terça-feira, 25 de novembro de 2014

A volta dos que não foram



Como o herói da história que meu avô sempre contava depois da ceia, ao meu pai, fui batizado Ulisses, filho de Hércules, neto de Gideão. Meu avô gracejava sempre que a nossa estirpe era de heróis, das que figuravam nas escrituras mais antigas, ainda que suas mãos mal pegassem em lápis ou folhas, como se o que viesse antes do nosso vivido, dependesse apenas de sua fala rápida, grávida de uma memória prodigiosa.

Meus antepassados, assim como eu, desde cedo eram introduzidos nas lides da vida. Cresceram no trabalho com a terra, sulcando aquele barro vermelho, que não apenas ocupava o vinco das unhas, mas tomava conta da pele inteira. Sempre que eles despontavam, sob o pôr do sol, no alcance dos olhos, vinham trigueiros, risonhos e vermelhos, sobretudo, vermelhos, queimados do sol, banhados da terra, como se o corpo deles fosse a extensão do que faziam entre o café com batatas, servidos ainda com o canto dos galos, e a sopa de feijão de todos os fins de tarde.

Quando chegou o tempo que faria parte dessa companhia, meu avô ainda era vivo. E se eu achava que ele era um prosador de mesa cheia, descobri que as palavras eram mais abundantes do que as sementes que eu tinha que jogar entre um sulco e outro daquele vermelhão sem fim.

Assim como as tardes encarnadas, vi minha pele se pintando em meio ao falatório do meu avô e ao ritmo das enxadadas do meu pai. Curiosamente, meu pai não falava coisa alguma, quando muito resmungava que havia ouvido, depois de ser chamado com atenção.

Logo, minha mãe, que nas poucas horas que lhe sobrava das tardes de verão, se pegava no seu bem mais precioso e se punha a costurar, ganhei de presente meu primeiro par de calças, dizendo, uma roupa de gente grande, para aquele já tão crescido. Corri feliz como as galinhas depois de um dia de debulhes e sobras. Senti que ali começariam as minhas histórias e que eu semearia os que viriam de mim com o vivido de antes e o vivido dali em diante, como se o tempo pudesse ser reto em sua sabedoria e a minha vontade, de tão soberana, congelasse meus sonhos de menino a me alimentar pela vida afora.

Mas a vida, essa sim, fica bulindo nas nossas histórias. E quando ela falha, não tarda em dizer quem é que manda. Um dia, meu avô viajou, como se a prosa fosse o pior dos amigos cobrando usuras antigas, num tom zombeteiro da volta dos que não foram.  E os dias na terra passaram a ser habitados apenas pelo ritmado do meu pai, silencioso como só ele sabia ser.

Cada dia era mais longo do que o outro. A batata que antes era colhida e cozida para anunciar a lide, parecia triste, amarga, cheirando a ferro curtido de ferrugem. A sopa, que sempre anunciara os risos, as pelejas, as fanfarras, minguara igual as bravatas do velho herói.

Dei então pra me furtar do que sempre havia conhecido. Peguei mulher, juntei barriga, dei para jogar, desaprendi do ouvido, perdi dentes, fermentei o cereal plantado, cometi abusos e fui abusado quando, então, pelas estradas me joguei.

Virei caixeiro, negociante, marinheiro, cafetão, professor, mula, pesquei sereias, cacei baleias, fiz filhos, tomei tragos, provei coisa que não era de homem macho e pelo mundo todo fiz mil voltas, até me entontecer por inteiro.

Um dia, parado na janela de um prédio alto, pensei sobre aquele mundo  vagalume e para onde ainda me levaria, que milhões de novas coisas botaria em minha conta, quando me peguei lembrando de uma das histórias do meu avô, quase como se eu pudesse ouvi-lo, me chamando de novo para sentar em nossa mesa.

Essa história é a história de um grande guerreiro. Ele era forte como o touro escolhido pros cruzamentos. Ágil como guinés nas manhãs de um sábado de festa. Fértil como ele só, era pai de uma dezena de meninos. Tinha uma mulher que era linda que só ela. Um dia chamaram ele para apartar uma briga de vizinhos que viviam trocando tiros e injúrias. Lá das terras do alto da serra. E ele foi, foi com seus filhos mais velhos, já todos burregos grandes, como se fosse o general do exército francês. O caminho foi tão longe que no meio já não tinha carne seca nem pó para o café. Mas eles não voltaram atrás no prometido, o tamanho do herói era o tamanho da palavra dada. Sua mulher não tinha gostado dessa aventura, sabia que o tempo que ele havia dito que estaria em cima daquela serra, seria mais alto que ela estava disposta a esperar.


Os filhos que com ele foram, fincaram casas pelo caminho, casaram e hastearam bandeiras mundo afora, como se o caminho de ida e de vinda, deixasse de ser uma reta. Eles ali prosperaram, desbravam mato, fizeram fazenda, uns criaram gado, outros descobriram ouro. E de lá, de onde tiveram parada, mandaram presentes para sua mãe. Nunca faltou nada a ela, nada que ela não gostasse de comer e de vestir. A fartura chegava a ser tanta, que os vizinhos, vira e mexe, iam se empanturrar por lá. Tinha uns que levavam violas, outros sanfonas, sem falar nos zabumbeiros. Muitas das músicas que eram tocadas nos forrós improvisados, como se cada um dos dançantes já não soubesse dos dias que eram o das festas, falavam das histórias do grande herói. Já sabiam até como ele deu fim à guerra tão grande foi o sucesso de findar a peleja. Mas ninguém sabia onde danado ele estava. 

      Tinha até um concurso de adivinhação para dizer o dia que ele voltava. Parecia até que tinham dado destino nele até que ele voltou, porque o que faz um grande herói é a hora de ir e a hora de voltar sem perder a própria palavra, pois mesmo quando dá uma coisa dentro da gente, de sair mundo afora e ganhar todas as batalhas, se aprende que a paz não só se ganha com a guerra. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Dexter mata Lobão!


A grama do vizinho verdejava sem as flores malditas. Mas nem sempre fora assim. Alguns anos atrás ele chegara com apenas uma pequena mudança. Percebi, enquanto verificava a caixa dos correios, que ele era de parcas posses. Não tinha mais do que um colchão, uma mesa de quatro cadeiras, uma geladeira velha e seu gato. Lembro que na época pensei em como ele havia conseguido entrar na nossa vizinhança, mas logo tratei de esquecer, não parecia que seria permanente.

Dias depois de sua chegada, fiquei levemente irritado com o som que vinha desse meu vizinho. Parecia que as vozes completavam a ausência de posses. Eram vozes de muitos e todos falavam com um estranho sotaque. Me aproximei da cerca viva que nos separava querendo descobrir de que lugar ele vinha. Não soube discernir totalmente, mas alguma coisa me dizia que eram nortistas. Não que tivesse descoberto alguma cadência própria. Mas pela intensidade do barulho, cordas, coros, batuques e pela cor marronzinha do vizinho, acreditei que ele tinha descido de lá.

Talvez eu até tivesse embebecido mais minhas rosas, investigado mais um pouco, se não tivesse tido um susto daqueles, quando o gato do vizinho, desses sem raça definida, escondido por entre os arbustos, me pegou olhando, como se dissesse, que indiscreto. Tratei logo de arrumar minhas ferramentas de jardim e voltei para o interior da minha casa.

Higienizei as mãos no lavabo do piso térreo e lavei o rosto. Se fosse um dia como outro qualquer, como os dias de ontem, teria passado a loção no rosto, tomado meu leite quente com amêndoas, conferido o jornal on line italiano, e ido para meus lençóis egípcios, ligado minha Foscarini e folheado os livros que o arquiteto me indicara para deixar a mão na mesinha de cabeceira. Seria o sono certo, o sono dos justos. E nunca havia me falhado.

Uma hora depois, farfalhei os panos, me descobrindo todo, como se o som que se propagava pelo mesmo céu, meu e do vizinho, tivesse invadido meu lar.

No outro dia, quando cheguei no escritório, cheguei engomado, terno em riste, riscado, o mesmo que havia usado para os dias especiais. Segui corredor adentro, parando apenas para averiguar minha agenda com a secretária, quando, com a mão já posta na empunhadura da minha sala, ela disse: O senhor está precisando de algo? Claro que disse não, claro que de forma ríspida. Apenas não sei se ela percebeu minha hesitação. Mas ela não era paga para perceber nada, lembrei, enquanto assinalava na agenda, um lembrete de substitui-la.

O caso é que aquele dia bagunçou o resto do meu tempo. Entre um processo e outro, enquanto despachava, lembrava da advertência do gato e do olhar, levemente espantado, da secretária, que cuidei de trocar no dia seguinte.

Em casa, já ambientado, preferi ficar sem ir ao jardim. Correram dias. Meses até. Nunca fui muito católico, mas acompanhei, toda noite, o jornal italiano quando noticiou a aposentadoria do papa alemão. Cheguei a pensar, que tempos loucos esses, em que festejam a saída de um europeu, salvo de passagem, com extremo bom gosto, pois secretamente me regozijei quando vi que ele havia usado o mesmo sapato vermelho que comprara para os dias de verão, ser substituído por um argentino franzino, que falava em marte, que falava em gays, que falava neles. Daquele dia em diante, preferi os noticiários ingleses. Estava farto da cobertura italiana.

Eu sabia, pela ancestralidade do meu nome, que ali, onde eu nasci, não era a minha origem. Cheguei até a pagar, uns trocos qualquer, ao melhor historiador das origens, queria mandar tecer meu brasão, em cima da lareira, pelas tecelãs usadas no último desfile prét-a-porter, mas me neguei a pendurar a renda das paraíbas. Onde eles estavam com a cabeça?

Em meio a tudo isso, tinha o meu vizinho. Ele ainda existia. Não sei se outros móveis haviam sido despachados no seu endereço. Mas, com certeza, sua velha mudança ainda estava lá.

Outro dia, esbarrei com aquele farsante de historiador que havia contratado em frente a área comum do meu condomínio. Audacioso, me informou sobre seu último artigo publicado, falando asneiras sobre as origens rurais das famílias que colonizaram meu país. Cortei rapidamente a conversa, não sem perguntar para que casa ele estava indo. Ele respondeu e eu senti uma fúria me tomando conta, como se eu reconhecesse as vozes do meu vizinho.

Nesse dia, voltei ao meu jardim. Queria ouvir, por entre o eco daquelas parcas posses, se meu nome seria anunciado. Não lavei as mãos, não peguei minhas ferramentas, apenas me aproximei da cerca viva e vi que ali era um dia de festa. Ouvi quando cantaram em coro que dois e dois eram cinco, que a estupidez era maior, as vivas a sociedade alternativa, que se vive para consertar, que a mente está na imensidão, que pelas vias se escorre o sangue e o vinho, que nem se voa nem se pode flutuar, que o dia é branco, que o jogador conhece o jogo pela regra...

Me agachei perto da mesma brecha que havia olhado no primeiro dia. Havia esquecido do gato, quando ouvi o maior dos miados: Nós gatos já nascemos pobres ...

Voltei imediatamente. Procurei na minha despensa. Peguei caviar-salmão-linguado-meu-melhor-vinho-um-charuto-de-fora-meu-melhor-sorriso-como-se-fosse-o-primeiro-dia-sem-deixar-de-levar-alguns-vinhos-italianos-da-minha-adega-preparei-como-quem-azeita-tudo-toquei-na-campainha-e-dei-as-boas-vindas-quatro-anos-depois.

O vizinho agradeceu. A visita disse: ooooi. Me virei rapidamente, me desculpando por não entrar. Fiz um afago no gato, meio sem graça, e voltei para casa.

Dias depois, o quiproquó nos jornais. As manchetes: A vizinhança desvalorizada. Professor de esquerda com rituais satânicos. Orgia e permissividade. Empresários fogem para Miami. Juiz processa agente do Detran por estar embriagado. Helicóptero com cocaína é da família do senador. Dexter mata Lobão! 


ps. acompanhei todas as notícias. Eu e o gato. O adotei, pelo bem da comunidade. Era o meu pro-brono-especial. Só lamento ele não ter raça alguma

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Eu sou...


Meu nome é Manuel e eu sou alcoólatra. Hoje são seis anos sem tomar uma gota de qualquer bebida barata ou não. Mas minha dor contabiliza 10 anos. São dez anos que não escuto a barulheira de Ellen ou de João, quando ao chegarem da escola, perguntavam a sua mãe Carmen, minha esposa, papai chegou? Ela, que também já não está no meu cotidiano, dizia sempre aos nossos filhos, ele está quase chegando.  Não por acaso sou contador da firma que fora do meu tio. E por isso não esqueço a contagem de cada dia passado do que aconteceu há dez anos atrás, quando cheguei tarde para o encontro com as crianças, causando espirros na mais alérgica delas, quando disse, desculpem papai, hoje o dia foi longo, foram muitas contas a prestar, que tal irmos todos comermos uma pizza. A criançada adora uma pizza. Carmen não, seu pesar de mais uma noite a dormir com o ronco da minha bebedeira, lhe fazia pensar na farofa de cuscuz e na galinha que passara a tarde toda a temperar. Estava cansada, eu sabia, como sabia também que não adiantava justificar o dia todo, pressionado que estava para pôr ordem nas contas da empresa. Ela não entendia que o fato de ser sobrinho do chefe de tudo, me tributava uma carga maior. E que eu precisava da saída, depois do trabalho, para encontrar com os amigos e sentir que meu corpo era como aquela cerveja aberta, despressurizando o dia. Carmen, conformada com a alegria das crianças, enquanto guardava nas suas gavetas seu próprio desgosto, sorriu e disse naquela voz de mãe, a Ellen e a João, não esqueçam seus casacos, a noite promete chuva. Tentou pegar a chave da perua, que costumava rodar pela cidade, preenchendo de víveres para o consumo da semana, para os tantos jantares não comidos por mim, sem falar nas tantas tralhas das crianças, quando eu disse, não, vamos no meu carro, já está lá fora. Seguimos os quatros e para quem nos viu chegar na pizzaria de Francesca, parecia acompanhar os sorrisos dos meus filhos, como a acrescentar, que bela é essa família. Enquanto o pedido era feito, com as arengas sobre os sabores, pedi um balde de long neck, sob o olhar cansado da minha mulher e me servi antes de todos. A pizzaria de Francesca era o nosso cantinho, sempre íamos, tinha balanço, quadros de pintar e tantas outras distrações para os casais com filhos, enquanto esperavam pelo sabor quentinho vindo do forno de lenha. Enquanto a pizza não estava pronta, ligeiramente consumi meu balde, enquanto Carmen se serviu de suco de abacaxi com hortelã. Ela estava em outra das suas loucas dietas, emagrecendo a olhos vistos, tão esbelta quanto no dia em que me lembro de ter me apaixonado por ela. Durante o tempo do retorno do garçom, não falamos muito, parecia que nem era necessário, quando muito as perguntas de sempre, o que faremos no final de semana, você viu o carro novo do José, estou pensando em fazer yoga, me matriculei num curso de arte daquele Instituto Multicultural da Rua Cinco. Para tudo que escutava, sem ouvir, eu balançava a cabeça e dava a maior força, até que o silêncio tomava conta de mim e eu apenas colhia as palavras de Carmen para poder separá-las em letras de quatro em quatro. Parecia que os números não ficavam no escritório, mas estavam enterrados na minha consciência. A pizza chegou, pedi mais um baldinho, que veio suado, quase como se me prometesse um refrescamento íntimo. Juntos, depois deles se alimentarem, nos reunimos para irmos para casa, acenamos para outros casais conhecidos, e pegamos a estrada. Na altura da Rua São Jorge, já garoando, virei para a direita sem ligar a seta. O caminho era conhecido e meu desejo era deitar meu corpo, pois na horizontal os números não me incomodavam. Não lembro de mais nada depois daquela curva. Acordei no hospital, cheio de curativos leves, cabeça ainda meio zonza, que pareceu entrar em curto-circuito, quando o médico, apressado em atender os outros feridos, me deu alta, não sem antes dizer, sinto muito. Só o senhor sobreviveu ao acidente. Do meu lado, ouvi gemidos. Pareciam também terem sobrevividos ao crash, apesar de suas ataduras terem o alcance de uma múmia. A enfermeira, enquanto eu catava os rebotalhos da roupa do escritório, chegou, com passo macio, perguntando se poderia ligar para alguém da família para que me acompanhassem em casa. Eu só pensei que minha família éramos nós quatro. Agradeci. E sai. No primeiro dos bares, logo na rua ao lado direito do hospital, parei e bebi meus mortos. Os bebi por quatro anos seguidos. E na conta dos quatro anos, quando lembrei que a-n-o-s significa a conta perfeita na minha mente, parei de beber. Hoje fez seis anos. S-e-i-s-a-n-o-s. E me sinto completo na incompletude. É isso.

Os aplausos foram fortes. E ele me pareceu precisar de muita matemática das palavras perfeitas, porque enquanto ouvia o cumprimento dos outros, seu rosto pedia desesperadamente um trago, para afoga-lo num copo qualquer.

A história que veio depois da dele parecia repetir um refrão que cheirava a cravos e defuntos. Assim como as próximas narrativas. Todos diziam o próprio nome, seguido do Eu sou alcoólatra.

E eu pensava no Eu sou como a primeira das coisas a serem ditas naquele círculo de cadeiras. Todos sabiam que as histórias narradas ali, embaixo daquelas telhas vermelhas, seriam ecoadas apenas nos ladrilhos desbotados, riscados pelo arrastar de tantas sessões e pelo passo pesado de todos, como se o ritornelo circular daquela disposição de corpos, criasse uma sinergia em que simultaneamente as leituras sobre o passado fizesse uma combinatória singular sobre a posteridade das experiências.

O instrutor, que ouvia atentamente a todos, ele também um ex, olhou para mim, que ali estava pela primeira vez e perguntou se eu queria partilhar.

Cruzei minhas pernas, passei, nervosamente, os dedos por entre os cabelos e falei bem baixo meu nome. Quando articulei o Eu sou... entendi que aquele grupo não me pertencia. Que eu, ainda, não poderia me nomear. E na ausência de mim, juntei minha bolsa e o guarda-chuva que havia deixado no chão, ao lado da minha cadeira, saindo apressada, sem nem ao menos me desculpar ou dizer até logo.

Demorei para achar as chaves do carro na urgência toda que me habitava. Ao dar partida no motor, soou o rádio, na voz de Gal, “um dia eu volto, talvez eu volte, um dia eu volto, quem sabe...”

Procurei o boteco perto do hospital que Manuel falou e dessa vez, como há muito não fazia, pedi duas doses duplas com gelo e limão. D-u-a-s-d-o-s-e-s-d-u-p-l-a-s-c-o-m-g-e-l-o-e-l-i-m-ã-o. 4 de 6. Os anos que eram dele, contados na dor de seu relato, me pareceu a soma perfeita, o alinhamento de t-u-d-o.

            Ou quem sabe, nada. N-a-d-a.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O quinto



Ela era a senhora do mundo. Semeava a terra, o vento, o ar e o fogo, não necessariamente nessa ordem. Apesar do saber só ser da Senhora, ela era magnânima. Instituiu como A primeira reforma, a cartilha a ser doada para todos. E nela, doou, como quem multiplica a vida, a consciência para todos. Disse que os tempos de outrora era tempos de desordem, tempos de amores vis, de quiproquós insignificantes, de colonização da legião, das paradas de multidões sem cerne, só carne sem o dom da vida, de corpos sem espíritos.

Era preciso, aprendi pequenina, não pelos números de anos, mas pela ausência de memória, que a vida de outrora, do Antes de tudo, as pessoas tinham a barriga cheia, mas eram vazias do Espírito. Não se conectavam com a terra, com as flores, com as árvores, que deviam crescer, lado a lado, para que a colheita, de cada uma das culturas, não se misturasse com as outras. Os campos, de terra e de água, fecundadas, era verdadeiras miragens, coisas para um homem só.

Eu cresci colhendo soja. Minha mãe colheu soja também. Soube que minha avó idem.

Das antigas escrituras, que achei guardada enterrada ao lado do túmulo da minha bisavó, cuja letra até hoje sinto dificuldades em decifrar, tinha mais páginas do que cinzas.

Não que eu tivesse desejado profanar o corpo de quem um dia fora o depósito de algo maior. Não fui eu que perscrutei a superfície das lápides remotas. Era mais uma das reformas da Senhora. Aqueles cujo batismo não foi no Templo Divino, que eram os chamados seguidores da legião, que pariram sem fé, que deram sem autorização, que não procriaram na Lei, que não racharam os seios aos filhos, que afrontaram o locatário do divino... Desculpe, pela falta de todos os registros, eu ainda sou da quarta série. Não lembro de todos os Mandamentos. Eu apenas passava por lá, quando as máquinas começaram a revolver a terra, desocupando o solo profano, quando vi, que ao lado da terra revolvida, brotava como que fosse o pecado das profundezas todas, centenas de livros e todas eram assinaladas pelo nome da minha bisavó.

Sai ligeira de lá, com o catecismo embaixo do braço, já sentindo o corpo em brasa, como se fosse padecer pela ausência da Senhora. Juro, Senhora, juro aqui, nesse depoimento, que foi assim. E, por essa falta, me martirizo.

Acho que quando voltei ao desterrado, voltei porque estava em febre. Não tive intenção de ir contra as reformas. Sei que o espirito fica abaixo do meu peito. Sei que preciso ouvi-lo, mas do que a minha cabeça, que insiste em incendiar minhas noites. Sei também que minha mente deve saber de onde o Espírito me chega. Eu sei de tudo isso, minha Senhora. Nem fui a primeira da classe. Demorei um pouco para entoar os cânticos. Sei que errei em algumas falas. Mas eu sempre semeie aquilo que me foi ensinado.

Primeiro a Senhora. Segundo Ele. Terceiro a Família.

Mas ela era minha bisavó. Era família. E não sabia do seu passado pregresso. O importante não era o presente, Senhora? Pensei que indo lá, sabedora da devoção das minhas origens familiares inteiras, estava preservando o primeiro dos mandamentos.


Sei qual o meu lugar, sei do que ouvi da minha mãe, e do pouco que pude escutar da minha avó. Já estou perto de fazer filho, queria poder dizer a ele ou a ela, da origem de quem plantou num campo inteiro e comeu da sua mão. Queria dizer ao meu filho, cujo pai seria da sua escolha, que a terra plantada e a colheita levada, era o inteiro da vida da nossa família.

Mas eu não pude deixar de ler. Mas eu não pude deixar de ler. Li tudo. Li sobre um tal de Pessoa. Saramago. Manoel de Barros. Orwell. Marx. Rowling. Huxley. Palahniuk. Collins. Foucault. Dick. Loureiro. Assaré. Dickens. Sade... li todos no máximo de dois dias, como se tivesse furtado algo que meu espírito devolveria depois de um fim de semana.

Durante esse tempo, não comi o fruto da terra, não bebi água. Me ausentei do grupo das queimadas e tampouco consegui respirar como antes. Sei que meu tempo se foi. Já gastei o quinto da hora me dada, mas agora estou pronta para ir. Liguem as máquinas. Que o filho que hoje será preservado da minha morte, tenha todos os elementos. Os que a Senhora professa e os que acredito serem minha herança.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ressuscita-me

Sozinha, ao seu lado, enquanto toma a sua cerveja, pedindo, mulher, seja boa, traga outra, fico imaginando, por quantos acertos tão mais, terei que responder. Você me olha de lado, dizendo que meu penteado tá chique, mas era o mesmo de onze meses atrás e agora sim. Espere mais um pouco. Disse tudo isso, sem nem ao menos olhar, enquanto trocava os canais.

Eu sabia, quase sem saber, que o tempo passado, oito vezes oito, seria a nossa conta do infinito, mas não estava pronta ainda por me dar por vencida. Nem sei que guerra era essa que travei por tanto tempo. Nosso melhor de nós já era falecido. Ele e sua guitarra azul. Morreu de over, me disseram, naquela que era a melhor das estações. E eu sem saber querendo ver aquela berrante tatuagem de coração vermelho coroado de espinhos, apenas desejando, bata novamente por mim, por favor. Ele viajou cedo e deixou suas mochilas todas, no mesmo quarto que hoje é usado para as costuras que faço, tentando aqui e ali, o trocado para o pior dos meus vícios.

No íntimo, daquela intimidade que nem se confessa em pesadelos, pedi a Deus, me leve antes, não me deixe sem o dia em que a falta supurasse todos os meus quereres, como se ao pedir tanto, fizesse do outro, lugar de silêncio, de todo silêncio que aprendi a conviver com ele, que me pede outra cerveja. Sabia que a fala terminaria logo, no refrigerador, tinha apenas um par delas.

Mas ele nunca foi de muitas palavras. Quando muito dizia, Deus proverá. E assim foi me fiando e eu, toda fiada, como quem fizesse do dia a dia a coleção dos melhores retalhos, me ocupasse apenas a coser.  E olha, que a colcha daria para cobrir a cama de muitos de mim, apenas de mim, como se a colcha e a prateleira fossem a soma da minha vida toda.

Como no dia em que ele, em meio a festa do milho, na fazenda antiga, quando todos celebravam a chuva, olhou para mim e disse, quero fazer uma fazenda com você, daquelas enfeitadas de mil tricôs, bordados e ardores. Logo eu, que só gostava de pinturas, sonhava em ser artista, queria que meu rosto fosse a tela em branco, cujo desenho, pudesse ser rabisco, pudesse ser estilo, pudesse ser o milagre que me foi negado no dia em que nasci. Da fazenda dele, sonhei com milhões de paisagens. Me senti terra fecundada. E me despedi dos mil artistas que me viriam.

Já levo, digo da cozinha, enquanto destampava a saideira. Tinha, antes de pensar em somar, apenas um par. Ao entregar, em mãos, boa mulher que sou, pensando na fazenda que deixamos para trás, eu e ele, sem o som da guitarra que alegrou e preocupou nossos dias, apenas eu e ele, despido de filho, sem os netos a acenar com a posteridade, sem as fogueiras, o milho e o céu, solucei, como se tivesse, entre uma ida e outra, entre a cozinha e a sala, emborcado o múltiplo do bebido da vida dele inteira.

Fiquei embriagada, tropecei sobre ele e o cortei na mão em que ele esperava ser servido. Ele, arquejando, disse, mulher, você me cortou, e eu apenas disse, me dê um gole, pintando, finalmente, meus lábios de rubro.

E foi assim, não como era uma vez, sem contos nenhum, que teci mais uma peça, depois de décadas, para a colcha que desconfiava dos acasos, como se a pintura, enfim, tivesse a mão do sentido ou apenas mais uma peça cerzida...


Ps. eu teria que terminar, mais tenho problemas. Mas pela primeira vez, a última das cervejas abri para mim, apesar de bebermos os dois. E nunca me senti tão maquiada.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Não sei


Bote isso não amor. Ele não disse que recebia, todo mês, salário sim, salário não, por mais desinteressante que isso seja. Agora não, cheguei querendo funkear, ela disse, rebolando ele todo.
Mulher, veja melhor, você todo dia rebola. Eu nem rebolar gosto. Vc chega em casa, joga a camisa na minha cara, vai fazer o cuscuz, ignora nosso gato, sem ver direto, com óculos juntado de durex, reclama da minha cachaça, fala que tudo tem que mudar. Fala que eu sou excessivo na minha cerveja, escute essa porra dessa música. Que nunca danço e quando vc dança, desmunheca. Não faça assim, faça, e me asse.
Vc me beija, boca grande, como se eu desperdiçasse a melhor das chupadas. Como se sua boca, no meu pau, fosse a melhor coisa do mundo. E quando vejo suas fotos, invejo quem possa vir a lhe ver. Sabem de nada, inocentes, não sabem que quando vc se deita, toda vergada, mil piruetas, com as cores todas no seu rosto, no sonho bom, sem pensar no outro, vc já dormindo, diz, não adianta nem tentar me esquecer.
Lembro, no dia que ele me deixou, pequeno ainda, naquela cidade, que muitos cabeludos andavam juntos, de calças desbotadas, dizendo já é da minha cabeça, eu sei que consigo ser melhor, um dia, um dia...
E assim ele foi embora. Nunca mais ouvi falar em seu nome. Até o dia que ele se candidatou. E, hoje, minha mulher, disse, ele me lembra vc.  Enquanto me pedia que trepasse para ter outro filho.  
E ela estava com a lingerie. Ela tinha as curvas todas. A mais saborosa das bucetas. Se eu gostasse disso, lambia ela inteira. Passava folha por folha, como quem lê como um livro precioso, daqueles raros... cujas folhas, há muito não tocadas, dissesse ao primeiro dos pesquisadores, bem assim, estou a sua disposição.
Nem gosto de ler. Muito mal assisto filmes. Sou ocupado com a pior das anedotas. Venho, certeiro, dia sim, dia sim, toda hora, aquela mesma do cartão batido. Venho e vou e ela ainda quer ser comida, quer fazer mais, quer filhos, filhos como eu.




....


Ele bebe demais. Trabalha demais, tempo, por que vc não entra num acordo comigo?
Limpo o dia todo, limpo assoalho, limpo borralho de nariz, limpo o que não pode ser limpo.
Tomo banho, como quem lava um assoalho, peça por peça, folha por folha, afinal, nunca gostei do meu cheiro, nunca gostei daquilo que, em mim, me chamava tanto.
E assim eram os dias, seja lá que dias foram aqueles, anos, talvez meses. A irmã dele, um dia, me deu, numa brincadeira de quem vai se amarrar, um fio dental, de renda amarela, e todas riram juntas, hoje vc vai dar... é só tomar um vinho, desce que é uma beleza.

  ....


Ela trouxe vinhos, cerejas e camisinhas. Eu sou homem. Eu sou homemmmmmmmmmmmmmmmmmm...... Ela escolheu a música escolheu quem gozou, o tom, o toque. E, durante, pequenos bocados, bocadilhos, quando pensei nele, enquanto ela em mim, me sugava, pensei em quanto me faço homem...









quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Geni


Me disseram um dia que existia uma dicção feminina. Não sou mulher, sou gata. Dessas de rua, que num muro grita um miau qualquer. Como se tivesse um guizo, e dele pudesse voltar. Mas sou gata. E quero a rua.

A rua me vem como uma avenida. Dessas de postes robustos. Dizendo a ele, toda gata, a rua não é difícil, siga a linha dos postes em arvores. Sem acento ou acentuadas, apenas siga as linhas.

Mas sou gata, gosto das costas azunhadas. Gosto das linhas ditas, mas gata como sou, digo a ele, que me disse em segredo, como numa mensagem qualquer, bela como tu és, assim, nesse retrato, te comeria inteira.

Ele, gato, negro, daqueles de telhado de zinco, nem sabia, que ela, toda noite, antes da pele macia, quando passava pelo em dia, a noite, toda macia, era nele, que ela adentrava em dia.

Nem era dica, nem música, apenas uma rebordosa tardia, daquelas de unhas em gato, como se o corpo dele, fosse um teclado que temia.

Talvez isso fosse uma poesia, se lido como a gata escrevia. Mas a gata apenas atrevia, quem sabe um dia seria.

E assim foi dito, como os poetas de outrora, a festejar um dia, tardio como o mais maldito das rimas, eu, que soberba me fazia, narrador do outro, apenas dizia^^

Numa noite qualquer eu te pego em pelo, sem fala, sem desassossego. Não quero saber quem mãe te pariu, nem muito menos com quem dormiu, pego você na cama, você que sempre sorriu, com quem noites pariu, pego você como quem fica na cama, de quatro bandas em chamas, te dizendo, venha, vá, como fala um estrangeiro dos outros lados do mar.

E eu sei que dessa rima, do lado de cá, gata que eu sou, ocupada que estou, eu sou apenas, de todas elas de lá, a ... quem sabe, deixar o Whisky de lado, e beber leite gelado. Gata que sou...

Ps. E assim, vou saber se você ouve a canção que um dia pensei em dizer ....