quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eu sou...


Meu nome é Manuel e eu sou alcoólatra. Hoje são seis anos sem tomar uma gota de qualquer bebida barata ou não. Mas minha dor contabiliza 10 anos. São dez anos que não escuto a barulheira de Ellen ou de João, quando ao chegarem da escola, perguntavam a sua mãe Carmen, minha esposa, papai chegou? Ela, que também já não está no meu cotidiano, dizia sempre aos nossos filhos, ele está quase chegando.  Não por acaso sou contador da firma que fora do meu tio. E por isso não esqueço a contagem de cada dia passado do que aconteceu há dez anos atrás, quando cheguei tarde para o encontro com as crianças, causando espirros na mais alérgica delas, quando disse, desculpem papai, hoje o dia foi longo, foram muitas contas a prestar, que tal irmos todos comermos uma pizza. A criançada adora uma pizza. Carmen não, seu pesar de mais uma noite a dormir com o ronco da minha bebedeira, lhe fazia pensar na farofa de cuscuz e na galinha que passara a tarde toda a temperar. Estava cansada, eu sabia, como sabia também que não adiantava justificar o dia todo, pressionado que estava para pôr ordem nas contas da empresa. Ela não entendia que o fato de ser sobrinho do chefe de tudo, me tributava uma carga maior. E que eu precisava da saída, depois do trabalho, para encontrar com os amigos e sentir que meu corpo era como aquela cerveja aberta, despressurizando o dia. Carmen, conformada com a alegria das crianças, enquanto guardava nas suas gavetas seu próprio desgosto, sorriu e disse naquela voz de mãe, a Ellen e a João, não esqueçam seus casacos, a noite promete chuva. Tentou pegar a chave da perua, que costumava rodar pela cidade, preenchendo de víveres para o consumo da semana, para os tantos jantares não comidos por mim, sem falar nas tantas tralhas das crianças, quando eu disse, não, vamos no meu carro, já está lá fora. Seguimos os quatros e para quem nos viu chegar na pizzaria de Francesca, parecia acompanhar os sorrisos dos meus filhos, como a acrescentar, que bela é essa família. Enquanto o pedido era feito, com as arengas sobre os sabores, pedi um balde de long neck, sob o olhar cansado da minha mulher e me servi antes de todos. A pizzaria de Francesca era o nosso cantinho, sempre íamos, tinha balanço, quadros de pintar e tantas outras distrações para os casais com filhos, enquanto esperavam pelo sabor quentinho vindo do forno de lenha. Enquanto a pizza não estava pronta, ligeiramente consumi meu balde, enquanto Carmen se serviu de suco de abacaxi com hortelã. Ela estava em outra das suas loucas dietas, emagrecendo a olhos vistos, tão esbelta quanto no dia em que me lembro de ter me apaixonado por ela. Durante o tempo do retorno do garçom, não falamos muito, parecia que nem era necessário, quando muito as perguntas de sempre, o que faremos no final de semana, você viu o carro novo do José, estou pensando em fazer yoga, me matriculei num curso de arte daquele Instituto Multicultural da Rua Cinco. Para tudo que escutava, sem ouvir, eu balançava a cabeça e dava a maior força, até que o silêncio tomava conta de mim e eu apenas colhia as palavras de Carmen para poder separá-las em letras de quatro em quatro. Parecia que os números não ficavam no escritório, mas estavam enterrados na minha consciência. A pizza chegou, pedi mais um baldinho, que veio suado, quase como se me prometesse um refrescamento íntimo. Juntos, depois deles se alimentarem, nos reunimos para irmos para casa, acenamos para outros casais conhecidos, e pegamos a estrada. Na altura da Rua São Jorge, já garoando, virei para a direita sem ligar a seta. O caminho era conhecido e meu desejo era deitar meu corpo, pois na horizontal os números não me incomodavam. Não lembro de mais nada depois daquela curva. Acordei no hospital, cheio de curativos leves, cabeça ainda meio zonza, que pareceu entrar em curto-circuito, quando o médico, apressado em atender os outros feridos, me deu alta, não sem antes dizer, sinto muito. Só o senhor sobreviveu ao acidente. Do meu lado, ouvi gemidos. Pareciam também terem sobrevividos ao crash, apesar de suas ataduras terem o alcance de uma múmia. A enfermeira, enquanto eu catava os rebotalhos da roupa do escritório, chegou, com passo macio, perguntando se poderia ligar para alguém da família para que me acompanhassem em casa. Eu só pensei que minha família éramos nós quatro. Agradeci. E sai. No primeiro dos bares, logo na rua ao lado direito do hospital, parei e bebi meus mortos. Os bebi por quatro anos seguidos. E na conta dos quatro anos, quando lembrei que a-n-o-s significa a conta perfeita na minha mente, parei de beber. Hoje fez seis anos. S-e-i-s-a-n-o-s. E me sinto completo na incompletude. É isso.

Os aplausos foram fortes. E ele me pareceu precisar de muita matemática das palavras perfeitas, porque enquanto ouvia o cumprimento dos outros, seu rosto pedia desesperadamente um trago, para afoga-lo num copo qualquer.

A história que veio depois da dele parecia repetir um refrão que cheirava a cravos e defuntos. Assim como as próximas narrativas. Todos diziam o próprio nome, seguido do Eu sou alcoólatra.

E eu pensava no Eu sou como a primeira das coisas a serem ditas naquele círculo de cadeiras. Todos sabiam que as histórias narradas ali, embaixo daquelas telhas vermelhas, seriam ecoadas apenas nos ladrilhos desbotados, riscados pelo arrastar de tantas sessões e pelo passo pesado de todos, como se o ritornelo circular daquela disposição de corpos, criasse uma sinergia em que simultaneamente as leituras sobre o passado fizesse uma combinatória singular sobre a posteridade das experiências.

O instrutor, que ouvia atentamente a todos, ele também um ex, olhou para mim, que ali estava pela primeira vez e perguntou se eu queria partilhar.

Cruzei minhas pernas, passei, nervosamente, os dedos por entre os cabelos e falei bem baixo meu nome. Quando articulei o Eu sou... entendi que aquele grupo não me pertencia. Que eu, ainda, não poderia me nomear. E na ausência de mim, juntei minha bolsa e o guarda-chuva que havia deixado no chão, ao lado da minha cadeira, saindo apressada, sem nem ao menos me desculpar ou dizer até logo.

Demorei para achar as chaves do carro na urgência toda que me habitava. Ao dar partida no motor, soou o rádio, na voz de Gal, “um dia eu volto, talvez eu volte, um dia eu volto, quem sabe...”

Procurei o boteco perto do hospital que Manuel falou e dessa vez, como há muito não fazia, pedi duas doses duplas com gelo e limão. D-u-a-s-d-o-s-e-s-d-u-p-l-a-s-c-o-m-g-e-l-o-e-l-i-m-ã-o. 4 de 6. Os anos que eram dele, contados na dor de seu relato, me pareceu a soma perfeita, o alinhamento de t-u-d-o.

            Ou quem sabe, nada. N-a-d-a.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O quinto



Ela era a senhora do mundo. Semeava a terra, o vento, o ar e o fogo, não necessariamente nessa ordem. Apesar do saber só ser da Senhora, ela era magnânima. Instituiu como A primeira reforma, a cartilha a ser doada para todos. E nela, doou, como quem multiplica a vida, a consciência para todos. Disse que os tempos de outrora era tempos de desordem, tempos de amores vis, de quiproquós insignificantes, de colonização da legião, das paradas de multidões sem cerne, só carne sem o dom da vida, de corpos sem espíritos.

Era preciso, aprendi pequenina, não pelos números de anos, mas pela ausência de memória, que a vida de outrora, do Antes de tudo, as pessoas tinham a barriga cheia, mas eram vazias do Espírito. Não se conectavam com a terra, com as flores, com as árvores, que deviam crescer, lado a lado, para que a colheita, de cada uma das culturas, não se misturasse com as outras. Os campos, de terra e de água, fecundadas, era verdadeiras miragens, coisas para um homem só.

Eu cresci colhendo soja. Minha mãe colheu soja também. Soube que minha avó idem.

Das antigas escrituras, que achei guardada enterrada ao lado do túmulo da minha bisavó, cuja letra até hoje sinto dificuldades em decifrar, tinha mais páginas do que cinzas.

Não que eu tivesse desejado profanar o corpo de quem um dia fora o depósito de algo maior. Não fui eu que perscrutei a superfície das lápides remotas. Era mais uma das reformas da Senhora. Aqueles cujo batismo não foi no Templo Divino, que eram os chamados seguidores da legião, que pariram sem fé, que deram sem autorização, que não procriaram na Lei, que não racharam os seios aos filhos, que afrontaram o locatário do divino... Desculpe, pela falta de todos os registros, eu ainda sou da quarta série. Não lembro de todos os Mandamentos. Eu apenas passava por lá, quando as máquinas começaram a revolver a terra, desocupando o solo profano, quando vi, que ao lado da terra revolvida, brotava como que fosse o pecado das profundezas todas, centenas de livros e todas eram assinaladas pelo nome da minha bisavó.

Sai ligeira de lá, com o catecismo embaixo do braço, já sentindo o corpo em brasa, como se fosse padecer pela ausência da Senhora. Juro, Senhora, juro aqui, nesse depoimento, que foi assim. E, por essa falta, me martirizo.

Acho que quando voltei ao desterrado, voltei porque estava em febre. Não tive intenção de ir contra as reformas. Sei que o espirito fica abaixo do meu peito. Sei que preciso ouvi-lo, mas do que a minha cabeça, que insiste em incendiar minhas noites. Sei também que minha mente deve saber de onde o Espírito me chega. Eu sei de tudo isso, minha Senhora. Nem fui a primeira da classe. Demorei um pouco para entoar os cânticos. Sei que errei em algumas falas. Mas eu sempre semeie aquilo que me foi ensinado.

Primeiro a Senhora. Segundo Ele. Terceiro a Família.

Mas ela era minha bisavó. Era família. E não sabia do seu passado pregresso. O importante não era o presente, Senhora? Pensei que indo lá, sabedora da devoção das minhas origens familiares inteiras, estava preservando o primeiro dos mandamentos.


Sei qual o meu lugar, sei do que ouvi da minha mãe, e do pouco que pude escutar da minha avó. Já estou perto de fazer filho, queria poder dizer a ele ou a ela, da origem de quem plantou num campo inteiro e comeu da sua mão. Queria dizer ao meu filho, cujo pai seria da sua escolha, que a terra plantada e a colheita levada, era o inteiro da vida da nossa família.

Mas eu não pude deixar de ler. Mas eu não pude deixar de ler. Li tudo. Li sobre um tal de Pessoa. Saramago. Manoel de Barros. Orwell. Marx. Rowling. Huxley. Palahniuk. Collins. Foucault. Dick. Loureiro. Assaré. Dickens. Sade... li todos no máximo de dois dias, como se tivesse furtado algo que meu espírito devolveria depois de um fim de semana.

Durante esse tempo, não comi o fruto da terra, não bebi água. Me ausentei do grupo das queimadas e tampouco consegui respirar como antes. Sei que meu tempo se foi. Já gastei o quinto da hora me dada, mas agora estou pronta para ir. Liguem as máquinas. Que o filho que hoje será preservado da minha morte, tenha todos os elementos. Os que a Senhora professa e os que acredito serem minha herança.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ressuscita-me

Sozinha, ao seu lado, enquanto toma a sua cerveja, pedindo, mulher, seja boa, traga outra, fico imaginando, por quantos acertos tão mais, terei que responder. Você me olha de lado, dizendo que meu penteado tá chique, mas era o mesmo de onze meses atrás e agora sim. Espere mais um pouco. Disse tudo isso, sem nem ao menos olhar, enquanto trocava os canais.

Eu sabia, quase sem saber, que o tempo passado, oito vezes oito, seria a nossa conta do infinito, mas não estava pronta ainda por me dar por vencida. Nem sei que guerra era essa que travei por tanto tempo. Nosso melhor de nós já era falecido. Ele e sua guitarra azul. Morreu de over, me disseram, naquela que era a melhor das estações. E eu sem saber querendo ver aquela berrante tatuagem de coração vermelho coroado de espinhos, apenas desejando, bata novamente por mim, por favor. Ele viajou cedo e deixou suas mochilas todas, no mesmo quarto que hoje é usado para as costuras que faço, tentando aqui e ali, o trocado para o pior dos meus vícios.

No íntimo, daquela intimidade que nem se confessa em pesadelos, pedi a Deus, me leve antes, não me deixe sem o dia em que a falta supurasse todos os meus quereres, como se ao pedir tanto, fizesse do outro, lugar de silêncio, de todo silêncio que aprendi a conviver com ele, que me pede outra cerveja. Sabia que a fala terminaria logo, no refrigerador, tinha apenas um par delas.

Mas ele nunca foi de muitas palavras. Quando muito dizia, Deus proverá. E assim foi me fiando e eu, toda fiada, como quem fizesse do dia a dia a coleção dos melhores retalhos, me ocupasse apenas a coser.  E olha, que a colcha daria para cobrir a cama de muitos de mim, apenas de mim, como se a colcha e a prateleira fossem a soma da minha vida toda.

Como no dia em que ele, em meio a festa do milho, na fazenda antiga, quando todos celebravam a chuva, olhou para mim e disse, quero fazer uma fazenda com você, daquelas enfeitadas de mil tricôs, bordados e ardores. Logo eu, que só gostava de pinturas, sonhava em ser artista, queria que meu rosto fosse a tela em branco, cujo desenho, pudesse ser rabisco, pudesse ser estilo, pudesse ser o milagre que me foi negado no dia em que nasci. Da fazenda dele, sonhei com milhões de paisagens. Me senti terra fecundada. E me despedi dos mil artistas que me viriam.

Já levo, digo da cozinha, enquanto destampava a saideira. Tinha, antes de pensar em somar, apenas um par. Ao entregar, em mãos, boa mulher que sou, pensando na fazenda que deixamos para trás, eu e ele, sem o som da guitarra que alegrou e preocupou nossos dias, apenas eu e ele, despido de filho, sem os netos a acenar com a posteridade, sem as fogueiras, o milho e o céu, solucei, como se tivesse, entre uma ida e outra, entre a cozinha e a sala, emborcado o múltiplo do bebido da vida dele inteira.

Fiquei embriagada, tropecei sobre ele e o cortei na mão em que ele esperava ser servido. Ele, arquejando, disse, mulher, você me cortou, e eu apenas disse, me dê um gole, pintando, finalmente, meus lábios de rubro.

E foi assim, não como era uma vez, sem contos nenhum, que teci mais uma peça, depois de décadas, para a colcha que desconfiava dos acasos, como se a pintura, enfim, tivesse a mão do sentido ou apenas mais uma peça cerzida...


Ps. eu teria que terminar, mais tenho problemas. Mas pela primeira vez, a última das cervejas abri para mim, apesar de bebermos os dois. E nunca me senti tão maquiada.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Não sei


Bote isso não amor. Ele não disse que recebia, todo mês, salário sim, salário não, por mais desinteressante que isso seja. Agora não, cheguei querendo funkear, ela disse, rebolando ele todo.
Mulher, veja melhor, você todo dia rebola. Eu nem rebolar gosto. Vc chega em casa, joga a camisa na minha cara, vai fazer o cuscuz, ignora nosso gato, sem ver direto, com óculos juntado de durex, reclama da minha cachaça, fala que tudo tem que mudar. Fala que eu sou excessivo na minha cerveja, escute essa porra dessa música. Que nunca danço e quando vc dança, desmunheca. Não faça assim, faça, e me asse.
Vc me beija, boca grande, como se eu desperdiçasse a melhor das chupadas. Como se sua boca, no meu pau, fosse a melhor coisa do mundo. E quando vejo suas fotos, invejo quem possa vir a lhe ver. Sabem de nada, inocentes, não sabem que quando vc se deita, toda vergada, mil piruetas, com as cores todas no seu rosto, no sonho bom, sem pensar no outro, vc já dormindo, diz, não adianta nem tentar me esquecer.
Lembro, no dia que ele me deixou, pequeno ainda, naquela cidade, que muitos cabeludos andavam juntos, de calças desbotadas, dizendo já é da minha cabeça, eu sei que consigo ser melhor, um dia, um dia...
E assim ele foi embora. Nunca mais ouvi falar em seu nome. Até o dia que ele se candidatou. E, hoje, minha mulher, disse, ele me lembra vc.  Enquanto me pedia que trepasse para ter outro filho.  
E ela estava com a lingerie. Ela tinha as curvas todas. A mais saborosa das bucetas. Se eu gostasse disso, lambia ela inteira. Passava folha por folha, como quem lê como um livro precioso, daqueles raros... cujas folhas, há muito não tocadas, dissesse ao primeiro dos pesquisadores, bem assim, estou a sua disposição.
Nem gosto de ler. Muito mal assisto filmes. Sou ocupado com a pior das anedotas. Venho, certeiro, dia sim, dia sim, toda hora, aquela mesma do cartão batido. Venho e vou e ela ainda quer ser comida, quer fazer mais, quer filhos, filhos como eu.




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Ele bebe demais. Trabalha demais, tempo, por que vc não entra num acordo comigo?
Limpo o dia todo, limpo assoalho, limpo borralho de nariz, limpo o que não pode ser limpo.
Tomo banho, como quem lava um assoalho, peça por peça, folha por folha, afinal, nunca gostei do meu cheiro, nunca gostei daquilo que, em mim, me chamava tanto.
E assim eram os dias, seja lá que dias foram aqueles, anos, talvez meses. A irmã dele, um dia, me deu, numa brincadeira de quem vai se amarrar, um fio dental, de renda amarela, e todas riram juntas, hoje vc vai dar... é só tomar um vinho, desce que é uma beleza.

  ....


Ela trouxe vinhos, cerejas e camisinhas. Eu sou homem. Eu sou homemmmmmmmmmmmmmmmmmm...... Ela escolheu a música escolheu quem gozou, o tom, o toque. E, durante, pequenos bocados, bocadilhos, quando pensei nele, enquanto ela em mim, me sugava, pensei em quanto me faço homem...









quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Geni


Me disseram um dia que existia uma dicção feminina. Não sou mulher, sou gata. Dessas de rua, que num muro grita um miau qualquer. Como se tivesse um guizo, e dele pudesse voltar. Mas sou gata. E quero a rua.

A rua me vem como uma avenida. Dessas de postes robustos. Dizendo a ele, toda gata, a rua não é difícil, siga a linha dos postes em arvores. Sem acento ou acentuadas, apenas siga as linhas.

Mas sou gata, gosto das costas azunhadas. Gosto das linhas ditas, mas gata como sou, digo a ele, que me disse em segredo, como numa mensagem qualquer, bela como tu és, assim, nesse retrato, te comeria inteira.

Ele, gato, negro, daqueles de telhado de zinco, nem sabia, que ela, toda noite, antes da pele macia, quando passava pelo em dia, a noite, toda macia, era nele, que ela adentrava em dia.

Nem era dica, nem música, apenas uma rebordosa tardia, daquelas de unhas em gato, como se o corpo dele, fosse um teclado que temia.

Talvez isso fosse uma poesia, se lido como a gata escrevia. Mas a gata apenas atrevia, quem sabe um dia seria.

E assim foi dito, como os poetas de outrora, a festejar um dia, tardio como o mais maldito das rimas, eu, que soberba me fazia, narrador do outro, apenas dizia^^

Numa noite qualquer eu te pego em pelo, sem fala, sem desassossego. Não quero saber quem mãe te pariu, nem muito menos com quem dormiu, pego você na cama, você que sempre sorriu, com quem noites pariu, pego você como quem fica na cama, de quatro bandas em chamas, te dizendo, venha, vá, como fala um estrangeiro dos outros lados do mar.

E eu sei que dessa rima, do lado de cá, gata que eu sou, ocupada que estou, eu sou apenas, de todas elas de lá, a ... quem sabe, deixar o Whisky de lado, e beber leite gelado. Gata que sou...

Ps. E assim, vou saber se você ouve a canção que um dia pensei em dizer ....


quinta-feira, 31 de julho de 2014

Teresinha


Teresinha phoda, para os íntimos, bem íntimos. Fazia tempo que não sentia a chamada. Não que o relógio tivesse parado, apenas ela não via mais o tique-taque das passagens, ocupada que estava arrumando a casa, o tio, a conta, o carro, o trabalho... Ninguém diria que Teresinha não phodia mais, parecia a única das mulheres que poderia rir da demanda medonha dos dias ordinários, dando conta de tudo e de todos. Eram muitos os seus agregados. Ora corria para acudir um, ora para socorrer outro. Sem perder a poesia ou a maestria, como se ela fosse uma mangueira frondosa, ofertando frutos e sombras para os que tinham fome e os que tinham calor. 

         Arvorejada, suculenta, preciosa em tempos de calor, também era especial nos dias de chuva, pois a quentura de seus braços era felpuda como um cobertor de 300 fios de algodão.

Nunca faltava um rasgar sorridente em seu rosto, anguloso, leitoso, alvo como as bonecas dos filmes de terror. Tanta alvura fazia desconfiar das origens que dizia ter, filha de cigana com um sarará. Provavelmente daí viesse o negrume de seus cabelos, soltos, pesados, ondulando sempre como uma crina nunca cortada.

O caso era que Teresinha estava cansada. Cansada de ser luz, de ser sombra. Tentou, pouco a pouco, ir se desfazendo da rotina dos seus dias, mas ela parecia toda uma primeira pele, difícil de descarnar. Já não sabia ser cobra.

A pele então foi pesando, como se em cada um dos folículos tivessem cerzido um grão de chumbo.  Quem era o costureiro maldito? Teresinha não sabia. Procurava nas mãos dos outros, as marcas de agulhas. Procurava, como quem vistoria a casa depois de um assalto, por baixo das camas, nos armários, por trás das portas, em qualquer lugar, os vestígios desse artesanato medonho.

Teresinha ficou triste, muito triste, tão triste, como ela apenas sabia saber sem que ninguém soubesse.

Quando da última promoção, com os parabéns dos colegas do seu departamento, ouviu, de longe, - Teresinha é phoda, Teresinha deixou de sorrir. E resolveu phoder.

Teresinha foi numa casa de depilação, esfoliou o couro todo e com a ajuda da esteticista, tentou pinçar algumas gramas de chumbo. Saiu de lá se sentindo mais leve, apenas algumas gramas mais leve. Sabia que teria que phoder. Quando estava indo para casa, desejosa de ser despida, ouviu seu telefone tocar. Agora não, pensou, sentindo a urgência toda. Mas era seu tio. Teresinha o atendeu. Já tinha alguns dias que não o fazia. O tio, ao ser atendido, cantou, como sempre o ouvia cantar desde pequena, o Teresinha de Jesus. Na pressa de atende-lo e segurar as compras de sua nova lingerie púrpura, Teresinha foi ao chão. Caiu pesada, apesar de se sentir mais leve. A voz do tio se quebrou, espatifada igual ao aparelho.

Ao tentar se levantar, Teresinha recebeu ajuda. Era um antigo conhecido, um cavalheiro de tempos de outrora, que lhe ofereceu a mão. Teresinha aceitou. Das mãos, vieram poesias, segredos trocados, promessas, cochichos ao longe dos corpos. Músicas e vinhos, pensou Teresinha, pronta para phoder.

Teresinha assim aceitou um encontro. Seria perto da casa de um ou de outro. Não era o terceiro a quem Teresinha dava a mão, mas era o primeiro, há muito tempo, que as mãos pareciam macias e sabedoras do que fazer.

E assim, foi...  Pronta a dar seu coração. A dar seus seios.  A dar sua boca. A dar seus braços. A dar seus pés. Suas unhas. Seu suor. Suas orelhas. Seu cheiro. Sua bunda. Suas costas. Sua nuca. Sua boceta. Seu gozo.

Mas na hora da cama, o moço de mãos macias, não soube o que fazer com Teresinha. As mesmas mãos que a levantaram do chão, pareciam concreto ao pegar em seu corpo. Teresinha passou a noite. E de noite, ainda na cama, ficou lembrando da cantiga da Teresinha. Não daquela que tinha um pai e um irmão. Tampouco da cantada por Chico, ainda que essa a inspirasse.

Lembrou da música que ouvia quando era bailarina. Da Teresa que não era inha. Assim, levantou-se da cama, dizendo não quando o cavalheiro pediu que pernoitasse por lá, foi ao banheiro, banhou-se. Recolou a púrpura de sua roupa íntima e pensou sobre as costuras em seu corpo. Viu que sua pele era peso. Chumbo. E não desejou mais trocá-la.

Ah Teresinha, como você saiu bela de lá. Toda armadura. Sorriso frouxo. Enorme.

Enquanto Teresinha ia para casa, foi engolindo o mundo. Entre o que engoliu, sem medo, feliz pela pele que costurara, saiu phodendo com todos os cavalheiros e, quem sabe, com algumas damas, que esbarrara no seu caminho para casa. Chegou farta, comida, toda enterezada. Havia deixado o inha no banheiro do cavalheiro.





sexta-feira, 4 de julho de 2014

Tal como um orgasmo... (Jogos da Copa²)


O cuidado que tive com ela foi o mesmo de digitar aqui, medrosa que sou, de bagunçar a ortografia toda.

Mas esse conto não é sobre mim, quiça sobre ela, talvez, quem sabe sobre uma sensação, de alegria pura, júbilo, como se finalmente as cartas do baralho se alinhassem.

Nem foi o caso. Abri mão de muito para relatar o mínimo, tão máximo, apenas 2 X 1.

Para explicar a ela, macho que sou, falei das jogadas do futebol, falei do meio campo, do zagueiro, do que seria a trave... Ela apenas me olhou, como se estrangeira eu fosse. Mal tinha me espacializado, decalcado minhas terras todas, me vendo na situação de dizer para ela, logo para ela, o que era o gol.

Na ausência de palavras, disse – goze, como quem goza o bailarino. Ele ganha milhões; e ela, como quem indaga, por trás de todos os óculos, e você?

Sei lá o que ganho eu, não estou para jogo nenhum, apenas apostei minha vida. Apostei que poderia, apostei que o rinchadeiro todo não veria acrescido das misérias do sertão. Apostei que, naquele jogo, teria a eternidade pega entre os pés. E eu era apenas transeunte.

Mas era danada. E na danação, expliquei para ela. O jogo, imbecilizado, de pernas a correr atrás da bola, nada mais é do que o jogo da vida, daquele entremeado, em que você corre o corpo dela inteiro, horas depois, toda suada, e diz – bola na trave.

E a coisa lhe consome, lhe toma toda, como se 75 minutos fosse pouco e apenas lhe restasse a prorrogação.

De quem foi o gol? Que trave lhe abateu, poderíamos conversar se o jogo já fosse ganho, se eu soubesse em que lugar estavam as vírgulas, mas elas sempre foram um problema... uma vez corrido o texto, no mínimo três pontinhos... como se o aberto de tudo fosse o fechamento perfeito.

Nem foi o caso. A história da bola rolou horrores. Do que me é permitido falar, sorrio das associações com o acasalamento, riu como quem ri do riacho seco, daqueles de terra crestada, marcada pela presença e pela ausência. De quem faz da vida, uma copa, como se num momento apenas tivesse a verve e a verdade.

Mas choro junto, choro se pudesse fertilizar as terras todas. Se me fosse permitido, sertão meu, jamais veria a falta d água, o verde nos alcançaria e o gozo seu, e o meu, fertilizaria o mundo inteiro. E assim, toda copa, seria como nós duas na cama, eu e você, gozando juntas.