quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Borboletas e violetas


A primeira vez que a senti, procurei não vê-la mais. Não sabia nada ao seu respeito, de onde viera, o que desejava, tinha apenas uma lista com o nome de todos que estavam na fila, esperando por receber um crachá. Provavelmente um daqueles nomes era o dela. Entregava as pastas daquele encontro que era um misto de catarse, estudo de grupo, confraternização, como se fosse um daqueles funcionários públicos que nos atendem sem nem ao menos desviar o olhar da sua mesa. Assine aqui, disse, me desviando toda.

A primeira vez que a vi, vi que ela me olhava sem nem, ao menos, me ver, como se seus olhos escorregassem como manteiga quente. Incomodada com a cegueira que em mim era posta, peguei o meu crachá e fui sentar naquele longo auditório. Mas sabia que sentaria bem na frente. Queria que ela me visse. Seriam muitos dias juntas e num deles, pensei, a roubaria num olhar qualquer.

Na segunda vez, não a senti no alcance da minha circunferência. Mas sabia que era ela. Sentia, como os caçadores, concentrados que eram em escutar o derredor e ver a totalidade a partir dos rastros, que era ela que vinha nas minhas costas, não que a melodia dos seus saltos naquele chão de mármore tivesse me alertado. O alerta veio de um suor gelado nos meus pés, como a enunciar o fantasmagórico de outra presença. Senti, apenas, quando um braço, delicadamente, roçou meu ombro. E eu nunca mais fui a mesma. Percorri o mesmo corredor com minhas solas de borracha, quicando como uma atleta de saltos curtos.

Não pude conter o sorriso quando a vi de costas. Não sabia que tipo de traje era aquele que de tão destoante não me fez esquecer, ainda daquela primeira vez, aquele chinelo de couro cuja presilha era o símbolo da paz. Uma hippie, pensei, sorrindo internamente, que démodé. Mas esperava ver de novo os seus pés. Pareciam pés de princesa ou daquelas bonecas de bibelô. Senti vontade de ver o rosto, mas ele ainda não se mostrara.

Aquelas reuniões sempre pareciam demorar décadas. Como era responsável pela entrega das listas de presença, das águas e dos cafezinhos, não me detinha nas frases, que pareciam proferidas pela elegância das línguas corretas, pausadas e claras dos palestrantes. Não me interessava, nem queria aprender mais do que já sabia ser excesso. Apenas concordava entre uma hora e outra com qualquer um que falasse, meneando a cabeça, olhando sem ver. Mas esse encontro, sem vistas, tinha criado um descompasso em mim, como se um oficial de justiça tivesse vindo a minha casa me destituir de tudo aquilo que eu nem possuía e ainda assim eu temesse como quem teme pela própria vida, ficar privada da minha privação. Não era lógico. Será que estava desenvolvendo aquelas manias medicalizadas das primas distantes?

Ela era curiosa, não, não era curiosa, era desconcertante. Não que aqueles tênis surrados fossem diferentes da maioria das moças que ostentavam a mesma farda. Alias, pensei, bem surpresa, preferia o chinelo. Pelo contorno dos seus dedos poderia, quem sabe, desenhar o resto. Quem sabe poderia chegar ao seu rosto. Ficava acompanhando suas idas e vindas com aquela bandeja trêmula, como se a qualquer momento viesse um descarrilhamento de copos, xícaras e cacos. Seu rosto estava sempre coberto por cachos ou pelas sombras que a encobriam enquanto andava com o olhar baixo. Esse olhar cabisbaixo me pegou, como se tivesse me visto de frente e de dentro, e me vi saindo do auditório, apressadamente, acendendo um cigarro em direção ao carro, como a exorcizar os tempos em que também não tinha olhos para o mundo. Já havia tratado disso em milhares de sessões, das mais diversas linhas. Tinha entendido porque era preciso olhar à frente como se o correr dos passos tivesse deixado em cada passada já dada as vergonhas, os risos, as quebras, os desejos recalcados. Talvez não voltasse a esse seminário, pensou ao mesmo tempo em que pediu ao barman um Dry Martini duplo.

Ninguém sabia nem eu poderia compartilhar com nenhum outro a não ser com minha própria divisão que minha vista era curta e que para servir os cafés, os chás, o buffet ou qualquer coisa que me colocasse às mãos, tinha desenvolvido uma estranha forma de ver. Na minha barriga moravam milhares de borboletinhas e eu via através delas. Não que isso ajudasse muito, o olhar da borboleta, sem a luz ultravioleta, só era compensado pelas suas antenas. Raramente elas me mostravam muito, mas quando o faziam pareciam indicar todas as cores dos arco-íris. Era uma estranha combinatória, pois as cores só me vinham através da pele. Quanto mais quente a cor me vinha, mais ruborizada ficava, como se a qualquer momento o sangue pudesse pedir licença se despedindo pelos poros. Era uma manada desgovernada me indicando o derredor. E de tanto ver e não ver, senti tonturas, daquelas de câmera lenta, percebendo o deslocamento do ar e o espirrar dos líquidos quando a bandeja deslizou das minhas mãos, bem no colo daquele tailleur violeta.

Fiquei totalmente banhada. Ela apavorada, com a voz alquebrada me chamando de senhora, me desculpe, como posso ajuda-la? Me leve ao toalete. E assim segui aqueles tênis surrados, ao mesmo tempo em que me desfazia do meu blazer.

Meu Deus, o que eu fizera? Pensava, enquanto apressava os passos para não errar o caminho.

O grande lavabo estava desocupado. Todos ainda estavam em seus acentos no auditório. Vi, quando ela pegou lenços higiênicos e molhou, me entregando de lado. Eu me recusei a segurá-los. Senhora, sei que pode não ser o suficiente, mas pode minimizar o desastre, desculpe, sou muito desastrosa. Não resisti mais muito tempo e me aproximei daquele corpo estranho. Puxei-a para minha frente e levantei aquele queixo tão cabisbaixo. Foi quando eu vi, vi seus olhos, eram escuros, como um céu sem estrelas, carregado de nuvens densas, como um buraco negro que não tinha luz nenhuma. Eles não eram grandes, mas profundos, como se pudesse sugar o mundo para dentro de si e ainda assim pareciam não ver nada. Não poderia dizer mais nada sobre seu rosto. Apenas sobre seus olhos.

As antenas dentro de mim entraram em frenesi. As borboletas começaram a sair do meu corpo, pelos ouvidos, pelas pontas dos dedos, pelos fios dos cabelos, pousando na iluminação daquele ambiente, como se o seu feixe de luz, ao ultrapassar as batidas de suas asas, jorrassem todas as cores que faziam minha pele abrir em milhões de olhinhos que ora se concentravam no âmbar dos seus olhos, ora no carmim de sua boca. Só havia sentido algo parecido quando provei meu primeiro pedaço de caramelo com morango, ainda que o gosto fosse  anos luz de tudo que fosse imaginável ou semelhante. Pousou na minha boca lentamente como a me confundir com as borboletas todas. Levemente no começo, depois profundo, aberto, sedento. Eu formigava inteira, sentindo que o universo era uma liquidez só e que eu poderia me embriagar com todos os seus quadrantes.

A beijei de olhos abertos. Ela recebeu meu beijo com olhos mais abertos ainda, me tragando toda, me cheirando como se seu nariz fossem mãos a me enlaçar. Desvencilhou-se dos meus dedos que seguravam seu queixo e afundou na curva do meu pescoço, sem respirar nem nada, apenas aspirando, como se aquele fôlego fosse o primeiro dos seus dias.

Não era possível, o tom violeta do seu traje reverberava por todo o ambiente e eu quase pude ver. Parecia que a tinha visto me despindo toda, me habitando inteira. Parecia que tinha visto sua blusa de seda colada aos seios, molhada pelo meu desastre, ser descartada num meneio urgente. Parecia que eu tinha visto a coisa mais bela do mundo. Mas desse meu quase olhar os sentidos explodiram, sobrecarregados que estavam, como a me colocar em curto-circuito, como a me fazer sair do corpo, tal como meu espírito naqueles dias de viagem astral, a entrar num espaço que não era mais de queda, de escuridão, mas de êxtase, como um gozo sem fim.

Nunca havia sentido tanta urgência e tão pouca pressa. Poderia rasgar o mundo com minhas próprias mãos e o quebrado em mil linhas só para monumentalizar aquele instante, aquele momento em que a grudei na cerâmica e a provei da mesma forma que ela tinha me cheirado. Não sei quanto tempo durou, que fome era aquela, que lugar estava indo. E nem como poderia parar. Mas nossos corpos pararam, enxagues, mas ondulados pela ressonância de todo aquele encontro. Virei-me de lado, para poder ver seu olhar negro novamente, quando vi que a densidade da tempestade desabada lavara seu olhar, antes nublado, deixando uma manta de estrelas. Ela apenas suspirou.

Quando suspirei, as borboletas voltaram todas pra mim e fizeram uma bagunça total, se deslocando por todos os meus membros, que pareciam não obedecer mais seus territórios familiares. Pensei comigo, teria que me acostumar que minha forma de ver jamais seria a mesma. E nem eu queria...

No outro dia, depois que nos fomos, a vi servindo os cafés ainda cortinada pelos seus cachos. Era o último dia do evento. E sabia que poderia ser a última vez que nos veríamos. Enquanto os colegas terminavam suas apresentações e davam início ao coquetel que finalizava o evento, ouvi quando me perguntou, sem falar, por que você não fica, gostaria de ver novamente, no que respondi, sem voz, venha comigo...



Eu fui e hoje vejo tudo ultravioleta


domingo, 2 de fevereiro de 2014

@postas



A noite toda fora laranja, vodka com qualquer colorante, depois de uma tarde de enterro. Era um daqueles dias, dia de decisão final, bares lotados, calçadas sem alcance, ruas entremeadas e o celular sempre a tocar: por que você não está aqui? Ele nem poderia responder, mas lépido, entre um recado e outro, fez as @postas todas. Quem estava ao lado dele naquela noite, nem entendeu tanta empolgação. Não depois de um dia daquele.

@postou vinte reais em todos da esquerda, fosse branco, brasileiro, mulher ou mais velho. Seu time de @postas só não era mais idiossincrático do que si mesmo. Mas assim tirava a grana dos víveres. Não que a esquerda fosse uma decisão qualquer, era apenas uma decisão, dizia a si mesmo, nada relacionado com aqueles tempos de outrora em que seu closet era apenas vermelho e branco. Coincidiu que na mesma data tinha muito em jogo, família, amores, amigos, velório, mas disso não  tratava aquela @posta.

Era um final de ano, poucos dias antes do pipocar dos frisantes. Tinham vindo da mesma comarca, trazendo na mala, como naquela música, o desejo dos aconchegos, ainda que tivessem deixado mulheres, filhos e mães, como a estender os dias dominados e a leveza insustentável do cotidiano. Naquela pequena mesa, desabaram a ansiedade dos seus corpos, como se fosse uma sentada bem ordinária. O dia havia sido longo, quente, abafado e úmido das lágrimas de despedidas e dos apertos de mãos nervosos. Não por acaso, faziam de conta que ainda era muito cedo, apesar do correr das horas.

O encontro se dera em função da morte. Eram todos da mesma família. Sem comer ou beber o morto, saíram famintos e sedentos em busca de um lugar qualquer, de uma tv e de uma transmissão a cabo para fazerem as @postas. Mas nem todos que estavam velando, foram juntos, apesar da enormidade dos choros chorados e daqueles contidos. Foram em busca da luta, naquela cidade não totalmente mapeada, um tio, a mãe e o sobrinho juntos, ou melhor, um irmão, ela e seu filho. Dois deles não curtiam esses jogos vorazes, assim como não curtiam os encontros que se despediam da vida, mas isso nem importava de todo. Era apenas mais um elemento inusitado entre tantos.

Vocês não entendem nada, escutem o mestre, dizia, como se o mestre escriturado ganhasse a forma das maiúsculas. Essa é a luta mais importante do ano, é a grande revanche de todos os tempos. O ano, provavelmente, desdenhava, pois ele mesmo havia anunciado seu fim, esperando apenas seu ritual de despedida, além do que gostava mesmo era dos fogos de artifício e das promessas nunca cumpridas, que já não eram mais sua responsabilidade. Que viesse o próximo, sorria todo aposentado.

O caso é que a luta, a última de todas da noite, prometia a chance de redenção do desafiante, desacreditado e derrotado em sua última passagem pelo ringue. Achava-se invencível, se portava como o único, dançava como o maior dos bailarinos, sem entrar no mérito das causas perdidas. Tropeçou, pois apesar de forte, não tinha sido tão atento. Até hoje não acreditava nos discursos proliferados em torno de si. Sabia apenas que não foram justos com ele, que trouxera tantas alegrias e serviços a todo seu povo, àquele país.

Essa revanche desconfiava das fronteiras nacionais. Adentrava os lares do mundo todo. E na mesa em que aqueles da mesma família estavam, era um show à parte, como se cada um deles estivesse também enluvado e pronto para os golpes.

Não que eles tivessem muito espaço para as conversas dos reencontros. O tilintar dos copos, o frêmito das torcidas, a insistência do telefone e suas @postas, compunha uma inusitada melodia, como se os socos fossem a batida de um baixo. Agrupados e equipados com seus aparelhos Wi-Fi, cada um em torno da mesa, estavam, bastando. Não conversaram sobre os signos, sobre os trabalhos, sobre os amores, não entre eles. Bebiam apenas e esperavam pela redenção, companheira das revanches.

Assim como o congo das lutas, o celular dele tocava insistentemente. Não sei se pra anunciar a derrota ou o início de outro round. Ele nem sabia se gostava ou não da insistência daqueles toques. Respondia apenas, o que é? Estou vendo a luta. Não, não tem mulher aqui. Deixe de ser louca. E desligava, sem nem ao menos explicar sobre quem ou o que era. Em outros toques, dizia, o mestre aposta 500 reais, rindo gostoso, como se pudesse prever o futuro. Ele não sabia, mas os que estavam ao seu lado, desconfiavam daquela loucura deixada de lado. Desconfiavam, sobretudo, que aquela era uma luta perdida. Perdida desde que havia se iniciado. As lutas desatinadas nunca são finalizadas, nem mesmo pelo maior de seu mestre. Não que isso fosse da competência de alguém, nem naquela hora nem em hora nenhuma.

A irmã, que também era a mãe, apenas queria se afogar na sofreguidão do burburinho e dos goles inconsequentes. Seus cabelos outrora lisos e longos tinham sido tratados no salão para parecer um baile de ondas, como se suas curvas pudessem por em xeque a retidão linear de sua vida. Passara a vida toda evitando as lutas. Nunca se sentira campeã, nem muito menos desejava o fervor das torcidas, nem o desafio dos conflitos, armados ou não. Passara a vida como a coadjuvante de uma história qualquer, sem atropelos, sem dramas, sem atos finais. Não gostava dos dias cinza ou ensolarados, nem das noites estreladas ou sombrias. Detestava, sobretudo, dormir, pois em seus sonhos de olhos fechados era atriz principal, quando tudo girava em torno dela. Também não era uma mulher de @postas. Não queria perder nem ganhar. Não sabia por que esperava por aquela luta, não sabia por que havia entrado naquele salão. E não gostava do dessaber. Amanhã pensaria sobre isso, @postou.

O mais novo deles não achava que aquela luta lhe pertencia. Estava ali como esteve no velório mais cedo, esperando passar, esperando passar a morte, a vitória, as @postas. Sabia que aquele não era o seu lugar, mas também não sabia onde seria, não tinha pressa, ainda que seu corpo parado parecesse a largada de um atleta. Tampouco esperava aguardar, pensava enfadado, enquanto vagueava por tudo que havia ouvido antes, misturado que estava ao som do seu aparelho de mp3. Soube das histórias de família, conheceu um tanto de desconhecidos que lhe abraçava chamando de primo, bebeu o café ralo e doce oferecido, deu os sorrisos certos, acenou para todos, meio de lado, em busca das calçadas e das sombras daquela cidade sem árvores, afinal, tinha que haver uma solução para seu corpo empachado desses passados que tampouco lhe pertenciam. Enquanto esperava a luta, entre um drink e outro, refastelou-se de carne, afinal estavam numa churrascaria. O que mais ele poderia pensar ou dizer? Ainda esperando passar, @postou com seu tio a conta da noite, sabendo que, independente do resultado, não pagaria nada.

O apresentador da cerimônia anunciou no ringue o início da maior luta de todos os tempos. O volume das tvs foi ao máximo. Os garçons pararam de servir, encostando-se à clientela. Só se ouvia os sons dos goles e se um gato ali estivesse, teria ouvido também toda aquela tensão, sem que ele achasse uma direção. Cada um ali parecia também em busca de sua própria redenção, de sentir o gosto da desforra, da vitória ainda desavisada, querendo que aquele que tentava recuperar seu cinturão recuperasse também todos, da mesma forma como foram encetadas todas as suas lutas, com seu passo rápido e dançante.

Recuperasse o casamento, já rompido de tantas traições, do casal ao lado. Que recuperasse o dinheiro de todas as aposentadorias daquele grupo de envelhecentes que, seduzidos pela possibilidade dos confortos, foram roubados. Que tornasse fértil o útero daquela outra moça. Que pagasse as contas de tantos aluguéis atrasados. Que sossegasse o coração inquieto de drogas do filho da proprietária do recinto. Que possibilitasse ao garçom terminar seu curso para que suas noites fossem suas novamente. Que arrumassem uma parceira para aquela que sempre fora tão sozinha. Para que o coração dos desolados fosse preenchido por um carinho, por uma fé ou por alguma vontade de vencer.

O campeão deles, poucos minutos depois de começada a luta, foi à lona. Mas ele não caiu de um jeito qualquer. Caiu quebrado, pele rompida, osso exposto, sem ser finalizado, nocauteado ou por contagem de pontos. Caiu como caem os casamentos que se rompem repentinamente, como o ressentimento daqueles que não sabem perdoar, como a força das mortes não esperadas, como as batalhas vencidas de guerras já caducas.

O mais novo tirou os fones de seu ouvido e sorriu. Já poderia seguir viagem, sem ter nenhuma conta a pagar. Ela pensou, aliviada, ainda bem que não era ela, sem ter descruzado os braços e sem abrir mão daquela certeza que sempre lhe dizia estar correta em seu desligamento. Ele, por outro lado, com força, disse ao garçom, manda outra, todo feliz. Ganhara todas as @postas, sem deixar de gracejar que toda revanche é foda e que ele era o mestre.

E assim, fechou-se o ano, com a ressaca de tantas @postas.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Entre elas


A coisa toda aconteceu num dia qualquer, daqueles imprevistos, quando puderam, finalmente, se encontrar. Eram amigas de infância, ainda que o encontro tivesse se dado em tempos enrugados. A história delas, sempre entre elas, indiciava o alhures, pois suas juras ainda eram cruzando os dedinhos, pinicados e trocados em sangue, antes dos tempos e amores sombrios. Não eram da mesma turma da escola, tampouco tinha biótipos parecidos, uma era esbelta como a palmeira mais alta, a outra, atlética, era sempre quem pedalava, levando no bagageiro a terceira delas, que parecia uma oliva, toda uniforme em pele, feita como bibelô, pela mão mais generosa de Deus.

Joana nunca soubera bem como tinha entrado naquela turma que era um par. Lembrava, vagamente, apenas, que nunca antes tivera com quem partilhar os mais sombrios e alegres de seus dias. Entrou em trio, como que desconfiada, emudecida, afinal suas palavras eram sempre dela mesma, ressoando ora na mente, ora nos rabiscos que cuidava em queimar sempre que eles se corporificavam em papel. Não tinha nada no bolso, a não ser aquele isqueiro roubado de um fumante qualquer.

Maria não, Maria reinava, ora no céu, ora na terra. Era a mais vivida de todas, dizia sempre talvez, mais ou menos, depende, é relativo, como se a mágica dessa música tornassem todas invencíveis. Era em torno dela que convergiam todas. Não que fossem muitas, lembre-se que eram apenas três, mas todas se sentiam uma manada, governadas que eram por Maria. Maria, tampouco, era uma déspota, pelo contrário, parecia a grande mãe, já tinha feito sexo, sabia dizer os detalhes todos, das horas escorregadias, molhadas, agoniadas, ofegantes. Nunca falava o nome do homem ou do rapazinho, agora nem interessava tanto, não quando se entra nos enta. Homem para elas era qualquer um que tivesse mais primaveras. Não muito mais, apenas mais.

Isabela costumava ser chamada de Ira, entre elas, mas não que fosse raivosa ou qualquer coisa que o valha. Era a mais lida e vez ou outra era pega com a Iracema de Alencar, como se fosse a mais garotinha de todas, romântica, olivada, com olhos amendoados e cabelos de graúna. O sorriso, todo contente, parecia nunca doer na vida, como se a vida fosse doce, doce igual ao brigadeiro que furtava da cozinha da mãe, dizendo: prove esse batom, partilhando dos lábios a doçura da vida.

Mas isso fora no outrora de tudo. Quando, entre elas, uma vinda do norte, outra do sul, e aquela sem nunca ter desalinhado a geografia de sua vida, feito anfitriã, tempos depois, viu numa rede social qualquer, a coincidência dos espaços, disse, vamos? Por que não?

Não acredito que tenha sido confortável para nenhuma delas. O convite mesmo, feito pela vontade de poder falar, daquela que nunca saiu de lá, ainda que na distância dos tempos, coincidiu com as tardes apaziguadas de quem volta à terra pisada e se entedia no próprio ritual da memória.

Elas nem se procuravam mais, raras eram as ligações e as cartas tão delongadas de antes. Mas estavam em falta com as promessas feitas. E, assim, receosas de quebrarem não as juras, mas o linear de suas existências, crentes que eram devedoras do passado, se marcaram naquele bar. Não saberia precisar a cronologia desse reencontro. Entre elas, tampouco.

Sei que uma delas ficou muito nervosa. Usou toda a sua maquilagem francesa, fez os contornos todos e postou na sua face um brilho todo especial, se sentindo novamente bela, como nunca mais o sentira. Saiu segura, não como uma trova simples, mas como se fosse outra, sofisticada, toda simulada no eau de parfum. Esquecera, inclusive dos dias de poucas falas, das tardes que se sentira querida se sentindo útil, enquanto pedalava horrores.

A outra, moderna, sexy, foi toda aberta, bacana como só ela se sentia, toda esperta, craque de si mesma. Levou até seu portfolio, para mostrar como ela se tornara uma mulher grande, como era outra.

A que convidara todas, dizia apenas, lembram-se daquela cachaça? Lembram-se dos dias cinza? E enquanto relembrava, tomava umas e outras.  Elas, entre elas, queriam lembrar o tempo dos dias comuns e velozmente entraram no ritmo daquela que nunca saíra de lá.

Foi um desmantelo só. A maquiagem borrara. O portfolio virou descanso de copo e se estabeleceu outra dinâmica. Eram, entre elas, três mulheres. E isso, você sabe, se torna um chama. Apareceram marinheiros, advogados e drogados, entre outros, querendo amar e desamar. Uma delas, num meneio, quase elegante, se não fosse embriagado, dispensava todos. Xô, cai fora, sai daqui.

E, entre elas, sem nem saberem onde estavam, disseram, umas as outras, dos amores e desamores, das mulheres que furtivamente beijaram, dos filhos tidos sem serem queridos, do conforto dos dias perdidos pelo pior dos parceiros, da vontade de serem outras, da tristeza das salas abertas, da vontade de darem sem se dar, do dia em que uma delas disse adeus a todos, dizendo vou ver minhas amigas, como se o retorno delas, fosse o de si mesmo, falando num ritmo tão rápido, para elas, entre elas, a tornar efêmero o mais longo dos tempos, quando, ao se despedir dos que deixara para trás, das amarras dos seus dias, dizendo adeus a tudo que era estéril, tivesse seviciado o destino.

E assim, entre elas, uma delas, entre um gole e outro, sumiu. Não se sabe onde ela está, até hoje, se viva ou morta, de morte morrida ou morte matada. As outras dela, diziam apenas, continuando, ela está bem, como se partilhassem os batons de outrora e o passado já não cheirasse a carne putrefata.

Eu apenas ouvia como boa escrivã que era e, se pudesse delegar, arquivava o caso, porque entendi que aquilo só poderia ser resolvido entre elas.



terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Zumbis na estrada


Já tinha algum tempo que estavam juntos, rodando as estradas. Não se sabe precisar ao certo que tempo era esse. Os relógios e os calendários já não domesticavam nada. Tudo que era doméstico havia se tornado carcomido, igual aos outros. Um dia para um, poderia ser vivido como uma década para o companheiro do lado ou de trás. Eles se encontraram na estrada. Revezavam até a combinatória dos assentos, na tentativa de tornar o hoje diferente do ontem.

Quando os outros chegaram iguais a mais inaudita das hordas, explodiu o todo do tempo e do espaço com uma força cataclísmica, jamais vista. A fome dos outros era tanta e de tamanha voracidade que famílias, grupos, associações se canibalizaram e o amanhã parecia a promessa distante dos mais crentes, imersos que estavam na distopia do vivido, do vindouro.

Seguiam em comboio, carros em filas indianas, muitos de origem francesa, japonesa, italiana, brasileira, juntos em qualquer automóvel que rodasse pelas estradas. Não importavam as nacionalidades. Não existiam mais nações. Eram eles e os outros. E eles eram tão diferentes entre si mesmos, que a vivência da outridade virou experiência cotidiana, na vontade de driblar a solidão e de reafirmar os laços humanos de solidariedade em meio à praga. Os carros que iam falhando pela defasagem de suas peças mecânicas, foram sendo empurrados para o acostamento. Era importante não obstruir as estradas. Era importante não deixar ninguém para trás. E, assim, eles iam se arrochando, se redistribuindo, até o encontro com mais carros e desgarrados  pela estrada, que também eram convidados a se juntarem ao grupo.

         Alguns permaneceram no comboio, mas desistiram da logística ritualisticamente vivida no correr do cotidiano e no interior desse convívio e assim pegaram as transversais das estradas, em busca de novos territórios, se foi por amor ou desamor ou por motivos de força maior, não se sabe. 

       O gerenciamento das lideranças, numa tentativa de salvaguardar antigos hábitos, era cíclico, e encaminhado por meio de consenso, quase como uma assembleia de professores, votada em meio ao mato, que era adentrado por eles em busca de segurança, ainda que parcamente iluminado. Avistavam-se, em meio à tanta escuridão, apenas pela luz das estrelas e da lua. Não era do desejo deles alertar os outros ou grupos (d)eles que seguiam saqueando e destruindo os viventes no desejo, também capitalístico e-ou canibalístico, de sobrevivência.

Quando os outros chegaram, eles perderam quase tudo. Perderam suas famílias, casamentos foram deglutidos, filhos pereceram alquebrando os laços mais sacros, casas foram abandonadas... Novos arranjos em meio ao caos foram construídos, afinal era preciso sobreviver e essa (sobre)vivência não era mais as das contas esquecidas e mal pagas, o inacabado dos trabalhos cotidianos que afogavam e adoeciam a todos, essas pequenezas foram esquecidas, em meio a urgência urgentíssima dessa nova pandemia.

Nesse comboio o ritmo das falas era bem plural, não só pela cadência dos sotaques, pois muitos vieram de terras alheias àquelas estradas, saídos de seus territórios familiares e, num golpe de sorte, quiçá pela presença do divino tão diluído nesses tempos apocalípticos, se encontraram e o desconhecimento de uns foram sendo refeitos na troca dos pneus, na partilha dos víveres, na comunhão do desastre, mas também nos novos afetos, compartilhados no limítrofe dessas existências.

Seria até uma boa história, se o enredo não fosse tão trágico. Os outros eram presenças constantes e também ocupavam as estradas. Estavam, pois, sempre em estado de alerta e de luta, era preciso viver, e viver o si entre eles, corpo coletivo diluído na vontade de que todos eles saíssem ilesos e fortalecidos. Nunca foi preciso fazer tanta força como a necessária para permanecer na estrada e o lema era: ninguém é deixado para trás, ainda que seguissem em velocidades diferentes. No meio do caminho, perderam alguns companheiros de estrada, foram aposentados da vida. Essas perdas eram sentidas, com saudades e com dor, mas também com a esperança de que eles, apesar dos enterrados para trás, estavam vivos e juntos.

O natal se aproximava, diziam alguns que ainda estavam presos a memória do outrora. O natal, nascimento de Jesus, poderia ser a promessa de redenção da humanidade, do fim dos outros, dos carcomidos de morte. O espírito deles, renovado como àquele que morto de sede, mergulha num açude de águas doces,  pintavam com velhos batons, canetas de experiências idas, as latarias daquele comboio. Eram as cores do natal, ainda que sem o piscar das luzes, pois não havia mais energia elétrica, assim como outras realidades passadas.

Um dia, um deles, não se sabe exatamente a origem da ideia tida, falou: vamos ocupar a universidade daquela cidade, pois ele lembrava que quando veio o apocalipse era um feriado qualquer e os portões estavam sempre fechados. S., também achou uma boa ideia, porque seu corpo se ressentia dos dias encolhida nos carros e das noites dormidas ao relento. Precisava de um lugar onde, estrela que era, se sentisse constelada. Aqueles que conheciam o espaço acataram a decisão, discutidas em noites e mais noites no desespero de criarem uma saída.

Não foi uma decisão muito unanime, mas foi voto vencido. Era a ilusão da democracia e do bom senso. Era o desejo voraz de estabelecerem novos territórios que não fossem os das rodagens na estrada.

Um deles, CA., prático no uso das armas, alguns até cochichavam, ele vai à frente, já foi campeão de tiro. A chefa daquele comboio, A., disse de forma enérgica, precisamos nos organizar e, assim, todos, ao redor de mais uma fogueira, redistribuíram tarefas, era preciso viabilizar a esperança, porque a ouvindo, com tanta delicadeza, se sentiram também preenchidos da força advinda da gentileza. M. muito habilidosa na sua arte de gerenciar, em cálculos, os víveres e os kits de sobrevivência, prontamente elaborou um plano de contenção e distribuição igualitária do pouco que eles ainda tinham, sem nunca deixar de lado sua generosidade

E., que já tivera formação clínica, ajudava os mais combalidos, nunca dizendo a real situação dos corpos feridos em meio a tantas rodagens, aliviava as dores do corpo e também da alma. T. não cansava de dizer, vai dar certo, nós vamos conseguir. T. tinha vindo de longe, não fazia parte do comboio principal, mas trouxera suas bochechas rosadas e sua vontade de luta pela sobrevivência e pela força em acreditar num lugar melhor.

N. dizia, tenham calma, como a fazer uma economia da esperança. Era uma mulher prática e sua analítica do caos, já havia salvo o comboio de alguns desastres. G. ainda tinha seu toca fitas, que sempre conseguia reabastecer nas pilhagens pelos postos da estrada, cantando em alto som, sobre as estradas de Santos e os amores que teve, fazendo sorrir aqueles que sabiam da sua fervorosa e também contagiante admiração pelo Rei Roberto, ainda que esses fossem tempos sem rei, sem lei, sem Estado.

W., pródigo como só ele, sempre antes de dormir, desejava paz e saúde para todos. E todos se sentiam apaziguados e mais seguros no advento das noites sombrias. J. era quem guiava pelas estradas, seu carro ia na frente de todos, mostrando os melhores caminhos. Diziam que ela era um ás da velocidade, que quase ninguém conseguia acompanhar seu velocímetro, mas isso foi no passado, ela aprendeu a maneirar o ritmo do seu acelerador, e sempre cuidava para que ninguém ficasse para trás.

M.N., jamais perdia a pose, parecia uma lady, toda bonita, com um humor todo dela, lembrando a todos dos cuidados necessários e dos percalços vindouros. Era uma grande cuidadora e, por isso, indispensável.

L. tinha um riso fácil e um coração generoso, preparava e distribuía a comida, como quem estivesse na sua casa, recebendo os amigos com os amendoins que ela mesma torrava. M.T, já era o mais agitado de todos, tinha pressa, era daqueles que na sua insônia, velava, à noite, pelos companheiros.

E.M. sabia que em outro grupo não sobreviveria, mas também não desejava esse lugar do sossego, visualizado por eles. Sentia-se segura, em paz, no seu próprio movimento, e sabia que um dia deixaria aquele comboio, era mais forte que ela, porque a paz só era possível no nomadismo das estradas. Queria ir com eles, encontrar um lugar de conforto. Contudo, sabia bem no seu íntimo, que seria passageiro, porque sempre fora uma passageira de si mesma, assim como sabia também que sentiria saudades e que seu coração iria partido, mas era preciso seguir a rodagem.

Juntos eles chegaram a tal universidade abandonada. Abriram os portões e precisaram fazer uma limpeza dos outros, que, como demônios, sentiam o cheiro de carne, endoidecidos para deglutir a vida. Não sem muita luta, ocuparam o espaço, acomodaram todos e festejaram no dia de natal, com um Single Barrel e algumas cervejas quentes que tinham guardado para dias mais felizes, a comunhão deles e a promessa de dias melhores, deitados nos bancos, mirando o céu, como a esperar a vinda do salvador. Seus corações, redimidos, em sintonia, cantaram uma bela melodia: estamos vivos, ainda que não totalmente seguros, pois um ano novo já se anunciava e havia muito a ser feito... 


Ps. Feliz natal aos meus amigos, companheiros das estradas e da vida.


domingo, 24 de novembro de 2013

MAIS MÉDICOS!!!!



Costumava dizer, quando pequena, que ela era minha mãe de chocolate, enquanto ela me dizia - Deus me deu uma filha de leite, enviada como um presente todo especial por Nossa Senhora. Não tinha o hábito de chamá-la de senhora, tampouco ela gostava, ainda se sentia leve apesar do peso dos anos. Morávamos numa cidade pequena, cujos gracejos, pela inclemência da quentura, era chamada de Morada do Sol. Nas lides da vida, o leite da minha pele, virou pingado e, assim, me avizinhava mais com aquela que me ensinou a nadar nos açudes aos pés dos lajeiros.
Não erámos apenas nós duas, os agregados, os filhotes e os vizinhos sempre estavam a habitar a sombra que nosso teto ofertava, quente e cheiroso de café. Um dia caiu de virmos para cidade grande, já não era nos açudes que brincávamos na liquidez de tanta água. E o sol, esse ainda companhia das nossas peles, parecia melhor parceiro, diante dessa água sem horizonte. Apegada que era aos meus caminhos já sem vistas, sentia vontades de retorno. Ela não, ela, toda aventureira, pegava as ondas como se fossem as pérolas de uma vida inteira e dizia: um dia, ainda em dezembro, desse mar, chego ao Rio.
Mas foi em Janeiro que ela se apoiou em meus braços quando a levei, caída, ao hospital. De hospital em hospital, íamos sendo transferidas, como uma carga qualquer, sem plástico-bolha, sem o carimbo das entregas preciosas, a ocupar corredores, ouvindo o refrão de uma música maldita, não temos leito, não temos pino, não temos médicos.
Enquanto ela nos meus braços se apoiava, a abraçava como se nosso corpo junto fizesse a mais gostosa das combinações. Meu corpo leite, pingado de café, ela toda chocolate, nos marinando juntas. A multidão, que também estava à deriva, naquela maquinaria tão gélida, sentiu o sol na nossa pele e se aproximava para, talvez, se banhar. Indagaram-me muito, vendo a mistura das cores, quem é ela? Ela, eu dizia, foi um presente divino, enviado para adocicar a vida, minha mãe, e esse foi o último de seus sorrisos que tive o prazer de guardar em mim.  Alguns poucos dos muitos sem jaleco, ocupando a esterilidade daquele corredor, perguntavam se estávamos precisando de algo, quando, na urgência daquele tsunami, respondi, numa voz surda, que num coro interno, reverberou em uníssono na multidão, por favor, (mais) médicos.

Ps. Janeiro se aproxima e um dia irei ao Rio, levá-la comigo, porque ela ainda habita minha pele. Sem mais.


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Quando ela...


Quando ela ligou... Anunciou de pronto, sem muita medida, que seu corpo estava ressequido, vazio de paixão, vencida de acontecimentos. Que havia experimentado a morte. Que já não pensava mais em nós duas, juntas. Que lamentava ter que se despedir. Que não dava conta da intensidade. Que precisava correr mundo. Que precisava desligar. E que aquilo era um adeus. Não me coube interjeições, pega que fui pelo assombro de sua fala corrida. Tentei retornar a ligação, nada, estava totalmente desligada. O tempo parecia sorrir para mim, como a anunciar que ele era o senhor do absoluto, que o que ele dá, ele toma, todo cruzeta, ao acenar a duplicidade daquela ligação, ela toda veloz em desaguar tudo, eu congelada num instante qualquer, suspendida. Não sei o contar das horas, não sei como falar do primeiro de tudo, não soube, nem ao menos, mensurar os dias passados a duas. Pensei em lhe falar do tempo vivido, dos meses, dias e anos dos aconchegos de edredom, mas me sumiu a contagem dos dias alegres. Fugiu ligeiro como foge aquilo que não é de todo nosso.

Quando ela apareceu... Veio recomendada por amigos em comum, não era o meu tipo, não gostava das gatas, daquelas descoladas, de frases insinuadas. E assim, me colocava à distância, desconfiada da gula que ela anunciava possuir.  E foi por fome que acabamos ficando juntas. Ela sempre vinha, toda embriagada de vinhos, farta da rua, comer na minha cozinha. E eu a recebia, polindo e roçando o seu nariz com os cheiros que preparava especialmente para ela, apenas para ela. Assim, toda alta noite, temperada, ela me dizia tua, sou toda tua. E tua era o nome que ela ronronava ao meu ouvido, enquanto acomodava as mãos em mim. Sabia que a sua razão não era o tom sobre o tom da minha. Tampouco eram opostas. Às vezes, aquele que sorriu para mim, tão desdenhoso, tão senhorinho, ocupado nos seus salmos, amarrava sua mão do amor, toda dele, e longe do todo, à deriva, permitia os pequenos furtos de nós duas. Não precisava mais nada, pensava até, Deus, tá tudo certo. Leve o resto, isso é tudo, tudo tão certo, não sem que a culpa me habitasse.

Quando ela se foi... Lamentei não ter dado o último beijo, não tê-la afagado mais um tanto, não ter dito fique, por favor, fique mais um pouco, fique mais um instante, fique um bocado, fique um tanto, fique sempre... Lamentei não poder ser ouvida, não poder retornar a ligação, não me fazer compreendida, não ter feito o último jantar. Lamentei até o sono interrompido, quando ela...  Recobrada da comilança, ia para o mundo, devorar outras histórias, toda fome de viver.


sábado, 17 de agosto de 2013

Eu sou queer! E muito gata!

Batizaram-me como a Rainha dos Dragões, uma  tal de Daenerys, nome de batismo, nem homem, nem mulher, quaque(er) cousa. Não quis fazer feio, vim de longe, pega no bueiro de uma rua, dessas que todo mundo passa ao longe, como a torcer o nariz,  sou gata, sou bueira, sou do lixo., sou descentrada. Mas tinha o rabo farto. Foi meu rabo que me salvou. Ele era peludo. Diziam até, - ei, você se passa, se passa igual a uma persa.
Eu nem sabia o que(er) era isso. Mas meu rabo me salvou. A mãe da minha mãe que já era minha avó me chamava de Rabuda por mais protestos que eu ouvia por aí. Não sei como lidar com meu rabo. Sei que ele é emaranhado, desses que tem fios em nós. Farto, totalmente farto. Mas nem gosto que me apalpem. Fico irritada, o rabo é meu.
Não sou Aristogata, mas não como ração qualquer. Gosto de me saciar com aquela que diz que é gold, alimento de alta qualidade, como a desafiar o destino que meu Deus me deu.  E eu posso, porque tenho o rabo e os olhos de gata, desses amarelos, como quem já nasceu com a maquiagem perfeita. Soul gata.
Um dia, no boteco, cismando com aquela baratinha que passou, meio de lado, já rebolando, a vi, aquela Preá, gostosa que só ela, feito rata, mascarada, tão carne. E eu salivei como salivava aquele povo, esquálido de poesia, afastado de batata (toda fritada do Mac), pensando: vou comer porque tenho a fúria do fogo, tenho rabo e meu corpo, em movimento, pode ser poesia.
Era o dia das mães e eu programei bem direitinho. Desovei o corpo dela, engoli quase tudo, deixei a moela e um pouco de sangue, esquecendo só o celofane.
Minha mãe chegou, não ficou feliz, não me fez gracejos,  nem me disse nada.
No silêncio dela, pensei, como é difícil ser gata, bem que eu podia ser uma cachorra!!!


Ps. A – S – P- R – E – P- A- R- A- D- A-S- !   S – Ó – A - S - C-A – C – H – O – R-R –A – R –A – A –S