rede em que eu a via em intervalos oscilantes.
Eu queria não ser eu. O tempo – serpente devorando o próprio rabo, me fazia
inventar teses, teorias, desejos de um futuro que não era o meu, mas que a
faziam falar. Ela, cheia de silêncios, me olhava atenta, e falava outras teses
e teorias que eu devia ler. Entre nós, então, se tecia um começo. E prometíamos
ambas mais e mais palavras, pensando de fato que as frases podem ter mãos,
dedos, boca, língua, e que nos tocávamos através delas. Meu desejo a tocava
entre sílabas, entre as frases improvisadas que anunciavam outras tantas que
nos diríamos ainda, pela vida (ou mar) adentro.
Como agora.
....................................................................................................................................
presente. não aquele momento de tempo entre
o passado e o futuro. presente, algo que se ganha em alguma ocasião – especial
ou não. talvez esse seja o ponto de partida. presente de crispina – um desses
seres que pode habitar apenas a nossa imaginação. nesse caso, uma êre. presente
anunciado nas semanas finais de 2011. sequer imaginei o que poderia ser.
o presente insuspeito veio na passagem do
ano: chegou com 2012. na forma de uma emoção inesperada. daquelas que chegam
sem avisar, alteram os trajetos e mudam os planos.
festa de réveillon. já estou um pouco alta.
animada, com as amigas mais próximas por perto. mas com a sensação de que
faltava ainda t. chegar. amiga? não exatamente. até, então, alguém que tinha
encontrado 2 vezes, apenas. mas que, por essas coisas inexplicáveis, gostava de
encontrar. apesar da inquietação e da falta de palavras que me tomava ao
encontrá-la. supunha ser pq sua sagacidade, humor e velocidade de pensamento me
faziam parecer boba.
- “pq só chegou agora?” (perguntei, como se
houvesse intimidade suficiente para tal questionamento)
- “eu atrasei, mas trouxe o pernil, tá?”
hum?! (pensei: o que o pernil tem a ver com
isso... com a vontade de te reencontrar)
a festa segue animada. fumo um pouco, danço
outro pouco, acompanho os movimentos de algumas pessoas até que t. vem
conversar comigo (sim, não conseguia ‘puxar’ muito assunto com ela, aquela
sensação de se sentir idiota falando com alguém interessante, inteligente e
sagaz). me pergunta algo sobre namorada: se estou namorando, se ‘peguei’ minha
professora de ioga, pq não namoro uma amiga em comum. respondo a tudo – quase
formalmente – até que interrogo, pq raios ela insiste que eu namore nossa amiga
em comum.
- “pq?” – diz ela – “pq te acho uma gostosa
e se não fosse casada, te pegava”. e saí. pra variar, fiquei sem palavras.
cérebro já levemente lento, pelo álcool, penso: “mas que cantada barata”. tarde
demais, a cantada barata no meu ouvido se fez acompanhar de reações inesperadas
no meu corpo: aquele arrepio que percorre a espinha, acompanhado do frio na
barriga e acelerar dos batimentos cardíacos.
preciso dizer que não pensei em mais nada,
depois disso? estaria mentindo, pensei e muito: em como retribuir a “cantada
barata”. hum, só com outra.
na primeira oportunidade, colei minha boca
em seu ouvido, pra dizer: “adoraria fazer yoga contigo”. ah, e a vontade de rir
ante a surpresa nos olhos dela... até o final da festa, pude captar pequenos
detalhes: seu jeito de dançar (os movimentos do corpo mesclados ao olhar), as
mãos pequenas (como gosto), a voz deliciosa e envolvente...
sequer poderia imaginar os próximos
movimentos...
***
Ps. As personagens emergiram do texto e
deixaram suas próprias marcas. E que belas, são essas marcas.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Short cuts
Campinas, a cidade brilhava em meio à parafernália própria dos arranjos
de fim de ano. Os comentários, na padaria onde tomava meu café com leite e comia
o pão quentinho e dourado da chapa, eram da nova decoração no apartamento dos
famosos cantores sertanejos e seus robôs de natal. Eram até bonitos, apesar de
um tanto pedante. Mas a cidade brilhava. Eu nem tanto. Tinha só aquele
brilhinho íntimo, ainda um tanto escondido das amigas em comum, esperançosa que
estava de que na reunião da casa de Mariah, a fosse encontrar. Sei que não a
veria sozinha, sabia que teria que cumprimentar a sua companheira, mas apenas
eu sabia do pisca-pisca que habitava meu corpo. Enquanto caminhava pelas
alamedas de Barão Geraldo, sombreada pelo seu verde, me via sorrindo boba, me via
sorrindo ansiosa. Parecia que constelava comigo mesma.
Das mulheres, amigas das amigas, ela sempre me pareceu a mais bela. Daquelas
que a beleza parece falar diretamente a mim. Por isso, decidi ir. Essa minha
fala secreta, apenas me pertencia. Talvez nem ela mesma escutasse, sempre fui
tão discreta, e nos raros, porque escassos e preciosos, encontros em que pude
vê-la e ouvi-la, ela sempre se ocupava em me apresentar a uma conhecida,
realçando benesses. Parecia que me ver sozinha a incomodava. Eu, delicadamente,
me declinava, como se sozinha me bastasse, mas o que mais me bastava era essa bela
fala secreta que, segura no meu íntimo, me deixava sorrir enquanto ela me
ofertava possibilidades outras.
A noite chegou, mas seu manto escuro demorou a baixar. Era Campinas, e
os dias estavam mais longos e secos. Eu, na minha urgência despretensiosa,
comecei a me preparar. Ritualística como sou, ainda ampliei meu corpo na yoga, o
banhando em seguida, sem deixar de lado meu chá de carqueja, sabia que veriam
vinhos. E sabia que não seriam poucos.
Parti rumo à casa de Mariah. Estava cheia, como de costume, e todas as
amigas ali estavam presentes, as risadas alegres, os beijos afetuosos. Ainda
não a havia visto, mas sentia sua presença, já ensaiando algumas frases.
Avistei ao longe e logo ela se aproximou. Chamou-me de gostosa ao pé do
ouvido, depois de algumas taças, também cantei ao seu. E ficamos assim, entre
as rodas e os círculos todos, a nos esbarrar. Ela já não me prometeu companhias
alheias. Era ela, talvez, sempre tenha sido.
Os borbulhantes estouraram com os abraços todos de feliz ano novo. Com
mais alguns brindes, fui embora. Talvez ela tenha ficado, não só com sua
companheira, mas também comigo, porque no dia seguinte, ela me mandou dizer:
Fique, não vá. Eu fui, mas ainda estou, estamos em maio, e desde então nunca
mais falei sozinha a minha linguagem secreta. Short cuts.
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