Seria uma
tarde como outra qualquer, se não houvesse o chamado para dissimular a ferrugem-maresia do cotidiano. Ela recebeu as receitas todas. Bolo, café,
ansiolíticos, tapiocas, psicotrópicos, uma ou outra amostra grátis. Tudo mais ou
menos do ordinário de todas as horas, meses ou anos, quiçá. Farmácia, padaria,
mercado, dentista. Dessa linha, uma parada apenas. Na sua frente, um
círculo-giradouro. Ela se viu freando. Não era dada a seguir os caminhos que
não são das linhas. Não sem rapidez, como quem não pode parar e ouvir os ruídos-silêncios
de sua existência. Na parada, em frente ao giro, dois capacetes negros são
despidos na sua direita. Os rostos, borrados, também não pareciam a ela, alinhados, ainda que totalmente
potentes naquela moto preta, das gigantescas, uma roda colosso. Da linha que
parecia vir reta do giradouro, um carro enorme, na sua esquerda, um outro gigante dentro, rosto
todo vermelho, não se sabe se de sol, se de álcool, se de ódio. Esse ela viu
mais de perto, ou ouviu, talvez. Ouviu quando foi chamada de rapariga do cu arrombado, de escrota, de abestada, de imbecil, ouviu tudo isso, mas do outro lado o
silêncio era mais alto. Era o silêncio de um 38, posto no rosto. Visto, por ela,
como se fosse um filme-adrenalina, daqueles que também se assistem para ocupar o
espaço que ainda não foi entorpecido. E nada disso estava previsto, logo para
ela, que esquecia tudo, apenas não esquecia de comprar a agenda de todo ano,
cuja encardenação era manuseada e preenchida no tempo da gravidez de um gato. A
linha, esse parágrafo, era apenas para dar uma parada no café do apito. Um café,
um chamego, alguém tocando sua face, limpando sua cara, e perguntando se o
cartão é visa ou master. Ela não poderia precisar o mais ensurdecedor de tudo,
se o disparo do 38 ou aquele rosto afetado de carmim, que tornou o trânsito e
suas melodias uma música menor. Talvez o som do todo, do que viu e deixou de
ver, não fosse realmente a questão. Talvez a questão fosse andar na linha ou pegar
o giradouro novamente. Ela ainda não sabe. Porque as linhas de um só parágrafo
são coisas que não são de onde são e elas nunca pertenceram a nenhum proprietário,
especialmente dela que não tem um teto todo seu. Se essa história fosse real
e pertencesse a ela, ela diria que seu fim virou multa e que um dia, quando desordenar
a aquiescência do seu cotidiano, ela pagará. Um dia quando as linhas,
desdobradas, se tornarem um novo parágrafo.
sábado, 5 de novembro de 2016
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Sobre os astros
Conta
a lenda que um dia chegaria aquela que leria os sinais todos, da água, da terra, do fogo e do ar, e que dessa leitura aprenderiam a ser leve, bem leve, leve na
vida, leve como o pulo do gato, leve como o cheiro do bafo de chuva, leve como
uma corrida desenfreada, leve, apenas leve.
Aqueles
que naquela comunidade moravam, ou por lá ocupavam as suas tardes ou suas noites,
experimentando o fardo dos dias mais árduos ou o frenesi dos mergulhos
simultâneos, não entendiam como naquele espaço tão circunscrito e tão estéril,
brotava, entre entulhos e bagulhos, as flores mais raras. Cada flor era um
acontecimento em si mesmo e parecia ser o presságio da vinda dela.
Raros
eram os eventos em que se reuniam todos. Raro, como um trevo de quatro folhas, raro,
como um tempo não tão contínuo. Desses encontros, pouco se encontra nos
registros históricos, mas isso nunca seria um problema, ou, tampouco, afetaria
as memórias, pois a singularidade de tanta raridade era multiplicada em
milhares de outros momentos.
Momentos
como naquele dia, em que desavisados, pegaram as estradas erradas e
experimentaram o suco em bolhas que explodia garganta adentro e deixava o riso
solto de tão doce.
Ou
como no outro, quando depois de falarem horas a fio, ninguém entendia mais nada,
como se a fala de jazz, que soava como rock, que amava como uma bossa tão nova,
fosse a antiga música ancestral, dos batuques, das dissonâncias e dos
encontros.
Um
dia, inclusive, uma delas disse, num dia que não era de fala, disse cochichando
no ouvido de outro, que há muito, no dia em que ela soube da profecia, tinha
ouvido outra história qualquer, que nem sabia porque aquilo dizia, mas que
queria dizer baixinho, como se fosse contar o maior dos segredos, e como se
aquilo fosse uma tarefa hercúlea, para ela que contava e para o outro que se
engravidava do segredo ao pé do ouvido.
Quando
aquela que decifrará a água, a terra, o fogo e o ar
Nos
quatro elementos, decodificar
Talvez
ela diga para os quatro dos quatros dos quatros de todos nós
Que
a ligeireza da vida pede ritmos diferentes
Que
aquele que explode e sai na frente em frente
Vem
um largado, cavalgando atrás
Levando
o destino adiante
Pois
o fogo precisa do ar
Que
leva a bandeira para o próximo, como numa
Maratona
de milhares de metros
E
que daí, bem dali, a terra segura os empurrões de todas as vidas
Porque
a vida é sobretudo água,
Fluida,
fecunda, mutável e transformadora
Ela
fecunda a terra
Aplaina
o fogo, condensando todo o nosso ar
Aquele
que ouviu entendeu pouco, entendeu muito. Sentiu que ali estava a leitura do
mundo. E já não era necessário esperar. Estava ali. E ali ficou, escutando a
vontade de verdade de todos os astros.
P.S. Baseado numa história real.
P.S. Baseado numa história real.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Mar e brisa
Era
uma vez uma pequena que veio de muito, muito longe, do outro lado do mundo,
daquele lado de lá que a gente pensa sobre o que aconteceria conosco sem a
gravidade, quando caímos em buracos pela vida afora. Quando ela veio, veio como
semente, cruzando mares.
Para
alguns, ela era uma promessa, um espírito, uma ideia. Eu sempre a pensei como
semente. O fato é que ela chegou depois de uma longa travessia. Veio embalada
na esperança de novos futuros, de novas habitações, veio como célula a germinar
após duas gerações de travessia.
Logo
cedo, essa pequena aprendeu a colher. Não raro, era vista ora nos bananais de
sua família, ora pilotando uma grande máquina de entrega dos frutos. Foi na
terra, portanto, que ela cresceu. Mas logo, aprendeu a olhar para o céu. Como se
ainda tivesse em seu íntimo toda a potência das travessias e, quando chegou o momento, o
cruzou.
Foi
para uma terra também distante. Veio para perto do mar. Aqui fez família,
jarros em flor, ofertou orquídeas aos mais chegados, encantou muitos e estudou
os astros.
Se
apaixonou pelo sertão e lá, apenas ela, sentia a brisa de todas as travessias.
Desde
pequena princesa, até se empoderar rainha, sem príncipe, sem rei, sem reino.
Apenas a senhora do mar e da brisa.
Um
dia, talvez, eu termine essa história, mas ainda não é chegado o tempo, pois há
muita terra ainda a ser germinada. Por isso, essa é uma história curtinha, ainda
existem muitas linhas a serem preenchidas pelas travessias dessa pequena, tão
grande, rainha do mar e da brisa.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Notas de uma professora
Hoje
estou velha, muito velha. Começou assim seu discurso como paraninfa da última
turma de formandos daquela escola de freiras em que tinha ensinado mais de meio
século, estudado uma década. Muitos de vocês estão me vendo em carne viva pela
primeira vez, mas sou aquela cujo retrato está pendurado no bebedouro do
corredor do Lado B, por isso posso dizer que estou aqui uma vida inteira. Talvez
os que lhe pariram, ou os que pariram os que lhe pariram, tenham me conhecido
nos tempos em que a lousa e eu erámos amigas inseparáveis. Hoje mal posso
segurar minhas notas, tampouco posso me furtar delas e confiar na minha
memória. O salão, lindamente decorado, flores, arranjos, toalhas de linho, os
perfumes mais variados, não parecia tão atento e, assim, ela sentiu que estava
em casa. Não posso mensurar o que significou para mim esse convite. Desde que o
recebi, que escrevo poesia e leio filosofia, que voltei a ouvir música e a
pintar aquarelas, que penso no que poderia dizer a tantos jovens que estão a se
formar. Reconheço muitos dos que aqui estão. Vejo médicos, advogados,
políticos, padres, gente distinta, alguns executivos, e sinto que contribui
para isso. Nisso, uma salva de palmas vinda do lado esquerdo, puxou uma
verdadeira ovação. Não sabemos se o repentino rubor que lhe escureceu as faces,
era resultado do excessivo burburinho ou do rouge mal aplicado. De qualquer
maneira, o salão parecia mais ouvido. Não que isso tivesse feito alguma
diferença para a palestrante. Assim como o alcance de sua visão, há muito que
pouco lhe chegava aos ouvidos, nem mesma a sua própria voz ela conseguia,
seguramente, acompanhar. Nada disso a intimidou, nem quando ela disse, que
havia dedicado sua vida a educação e que essa era a sua vocação. Muitas outras
palmas seguiram sua fala. Ela sabia disso porque sentia que havia um certo deslocamento
no ar. Não daqueles que a deixavam enjoada, com ânsias, mas do outro tipo, que
parecia acender lugares há muito enregelados. Minha vida inteira dediquei ao
ensino, continuou, e hoje sou realizada por estar aqui, vendo meu trabalho
reconhecido. Quero agradecer a todos vocês que tornaram isso possível. E quero
desejar a vocês que hoje se formam um destino igualmente compromissado,
qualquer que seja o caminho escolhido. Foi minha fortuna servir como
professora. E desejo fortuna a todos vocês, porque ninguém vive sem partilhar. Recebo
essa homenagem com muito carinho e espero nunca esquecer esse dia. É isso que ainda me faz estar viva. Isso e o carinho dos meus ex-alunos. Se ela pudesse enxergar,
talvez desconfiasse do pipocar de luzes que vinham da plateia. Se ela tivesse
um smartphone e quiça soubesse o que era isso, talvez suspeitasse do efêmero de
todos os monumentos, quando sua imagem congelada se multiplicava em milhares de
retratos mundo afora, minha professora de infância#, tão querida#, me ensinou
os valores da vida#, inesquecível professora#, Dona Carmen, lúcida como no meu
tempo de menino#, Professora querida#, Foi minha professora, hoje é da minha
princesa#, amo#, Saudades eternas#, nunca esquecerei minha primeira
professora#, agradeço a professora carminha que me ensinou a ler#... O mestre
de cerimônias já se encaminhava para pegar o microfone, quando ela suspirou
profundamente e disse que queria, ainda, aproveitar a ocasião para agradecer em
especial a alguns ex-alunos, que ela não sabia se estariam na plateia, mas que
nunca a esqueceram. Agradeceu ao doutor João pelo ecocardiograma que ela não
pode pagar e pela receita genérica, que conseguia renovar mês após mês, na fila
da Pharmacia J. Um beijo no coração para a senhora Marluce, que havia lhe
deixado morar no quarto da Rua das Camélias. Os panetones que recebeu no natal, durante cinco anos seguidos, do senhor Arthur. Um agradecimento especial ao doutor Carlos, que havia
agilizado sua aposentadoria, depois de várias idas ao INSS, quando a cadastrou
como sitiante de alguma de suas terras. E, finalmente, a Eduarda, ex-aluna, tão
bonitinha, que sempre encenava, por causa do enroladinho negro dos seus cabelos,
a irmã má de Cinderela, nessa mesma escola, hoje professora e escritora, que
lhe dedicou o livro Ironias do feminino: vida que [não] merece ser vivida. Me despeço, então, com um Muito Obrigada.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Me abandone jamais
Ainda era menino moço quando tive minha mão prometida a ela. Da promessa feita, recebi, vindo de muito longe, uma fotografia três por quatro, uma carta desenhada por letras miúdas e cacheadas e um lenço manchado de batom, que no contraste com o pequeno do riscado, parecia maior do que qualquer outra boca já vista por mim.
Não sabia exatamente o que significavam aquelas ofertas nem tampouco o que viria a ser o prometido da coisa toda, mas isso não ocupava os meus tempos de mocidade. Gostava mesmo era do jogo de bila no quintal do vizinho, depois de uma chuva caída, quando a terra assentava igual cimento fresco, aguardando o escultor mais audacioso, modelando curvas, rampas, buracos, muros, como se o mundo pudesse ser desenhado e superado num tempo comum.
Nos dias de terra seca, quando o sol era o desafio maior, acendendo o mundo com a quentura do fogo, bom mesmo era quando vinha o vento por trás da serra de Seu José, espantando a brasa da pele, como se fosse o combustível perfeito para as pipas que eu e muitos dos meus amigos fazíamos com as riscas dos coqueiros, os papeis de presentes que pegávamos de nossas avós, colados com o sumo dos arbustos do sertão e empinadas com os carreteis emendados, pintassem os céus do colorido de todos os arco-íris. Nem sei porque lembrei disso tudo, pois a conta dessa memória é igual ao maior feito de um trancoso. Uma conta maior do que os trinta vezes trinta, quando os zeros não nos é familiar. Ainda assim, todo feliz, naquele sertão.
E quando nos trinta cheguei, já não tinha o tempo de me ocupar com o tido, talvez o ido, pois os marcadores já eram espaciais e ela vinha de viagem, prometida que estava por aqueles que por mim falavam. No dia que ela chegou, olhei de banda, na segunda melhor roupa que tinha, sapato engomado, bigode cerzido, perfume oleado. Reparei que ela era toda alinhada, cheirosa como cravo de rosa, bonita como uma pedra polida, viçosa como uma floresta encantada.
Todo tímido fiquei, olhei sem nem ver, sorri para dentro, fiz as mesuras todas e a promessa cumpri. Cumpri também de banda, do lado que nem era meu, com a melhor roupa que tinha. Tiraram fotos, fizeram brindes, jogaram rosas, nos deram casa, geladeira, fogão, cama, sofá e toalhas. Mas desde o primeiro dia, que eu a vi e que penso que ela me olhou, que fiquei desconfiado. Fiz como homem as mesmas coisas que sabia que tinha que fazer quando menino. Fiz assim de eito, tentando fazer certo, de jeito a não deixar faltar o pão de milho, a carne de toda semana e a conta de luz, muitas vezes atrasada.
Ocupado que estava, com as coisas por mim não prometidas, verguei sobre os dias todos. Foram semanas, meses, anos, com ela compartilhados, na labuta ferrenha, dos filhos já nascidos, das ressacas ressentidas, das traições permitidas, das rinhas envelhecidas, que depois de algumas taças vencidas, ela me olhou e cantou, quase numa rima antiga:
Eu venho de longe e do tempo
Que me prometeram
Não me disseram que seriam
Senhores do meu dia
Nem censores das minhas noites
E vim sem atinar nem nada
Mas quando lhe vi
De algodão bordado
Sandália trançada
Cigarro de palha
Pensei num mundo sem igual
Suspirei folgada
Tive os seus filhos todos
Lavei muita louça tão louca
Nem vi os dias passarem, apesar de conta-los todos
Acordei cedo, dormi cedo também
Afoguei meus calores no abanar de minhas saias
Tentei ser mais calma, mais rápida
Aprendi a ouvir suas biritas todas
E no dia seguinte, sem cor, botei meu batom vermelho
Funguei o vento de minhas deusas todas
E me despi das brincadeiras de menina
Quando me chegou pelo correio
Um pedido de promessa eterna
Acreditei na folha das postagens
E das rimas muitas vezes lidas
Outra vezes ouvidas
Dos amores cantados
E de velhas histórias de amor
Acreditei que escreveria a minha, que seria sua
Que seria nossa
Mas roubaram o que nem era meu
Tomaram a minha vida inteira
No dia mesmo do prometido
Como se eu pudesse pedir a um maestro
Podemos refazer de novo?
Como se a refazenda da vida
De hoje pra ontem
Me deixasse mais sábia ou quiça você
Nem hoje nem amanhã tampouco antes
Eu pudesse dizer
Não me abandone jamais
Ou pelos menos as cartas de outrem...
Quando me chegou sua foto, todo feliz
quando eu querendo
quando eu querendo
sertão menino.
Ouvindo assim, olhando para ela, quando a lua, combinou com um brilho qualquer, eu pudesse, no meu arfar, ser um outro, o outro possível para ela. O outro possível para mim. E, finalmente, a desejei.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Born to die
Naquela tarde quando me dei por
recebe-lo, fiz da minha vida um de tudo, sabedora do curto das horas. Sabia que
seria o tempo de uma garrafa de vinho de taças em par, uma tarde de jour. Claro
que havia duas garrafas a mais no armário da cozinha, só não desejava que minha
ansiedade pudesse ser comprovada no meu refrigerador, não com ele, que sempre
se fazia tão apressado, dizendo tenho duas horas.
Também queria ser assim, apressada.
Mas meu tempo era o de antigamente. Nas duas horas para ele, passava semanas
inteiras a pensar, hora e meia na manicure, cinco horas de faxina no meu apartamento,
duas horas na depiladora e o tempo que se gasta para se ter uma epifania sobre que
lingerie usar.
Se eu narrasse a tarde toda, você
poderia achar que sou afeita a esses encontros. Não é o caso. Só agora me
permiti. Minhas amigas, as de longa data, sabem do que estou falando. Sabem,
inclusive, que o tom dessa minha narrativa poderia ser cômico, como se apenas eu
pudesse rir de mim mesma. E apenas para mim e para elas, confesso.
Confesso que naquelas duas horas, do
momento em que ele tocou na minha campainha e chegou todo ligeiro, afoito numa
tarde de outubro, como se só tivesse me visto em fevereiro, tive receio de que
não me reconhecesse em maio, de que passasse pelo umbral da porta em julho,
cruzasse a ante sala em agosto e deitasse na minha cama em setembro, tivesse finda
as duas horas em novembro, quando o tempo se revelasse o de um ano inteiro.
Ije, disse, enquanto ele estava
sentado no meu sofá de algodão e passava uma mão por entre os seus cabelos,
enquanto a outra ocupava de segura-lo pelo queixo. Escolhi essa calcinha para
você.
Ele rapidamente se refez. Deu mais um
gole no vinho ainda frio. E me olhou profundamente, enquanto dizia, nunca a vi
tão bela, tão bela. Quero beijá-la até sentir seus lábios tremerem, como se ali
fosse um rosto, afogueado, de todo ardente, quando me disse infinitos ardores e
me declamou todos os fervores.
Seria assim minha narrativa, se fosse
por acaso publiciza-la.
Mais do
momento em que disse ije, depois da ante sala, no som de Born to die, que
comprei a duras penas, retruquei como se soubesse inglês,
Keep
making me laugh
Let's go get high
Road's long, we carry on
Try to have fun in the meantime.
Ele
nem ao menos ouviu ou me ouviu. Tampouco sabia inglês. Mas não era de todo
despido de sabedoria. Sob o fundo inglês, o algodão, a fábrica, riu gostoso e
indagou sobre o tempo, sobre as dobras, sobre as intensidades, fazendo do vinho
e da música o que nem eu sabia ser capaz.
Pegou
no nude da minha roupa intima e fez milhões de tricôs. Desse tricô, que brincou
como se fossem pelos púbicos, fez tranças. Das tranças que teceu, fez cordas,
que debaixo para cima, ia escalando, com se seus dentes a fincar as minhas
coxas, fosse a melhor aplicação do dry looling.
Enquanto
ele falava com minha lingerie, já desfigurada, posta de lado, disse para ela,
como ela era úmida, gostosa, farta, intumescida na mão e na boca, como uma
verdadeira buceta devia ser.
Eu
não sei o que sentir, nem ao menos o que dizer as minhas amigas. Senti que naquele
momento em que ele fez um monologo com ela, falava a mim e a todas depois de
mim, mais que eu queria que fosse sobretudo a mim. E como eu odiei as que
vieram depois de mim, odeie apenas, naquele momento único, em que ele me beijou
como se fosse a única buceta possível de tanta sede, como se minha buceta o
fartasse e não fosse tudo.
E,
talvez, numa tarde qualquer, quando eu quiser fuder, ligue pra ele, e diga,
você tem duas horas, venha e me coma, nem fale muito, só tenho duas horas. E estou
sem lingerie.
Da
ultima vez que publiquei, meu filho disse, pra um conto, você escreve muito
pouco, pra isso é excesso. E assim...
terça-feira, 25 de novembro de 2014
A volta dos que não foram
Como o herói da história que meu
avô sempre contava depois da ceia, ao meu pai, fui batizado Ulisses, filho de
Hércules, neto de Gideão. Meu avô gracejava sempre que a nossa estirpe era de
heróis, das que figuravam nas escrituras mais antigas, ainda que suas mãos mal
pegassem em lápis ou folhas, como se o que viesse antes do nosso vivido,
dependesse apenas de sua fala rápida, grávida de uma memória prodigiosa.
Meus antepassados, assim como eu,
desde cedo eram introduzidos nas lides da vida. Cresceram no trabalho com a
terra, sulcando aquele barro vermelho, que não apenas ocupava o vinco das
unhas, mas tomava conta da pele inteira. Sempre que eles despontavam, sob o pôr
do sol, no alcance dos olhos, vinham trigueiros, risonhos e vermelhos,
sobretudo, vermelhos, queimados do sol, banhados da terra, como se o corpo
deles fosse a extensão do que faziam entre o café com batatas, servidos ainda
com o canto dos galos, e a sopa de feijão de todos os fins de tarde.
Quando chegou o tempo que faria
parte dessa companhia, meu avô ainda era vivo. E se eu achava que ele era um
prosador de mesa cheia, descobri que as palavras eram mais abundantes do que as
sementes que eu tinha que jogar entre um sulco e outro daquele vermelhão sem
fim.
Assim como as tardes encarnadas,
vi minha pele se pintando em meio ao falatório do meu avô e ao ritmo das
enxadadas do meu pai. Curiosamente, meu pai não falava coisa alguma, quando
muito resmungava que havia ouvido, depois de ser chamado com atenção.
Logo, minha mãe, que nas poucas
horas que lhe sobrava das tardes de verão, se pegava no seu bem mais precioso
e se punha a costurar, ganhei de presente meu primeiro par de calças, dizendo, uma
roupa de gente grande, para aquele já tão crescido. Corri feliz como as
galinhas depois de um dia de debulhes e sobras. Senti que ali começariam as
minhas histórias e que eu semearia os que viriam de mim com o vivido de antes e
o vivido dali em diante, como se o tempo pudesse ser reto em sua sabedoria e a
minha vontade, de tão soberana, congelasse meus sonhos de menino a me alimentar
pela vida afora.
Mas a vida, essa sim, fica
bulindo nas nossas histórias. E quando ela falha, não tarda em dizer quem é que
manda. Um dia, meu avô viajou, como se a prosa fosse o pior dos amigos cobrando
usuras antigas, num tom zombeteiro da volta dos que não foram. E os dias na terra passaram a ser habitados
apenas pelo ritmado do meu pai, silencioso como só ele sabia ser.
Cada dia era mais longo do que o
outro. A batata que antes era colhida e cozida para anunciar a lide, parecia
triste, amarga, cheirando a ferro curtido de ferrugem. A sopa, que sempre
anunciara os risos, as pelejas, as fanfarras, minguara igual as bravatas do
velho herói.
Dei então pra me furtar do que
sempre havia conhecido. Peguei mulher, juntei barriga, dei para jogar,
desaprendi do ouvido, perdi dentes, fermentei o cereal plantado, cometi abusos
e fui abusado quando, então, pelas estradas me joguei.
Virei caixeiro, negociante,
marinheiro, cafetão, professor, mula, pesquei sereias, cacei baleias, fiz
filhos, tomei tragos, provei coisa que não era de homem macho e pelo mundo todo
fiz mil voltas, até me entontecer por inteiro.
Um dia, parado na janela de um
prédio alto, pensei sobre aquele mundo vagalume e para onde ainda me
levaria, que milhões de novas coisas botaria em minha conta, quando me peguei lembrando
de uma das histórias do meu avô, quase como se eu pudesse ouvi-lo, me chamando
de novo para sentar em nossa mesa.
Essa história é a história de um
grande guerreiro. Ele era forte como o touro escolhido pros cruzamentos. Ágil
como guinés nas manhãs de um sábado de festa. Fértil como ele só, era pai de
uma dezena de meninos. Tinha uma mulher que era linda que só ela. Um dia
chamaram ele para apartar uma briga de vizinhos que viviam trocando tiros e
injúrias. Lá das terras do alto da serra. E ele foi, foi com seus filhos mais
velhos, já todos burregos grandes, como se fosse o general do exército francês. O caminho
foi tão longe que no meio já não tinha carne seca nem pó para o café. Mas eles não
voltaram atrás no prometido, o tamanho do herói era o tamanho da palavra dada. Sua
mulher não tinha gostado dessa aventura, sabia que o tempo que ele havia dito
que estaria em cima daquela serra, seria mais alto que ela estava disposta a
esperar.
Os filhos que com ele foram,
fincaram casas pelo caminho, casaram e hastearam bandeiras mundo afora, como se
o caminho de ida e de vinda, deixasse de ser uma reta. Eles ali prosperaram,
desbravam mato, fizeram fazenda, uns criaram gado, outros descobriram ouro. E de
lá, de onde tiveram parada, mandaram presentes para sua mãe. Nunca faltou nada
a ela, nada que ela não gostasse de comer e de vestir. A fartura chegava a ser
tanta, que os vizinhos, vira e mexe, iam se empanturrar por lá. Tinha uns que levavam
violas, outros sanfonas, sem falar nos zabumbeiros. Muitas das músicas que
eram tocadas nos forrós improvisados, como se cada um dos dançantes já não soubesse
dos dias que eram o das festas, falavam das histórias do grande herói. Já sabiam
até como ele deu fim à guerra tão grande foi o sucesso de findar a peleja. Mas
ninguém sabia onde danado ele estava.
Tinha até um concurso de adivinhação para dizer o dia que ele voltava. Parecia até que tinham dado destino nele até que ele voltou, porque o que faz um grande herói é a hora de ir e a hora de voltar sem perder a própria palavra, pois mesmo quando dá uma coisa dentro da gente, de sair mundo afora e ganhar todas as batalhas, se aprende que a paz não só se ganha com a guerra.
Tinha até um concurso de adivinhação para dizer o dia que ele voltava. Parecia até que tinham dado destino nele até que ele voltou, porque o que faz um grande herói é a hora de ir e a hora de voltar sem perder a própria palavra, pois mesmo quando dá uma coisa dentro da gente, de sair mundo afora e ganhar todas as batalhas, se aprende que a paz não só se ganha com a guerra.
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