sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Lembrar de esquecer, esquecer de lembrar


Quando irei me desocupar disso tudo? Tento o tempo todo esquecer. Esforço-me a esquecê-la e quando me entretenho em meio aos meus livros todos e aos discos que vou espalhando ao redor da minha cama, um trecho, um refrão, me levam de novo a você, a nós. Com que permissão invadiu assim a minha vida, se você não pretendia ocupar-se dela? Eu, por certo, não saberia precisar o momento em que aconteceu, talvez, tenha sido no dia em que me pediu para desembaraçar os seus cabelos, tanto que você gostava que todos o tocassem, como se isso não significasse nada fora do ordinário, pois parecia que, ao fazê-lo, com seu pescoço debruçado em minhas mãos, numa sensação urgente de prazer, não sei se minha, se sua, se nossa, seria o sinal de perigo que deveria ter posto a mim mesma. Pare Felipa, vinham as letras garrafais em minha mente.
Mas éramos amigas e as amigas se tocam. Apenas não sabia que as minhas mãos tinham uma vontade própria, que minha razão estava no estômago, que minha alma estava nas pernas trêmulas. Que as mesmas mãos que delicadamente escovavam seus longos fios, faziam uma força tremenda para não pesar sobre seu corpo, arrumando-a e me desarrumando toda, nessa mesma cama que, hoje, fico treinando o esquecimento, ao escrever. As mesmas mãos que desavisadas, se meteram por entre os seus cabelos, sentindo sua nuca. Bem que você poderia ter se afastado, ao invés de reclinar-se sobre mim, retirando a blusa, para que ficasse mais confortável, como me disse na ocasião. Confortável, para quem? Lembro que pensei, ao mesmo tempo em que cuidava de penteá-la. Não sei precisar o momento em que deitamos juntas na cama, em que me vi também despida, esqueço-me das etapas, mas a lembrança do sentir, essa sim, está em mim, como uma coisa ruim que preciso enxotar, exorcizando o cheiro da sua pele, o gosto da sua boca, o deslizar de nós duas, juntas, em meio àquela cama de solteiro.
Mas não é disso que trata esse texto, essa foi o marco das lembranças, a mais custosa de expurgar. As outras, também são difíceis de esquecer, difícil esquecer os momentos de quando me roubou beijos no carro do seu namorado, de quando me lançou nas paredes do banheiro do restaurante onde costumávamos ir, dos encontros de fim de tarde, regados a descobertas, descortinamentos e desvarios. Já são anos de contabilidade dessas lembranças, mas parece que foi ontem, assim como o dia em que me deixou, em que disse que estava apaixonada por outra, que não me amava mais. Eu permiti que você destruísse pedaços de mim, que minha razão voltasse ao lugar que antes lhe era de costume, que minha alma retornasse ao seu centro, que minha vontade fosse podada e amordaçada. Já faz tanto tempo, mas nunca me lembro de esquecer, de esquecer o caos, a dor, a saudade, o desejo, as vontades, os planos todos...  
Estabeleci prazos para o meu esquecimento, mas sempre que me aproximo deles, no meu esforço de lembrar, os esqueço. Você foi a minha primeira paixão, o meu primeiro amor, a minha primeira mulher. Não que eu não tenha experimentado outros corpos, mas procurava em outros, os nossos, embolada que estava nas minhas lembranças.
Na lembrança de apagá-la, destruí-la, implodi-la nos braços alheios, mais me remetia aos contornos seus, as risadas, as confidências, os achaques, os ciúmes, os nossos gozos, as nossas bocas juntas, de mim, inteira, ao lado seu.
Mas escrevo para esquecê-la e lembro-me o tempo todo de fazê-lo, ainda na mesma cama de solteiro, sendo que, dessa vez, senhora das minhas letras garrafais: JÁ NÃO ESTOU EM CACOS, JÁ SEI SORRIR QUANDO A VEJO EM COMPANHIAS OUTRAS, JÁ LEMBRO QUE NÃO A AMO MAIS, APENAS ESQUEÇO-ME DE QUERÊ-LA TANTO...
QUE MERDA! MALDITAS RETICÊNCIAS...

Ps. Havia esquecido esse texto nos arquivos que lembrei de apagar.

domingo, 19 de agosto de 2012

Sim, eu sou uma vadia!



Benedita estava coando o café quando Márcia entrou em sua casa. Vinha que vinha apressada, parecia que um touro enfurecido estava nas suas saias. Nem mesmo havia pedido licença, quando, ligeira, puxou a cadeira e se pôs a falar.
- Isso é mesmo um absurdo. Bem que José disse que o tempo já é do fim dos dias. Primeiro essas moças andaram de ficar empoleiradas em suas bicicletas ou na garupa das motos, andando feito homem até tarde da noite. Você viu o que vai ter mais tarde? Elas vão se reunir em passeata, a tal da marcha das vadias. Helena disse que vai, eu já falei que não ia deixar de jeito nenhum. Ora essa, a pessoa nem consegue ainda arcar com o peso dela e já acha que pode fazer o que quer, não senhora, comigo não, quem come do meu pirão, tem que ouvir minha razão. Onde já se viu isso? José não sai daquela porcaria de jogo, eu falo, falo, falo e tá pensando que alguém me escuta. Nem pra ajudar com Helena ele serve, fica só me ignorando. Tou mesmo querendo saber se ela vai. Ah, se quero...
- Márcia, pegue uma xícara para você, tem um pãozinho quente pra acompanhar. Não fique tão aperreada, isso é coisa dessa juventude mesmo.
- E eu quero lá saber de história de juventude. Desde que Helena entrou nessa universidade, não vai mais à igreja, não conversa mais comigo, nem me responder mais, ela responde, só faz balançar a cabeça. Como se não precisasse mais dizer por onde anda ou com quem anda. Vêm uns colegas dela bem estranhos lá em casa. Eu acho que esse povo nem tomar banho toma. Tudo com jeito de maconheiro. O pior é que eu nem posso ler mais as cartas dela pra saber o que ela anda fazendo da vida, agora é email pra cá, email pra lá...
Benedita fez de conta que continuava ouvindo, suspirou e serviu o café. Servir é o que sabia fazer. Pelo menos quem sabe Helena aprendesse outras coisas na escola. Benedita nunca teve um filho, apesar de já ter engravidado  três vezes. Meus anjinhos, ela pensava, Deus levou para um lugar melhor. Ninguém merecia viver o inferno em vida que ela mesma conhecia.
- ... essa menina não sai da frente do computador, você acredita que outro dia, ela sentou na cadeira umas quatro horas da tarde e quando eu levantei pra ajeitar o café de José, ela ainda tava lá, na frente daquele troço. Diz que fica fazendo trabalho da faculdade, mas eu sei que trabalho é esse... se fosse trabalho de futuro, se ela pensasse no futuro não tinha terminado o noivado com Bruno. Aquele sim era um genro de futuro, trabalhador. Melhor marido ela não ia arrumar, eu disse, tanto que falei, mas parece que entra num ouvido e sai no outro. E Helena só fica dizendo que essa não é a vida que ela quer pra ela, que quer se formar. Se formar pra quê, quem é que vai cuidar dos filhos dela? Ela pensa o quê, que é melhor do que os outros... Eu mesma mal consegui terminar o segundo grau, era mamadeira, fralda pra lavar, tinha que botar o feijão no fogo e ainda aguentar o choro de Helena, que nunca conseguia dormir mais do que três horas seguidas...
Helena, pensava Benedita, parecia que tinha o fogo do mundo todo. Tão cheia de energia, tão cheia de vontade, não sabia porque sua mãe não percebia o milagre que era Helena. Sempre que via Helena saindo de casa, toda faceira, intuía que ela ia fazer muitas coisas na vida. Mais do que ela mesma ou do que mesmo sua própria mãe, que parecia só se ocupar da vida alheia. Tinha certeza que Helena não seria rendida por homem nenhum. Às vezes achava que tolerava Márcia, por causa de Helena. Às vezes achava que se tolerava, por causa de Helena.
- ... bem que você podia falar com Helena pra ela desistir dessa idéia maluca de ir numa marcha de vadia. Quem em sã consciência ia querer fazer parte disso? Ela fica dizendo que é um protesto para parar a violência contra as mulheres que foram estupradas, que é uma forma política de lutar pelo direito das mulheres. Eu não acho nada disso, mulher que quer ser respeitada, não pode se dá ao desfrute. Como é que o povo vai respeitar as mulheres se elas se chamam de vadia. Helena pensa que eu não vi como é essa marcha, eu posso não ler como ela, mas não sou burra não, eu acompanho tudo na televisão, eu vi a safadeza, um bando de mulher vestida com roupa de quenga gritando, dançando... 
Benedita parou o que estava fazendo. Arrumou o cabelo atrás da orelha e resolveu também tomar o café.
- Benedita, você não vai dizer nada, ela sempre lhe escuta. Eu nem sei mais o que fazer. Afinal, você é a madrinha dela e ela lhe quer muito bem. Tira essas maluquices da cabeça dela. Essas moças pensam que podem andar na rua de todo jeito, depois acham ruim quando um homem se aproveita.
-  Pare Márcia, não fale assim, você não sabe do que está falando!
- Ora, como não sei? Você não viu o que aconteceu com a filha de Fátima, primeiro começou a andar seminua, agora vive trazendo presente caro pra mãe dela, que fica toda prosa dizendo que a filha é uma mulher de negócios, eu sei que negócio é esse que ela faz... uma vadia, como essas moças que vão pra essas passeatas com os peitos de fora.
Benedita sentiu um calor subindo pelo seu corpo, sua garganta travou, como se tivesse um bolo congelando seu íntimo. Frio e quente. Seus olhos passaram a não ver o que estava à frente, e só conseguia ouvir o som dos socos, que levara a vida inteira, o ruído de seu choro engolido nas tantas vezes que levara chutes em seu ventre inchado, cuja promessa era a vinda dos seus anjinhos. Imagens suas, no hospital, dizendo que tinha caído da escada, sua vergonha de ver seu ventre costurado por estranhos toda vez que ele lhe enfiava suas ferramentas, as cicatrizes todas de queimado em suas pernas e em suas nádegas, dos cochichos dos vizinhos quando falava que tinha sofrido um acidente lavando a roupa no domingo. Seu corpo, tomado agora pela sua memória, parecia somar a mudez de uma vida inteira. Começou a se arranhar, rasgando suas vestes, enquanto ia em direção ao banheiro, deixando Márcia pasmada, quando também começou a se maquiar. Não era uma maquiagem como a das estrelas, era a maquiagem de uma mulher que queria dar o rosto ao mundo.
- Criatura, pra onde você vai assim, tão tresloucada? João daqui a pouco chega da oficina.
Benedita não parou seu tempo para responder, simplesmente continuou o seu frenesi, desarrumando as vestes que sempre fizera questão que permanecessem em ordem. Enquanto fazia isso, com o rosto afogueado, ia jogando pelos cantos do quarto as roupas arrumadas pela cor, todas quase postas no mesmo lado do armário, cinzas, beges, brancas, até achar o xale rosa com miçangas verdes que Helena havia bordado para ela, quando ainda era mocinha. À medida que ia se desnudando, deixando seus seios caírem sobre seu corpo, ia rasgando as meias que lhe cobriam as pernas, procurando, na caixa de costura, sua tesoura, a mesma que muitas vezes pensara em usar no João, para cortar as saias que estava vestindo. Seus seios que nunca alimentaram ninguém, que nunca foram beijados com ternura, que foram sempre cobertos até o pescoço para disfarçar as marcas roxas, amarelas, verdes, que tratava passando arnica, ficaram agora desnudos e pesados ao sabor do calor da tarde. Não eram os seios de alguém que se orgulhasse da juventude dos seus dias, mas nunca se orgulhara tanto deles quanto agora, deixando-os à mostra, enfeitados pelas contas verdes do seu xale, como se aquelas fossem as joias mais raras e exclusivas.
Márcia, com sua tagarelice infindável, parecia uma metralhadora, dizendo que eu estava louca, sim, eu estava louca, louca para falar, louca por já ter ouvido tanto, louca por ter me calado sempre, por ter perdido os filhos que nunca tive, por ter desistido de estudar, por ter me apaixonado por João e por achar que ele sempre tinha razão, mesmo naqueles dias, quando ele me culpava por ter se exaltado e eu aceitava, tão culpada.
- Cala a boca, Márcia, já lhe escutei o bastante!!!
- Mas Benedita, você está parecendo uma vadia, nua e com a cara pintada desse jeito...
- Sim, eu sou uma vadia! – disse Benedita, enquanto saia de casa a procura de Helena.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Agosto de Deus



Veio assim desaforado. Era agosto, como sempre agosto tinha de ser. Quando ele punha as mãos em mim, me molhava toda e me repreendia imediatamente. Não que ele tocasse aquilo que não poderia ser tocado, não antes que nós cassássemos. Já havia dito, ele não era um desavisado, só depois, depois das bençãos. Depois tiraríamos os atrasos. Mas ele tinha pressa. Era da minha igreja, por que não percebia? Não percebia que teríamos o tempo todo do mundo. Mas ele tinha pressa, e me amassava entre um culto e outro. E eu dizia: está bom, ele dizia em seguida, está ótimo, tão rápido quanto suas mãos. Apenas achava graça do trocadilho. Não sei se era pelo frescor dos meus dias, se era pela vontade de repreender ou pelo fato de que não nos beijávamos. No íntimo, rejubilava-me ao relembrar que as putas não beijavam. Era o meu corpo, era a minha boca, e qualquer coisa mais íntima me desagradava, me deixava degradada. A mim e ao meu Deus.  Mas era agosto e ele me disse, me toque! Eu o toquei, não sem medo, me lembrei dos mil infernos, dos demônios todos, do meu pai que já era falecido, do sermão do pastor que me alertava o tempo inteiro e quanto mais eu lembrava mais molhada ficava, derretida, como se meu corpo fosse um outro, aquele do inferno, com as mulheres com as curvas todas, me achando sexy, me figurando entre elas. Eu era uma delas. Não, eu não era, não sabia onde colocar as mãos, nunca tinha tocado um corpo rijo. Eu era de Deus. Queria dizer tudo isso.  Mas não tive tempo, Meu Deus, você sabe que não tive tempo, porque você estava dentro de mim. Mas bem que você podia ter saído naquele momento, podia ter dado passagem a ele que me fez a corte. E aí, me dei mal, nem estava com ele nem com o Senhor. E o Senhor me atrapalhou. Me atrapalhou, com as vozes todas  que falavam em seu nome. É, essa foi a minha vez, a minha primeira vez, a muita de outras.  Mas não foi minha simplesmente, foi nossa, e você, hoje, se atreve a me perguntar se foi bom, quando a única resposta possível é,  foi, foi a gosto de Deus.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A confissão de Palimp VI




Você já arrumou o gravador? Já posso começar? Bom, me desculpe o nervosismo, mas nunca tinha feito isso antes. Não que eu não desejasse, mas sempre fiquei receoso. Ficava até receoso de dizer receoso e não receosa. Mas acho que já posso falar assim, como sujeito homem. Engraçado, sujeito homem era sempre como meu pai se referia aos amigos e eu sempre alimentei, bem lá no fundo, uma vontade de ouvi-lo me chamar assim também. Que Deus o tenha ou Lucífer, sei lá. Não cabe a mim adivinhar quem o recebeu depois de morto. Tá, tudo bem, vou tentar começar do início, é porque é difícil para minha pessoa saber exatamente quando foi que eu me reinicei, apaguei meus velhos arquivos e escolhi novos programas. Sei que minha história passa ao longe da Branca de Neve, mas o espelho sempre foi um personagem fundamental. Era amor e ódio. E isso é muito difícil. Os espelhos estão em todos os lugares e são muitos. Experimenta ir num shopping ou até mesmo se refrescar nos banheiros... Era um verdadeiro martírio. Por isso sempre preferi os banheiros dos postos de gasolina, pois, ainda que ardidos de urina, era um alívio que nas paredes só pudesse ver o encardido dos azulejos. Cresci assim, a fugir dos espelhos, porque acreditava que podia me refugiar na imagem que havia criado em meus sonhos. Nada disso era explícito, raramente as pessoas percebiam, mas também, raramente me percebiam. Tinha umas coleguinhas da escola que diziam, vem cá menina, vem botar um batom. Eu ia e não ia. Ficava de frente a bancada, enquanto elas passavam e olhava para frente sem que na frente nada existisse. As amiguinhas, ah, as amiguinhas, quem será que as inventou? Por mim, pegava naqueles pescoços delgados e torcia feito mainha ao matar a galinha de domingo. Na hora dos esportes, então, era um drama. Nunca tinha sido convocada para as danças que eram ridiculamente espalhafatosas naqueles shows de ginásio de esporte. Ah, você quer saber por que eu falo convocada e não convocado. Me perco no meu próprio passado, como nele eu era perdido. Mas qualquer coisa você revisa no editorial. Regula os pronomes. Aproveita e ajeita também meu português que é pra ver se combina com o talho desse uniforme. Eu ainda tou me adaptando. Hahahha. Adaptando, parece que vivo a me adaptar. Quando não é uma coisa é outra. Só sei que a escola me matou. Matou pedaços dentro de mim como nem minha família, até então, tinha conseguido, pois em casa eu brincava de menino invisível, e nunca nenhum deles me viu. Sabe aquelas brincadeiras que não custam nada, não dependem dos brinquedos que você ganha e do qual nenhum era o que tinha sonhado?! Bem, era assim mesmo. Dia das crianças, então, nada de ficar feliz. Era apenas um rosto amarelo, não, não havia sorriso, desembrulhando bonecas das mais variadas e olhando de esguelha para os joguinhos dos vizinhos. Ingrata, era assim que me chamavam e tudo que eu queria era uma bicicleta pra virar bicho solto no mundo. No natal, ganhei uma Sissi, dessas róseas, com direito a cestinha e tudo. Ia passear com as colegas. Uma vez ela disse, seu braço é estranho, parece que tem músculos, parece braço de menino. O nome dela era Marina e eu me vi perdidamente apaixonado. Marina era linda, morena, toda pintada, olho agateado, sorriso fácil, maneiras bruscas. Costumava ser a megera da escola, tão clichê isso, mas eu a seguia assim mesmo, seguia como se tivesse sido adestrado. Jogava os jogos que ela queria, as brincadeiras que escolhia, carregava suas tralhas, ousava passar do seu perfume, só para lembrar o cheiro dela. Até o dia que Carlos, em meio à sala toda, disse que eu era sapata e que queria Marina só pra mim. Até hoje me lembro das risadas. E eu, ali, abobalhado, sem saber o que era sapata. Mas desse dia em diante, só usei sandálias de dedo. Marina ficou pra trás e eu já não sonhava com ela, mas sonhava em ser ela, sonhava até em, sendo ela, estar com Carlos. Me odiava por isso, e comecei a odiar também os sonhos, assim como os espelhos.  Já não queria mais ir à escola e estando lá me refugiava nos livros até o dia em que pude ir embora. Na faculdade, entrei no curso de línguas. Queria aprender a falar todas elas e enquanto isso me calava no português. Não tinha interesse. Queria ir pra bem longe. Não sabia que ia voltar e que hoje ia falar com você. Que ironia, não? No mundo conheci pessoas como eu, sem cara, sem rostidade, aprendi conceitos, fiz oficinas de filosofia, vi que ser estranho era capital simbólico nas grandes cidades. Foi quando eu decidi mudar, depois de assistir aquele filme, aquele que o rapaz colecionava pele de moças. Como era o nome...? O silêncio dos inocentes. Queria uma nova pele. Uma pele que pudesse encarar o espelho e podar seus pêlos. Me inscrevi em programas públicos, mandei emails, mandei cartas, preenchi arquivos, fiz séculos de terapia, só nunca falei daquele filme. Participei de grupos de solidariedade de gordos. Ora, por que fiz isso? Eles também queriam arrancar pedaços de si. Me identifiquei com os androides, participei de debates sobre androginia, sobre os queers e a leva toda. Enquanto isso me envolvia com uns e outras. Até que a encontrei. Dra. Frankie Stein, tão século XIX, tão século XXI. Ela topou fazer a transferência. E assim, me transferi para outro corpo. Um corpo de pronomes próprios. Foi até divertido servir de modelo para suas experiências. Claro que eu gostava dela, nunca a quis mal. Não fique ansioso, já digo... mas é tão óbvio porque a matei, porque não poderia ser diferente... ela era a memória de quem eu fui antes. Com ela, eu não teria pertencimento. E, por favor, quando você concluir, não coloque o nome que me deram ao nascer, mas o que me deram nos jornais, sim, meu nome é Palimp VI, o único presente que me deram e que eu quis que fosse m---eu.  

domingo, 3 de junho de 2012

A generosa



Quando ela vinha, seus saltos tocavam uma música primitiva, acompanhada pelo bambolear dos seus quadris. Os rostos viravam em uníssono e as mais diversas reações se desenhavam com o seu gingado, numa mistura nada homogênea. Mas ela passava, pela calçada, religiosamente, ao fim da tarde. A praça, então, parecia diminuir de ritmo, como se naquele tempo-espaço, tudo ao redor se congelasse, e ela, apenas ela, adquirisse a mobilidade do mundo ao dar a volta na lua.

Não conhecia quem a conhecesse de perto. Nenhum de nós. Ela nunca olhava de lado, tampouco para cima ou para baixo, seu olhar era tão reto, como a desconfiar da fartura de suas curvas todas. Diziam que ela era uma mulher do mundo, diziam que ela era mulher de um só, diziam que ela era dela mesma. Diziam muito, mas nada que viesse de perto.

Até que um dia, a cidade enfeitada de bandeirolas coloridas, mesinhas floridas, palco armado, anunciou os festejos do São João, fechou as portas do comércio mais cedo e, ao fim da tarde, convidou seus citadinos para juntos, e distribuídos entre todos os quiosques, alimentados pela luz elétrica, já trêmula pelo altear da fumaça dos fogos e fogueiras, dançarem ao sabor do milho assado e dos quentões.  

Ainda era menino moço, emudecido pela timidez da minha voz e pela inexperiência dos meus gestos. Mas era um rapaz de olhar guloso e queria dar conta de ver tudo. Apenas lamentei a calçada tão cheia, temia não vê-la hoje. Os colegas logo me acharam e me entretive em meio a tantas figurações. Parecia que Dona Maria estava triste ao lado de Seu José que, ritmadamente, erguia seu copo suado de gelado para os seus bigodes como a sorver a sede do mundo todo. Percebi que os pés de Dona Maria, por baixo da mesa xadrez, seguiam o ritmo do trio de zabumba, triângulo e sanfona, como se o direito e o esquerdo estivessem um nos braços do outro.

Raimundo, viúvo há uma quinzena de anos, não saia do pé do poste, como se ele mesmo tivesse a companhia para o fim dos seus dias. Elaine, do outro lado do arraial, desfolhava o verde da cerca de coqueiros, juntando os palitinhos como se fosse abrir uma fábrica de pipas. Fernanda, toda vestida de coronel, parecia a mesma, forte, longa e de cara limpa. Francisco, todo serelepe, convidava todas as moçoilas para bailar, nenhuma lhe fazendo menção.

Enquanto cobria os ouvidos com as mãos à espera do pipocar dos traques, ouvi o tilintar do salto e meu coração zabumba esperou. Lá estava ela, vindo, mas dessa vez seu andar era feito de giros. Quem estava perto, deu passagem. Quem estava longe, estreitou o olhar. E ela, de frente ao palco, rodava a saia, deixando entrever suas pernas torneadas, ao mesmo tempo em que sua boca vermelha, entoava junto, as músicas que, para mim, passaram a soar com quentura. Procurei, rapidamente, sua companhia. Não havia, ela estava só. Dançando não abraçada com um outro, mas com os braços erguidos em floreados. Não compreendia como um mesmo corpo podia ir a direções tão diferentes e parecer estar indo junto. Sua dança, de tão altiva, parecia ocultar o segredo da natureza. Era uma força. E à medida que ela entoava e rebolava no meio daquele improviso de salão no centro da praça, me remexia todo internamente, como se dançasse uma quadrilha inteira.

Ela passou e girando, deu um abraço em Raimundo, tirou Dona Maria para dançar, deu um selinho na boca de Fernanda, que ficou corada com mil maquiagens, boca toda avermelhada, fez um coração de coqueiro para Elaine, que convidou Francisco a bailar, esvaziou o copo de Seu José, que sem ter o que mais beber, começou a olhar novamente para os pés casados de sua mulher, e se foi, não sem antes sapecar meu rosto de beijinhos.

Ela nunca mais apareceu na cidade depois dessa noite. Mas, nós, que nunca a tivemos, tão perto, deixamos de comparecer a festa de São João. Soube tempos depois que, naquela mesma noite, tinham sussurrado em seu ouvido, enquanto a enlaçavam pela cintura que, finalmente, haviam encontrado o encanto do mundo todo e que ela podia desaguar em terra firme. E assim, ela teria partido, feito chuva, a fertilizar a terra alheia.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

O dia da mãe



Desde cedo aprendera a ser invisível. Brincava, apenas consigo, de pirata, sendo um bando inteiro. Eram muitos os mundos a saquear e desbravar. Para isso, inventou outro de si. Quando cansava da brincadeira, virava um ciclope. Todas as potências, criava para si, corpo todo fragilizado. Sua mãe trocava sua fralda, lavava sua intimidade, estendia sua vida.

Desde cedo, sabia que seu corpo seria sempre um corpo encarcerado. Via seus primos, irmãos e vizinhos brincarem ao longe, com a trovoada de risos, arengas e correrias. Ele não podia. Mas todos lhe diziam, não se entristeça, você é o melhor deles, foi o mais esperado, o amamos tanto.

E assim, por entre a cama sempre de lençóis animados e laqueada pelos aparelhos ortopédicos, se perdia em universos paralelos. Acreditava que poderia viver de sonhos. Mas enquanto alguns esperavam sua morte, seus sonhos caducaram e, ele mesmo, também desejou transcender. Sua rotina, desconcertada pelo uso dos dias, lhe causava furores. E ele quente, já não era Zeus, Thor, nem tampouco Wolverine. Desinteressou-se pelo mundo, pela linguagem, pelo sonho. E assim, tão triste, ele viu sua face despontar em pêlos. Os banhos, deixaram de ser alegres encontros com sua banheira dos barquinhos, passaram a ser constrangidas vivências com um outro que despontava tal como aquela indesejada abundância de quereres estranhos.

Não sonhava mais com o som que lhe fora roubado da algazarra das ruas e dos caminhantes, mais se revolvia com seus acontecimentos internos. Os familiares, nas ocasiões dos calendários festivos, diziam, como cresceu esse rapazinho. E na inquietude dele, sabia que seu crescimento, que lhe era um lugar tão incômodo, o era mais para os outros. No seu alcance, se rebelou, em meio a tantos hormônios e afastava, bruscamente, o que lhe era ofertado, já não queria o cheiro da alfazema, não queria o colorido das estampas dos pijamas. Percebia como triste ficava sua mãe, querendo que ele ainda não crescesse não, que ainda tivesse medo do bicho papão e lhe chamasse nas noites de trovoadas.

Depois, ele experimentou, a resignação. E também esperou pela data já passada, pois já queria partir. Não sabia exatamente o porquê de sua vinda, mas sentira que fora finalmente liberto daquela prisão tão carcomida.

Quando sua presença já era lamentada como ausência, ele não soube, mais no seu ritual de despedida, sua mãe desolada, tonta como uma embriagada, em meio aos soluços, lembrou aos presentes que,  comiserados estavam, nunca amou tanto, porque quando o seu filho, embalado pelas estórias que lhe contava, perguntava sempre, mamãe por que eu pergunto tanto porquê, ela feliz retrucava, ainda que dolorida, que a vida, tão distraída, tinha seus mistérios e que as perguntas eram preciosas, porque desconfiava dos destinos e respondia quem era quem. Ele, na sua pequenice, tão servil, tão rebelde, tão cárcere de si, ainda inquiria, quem eu sou mamãe, e ela, banhada em faces, recordou que disse, você é aquele que me ensinou o sentido do amor. E isso é tudo, é mais do que saberia sozinha. 




Ps. Que saudades de Babá...

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Café avec amarula



Nós já nos arrastávamos juntos há anos. Ele levava o cachorro para passear, eu fazia o café da manhã. Ele saia para o trabalho, eu me dirigia para a cama. Ele era responsável pela feira, eu pagava a conta da luz. Dividíamos o mesmo quarto, mas não a mesma língua. O apartamento que costumávamos trocar a cada dois anos, em meio a algazarras e expectativas, quando escolhíamos os novos móveis ou repaginávamos os nossos velhos troféus, virara um ritual banal, silencioso, mecânico. Já era o nosso nono apartamento. E eu havia nascido no décimo dia de uma gravidez de quase dez meses. A chegada do prazo para o décimo apartamento estava próxima e nós estávamos cada vez mais distantes.

Apesar de não nos falarmos, eu não queria abrir mão dos nossos silêncios. Apesar de não nos tocarmos, também não queria abrir mão dos possíveis esbarros entre a bancada da cozinha e a sala de estar. E assim, íamos, juntos, trilhando caminhos tão díspares.

Mas ele era presença conhecida e ainda que me debatesse entre ficar ou ir, sozinha enfim, meu corpo travava e o ar que entrava em meus pulmões era racionado, entre ansiosas inspiradas e espaçadas golfadas.

Ontem, ele chegou com o jornal e pude ver que passeava por entre as páginas dos classificados. Refugiei-me por entre o edredom, até que E. me liga, chamando para passearmos e atualizar as novidades. E., como sempre, tinha muitas e rimos muito juntas, brincando de tudo bem, enquanto tomávamos, sentadas, muito café com amarula, até que chegou aquele momento em que não pude mais engolir e disse a ela:


- Minha linda, tão bom estar com você. Mas não aguento mais estar comigo.

- O que houve de novo?

- Não é o que houve de novo, é o que não houve...  

- Como você está com ele?

- Nós, há muito, não estamos, mas não consigo ir. Temo a solidão. Mas sei que nossa relação está com o prazo de validade vencida, tal como o vinho vinagrado, tal como o queijo embolorado e que há muito não bebo ou como. Meu corpo está como o solo que antes abrigava um açude, seco, rasurado, esquadrinhado em fendas, esvaziado de presente.

- Por que você não parte para outra história?

- Como? Eu não sei como fazê-lo. Não sei mais como é estar comigo apenas, só sei como é estar sem mim. Eu já tentei antes, tentei me soltar, me excitei, inventei outras histórias, mas sempre aquele breque de não saber se ainda era desejável, se ainda alguém se interessaria por mim, se ainda saberia como tocar lábios alheios... Eu não sei de mim sem ele.

- ...

- Queria meu grito do uirapuru ao amanhecer, minha calda de sereia quando os barcos se avizinharem, meus cabelos longos de outrora que acobertava minhas mini-saias, queria minha libido solta a correr o mundo, gritar ao gozar e me surpreender, de maneiras que nem possa imaginar como, que minha memória não alcance, descobrindo uma em mim que desconheço, quero, sobretudo, me surpreender.

- Faça. Crie novos prazos, valide novas possibilidades, experimente ficar consigo... Você consegue, afinal, alguém que habita tanto desejo, tem que se permitir.

- Eu quero, tenho medo, desejo profundamente, escureço, continuo, me debato, aposto, me perco... Preciso de conselhos.

E. ficou parada. Depois do meu desabafo, se foi. Eu também me fui, sem conselho algum. Uma semana depois, soube, por amiga em comum, que E. pediu licença sem vencimento do trabalho e fora tentar a vida em Paris, tinha voltado a pintar. Seu primeiro quadro vendido, ou trocado por bisnagas e conhaques, chamava-se Café avec Amarula.

Fiquei feliz. Tinha finalmente me surpreendido. Dez meses depois, na minha décima casa, no meu primeiro café, brindei sozinha, grávida de mim.