sexta-feira, 26 de julho de 2019

EMA E BABY: MANIFESTO CANINO



Na animalidade que nos habita, existe um furor que desafia a letargia. Somos jovens, não daquela juventude transviada (AINDA QUE A MULTIDÃO QUEER NOS REPRESENTE). Somos as caçulas de uma multidão. Ema diz, estrou a trocar meus dentes, então desconfie das minhas banguelices. Babe está cagando e andando para tudo isso, foi ouvido treinado em Cazuza. São duas jovens pessoas. Em constante conflito com outras gerações. No karaokê que nos convidaram, perto de casa, coisa de bairro, fomos juntas. Alegres e infelizes. Sem fala, com voz, nos fizemos presentes, entoando as músicas que antes eram máquinas de guerra. Chico, Mutantes, Jorge, Caetano, quando o nome era Gal. Não sei de vocês que se dizem humanos, mas na nossa carga genética, por mais que Ferreira Gullar, depois de tão belas poesias, disse que nós bichos não temos memória, quiça ele, a histórica, carregamos em cada pelo ou nos próprios ossos uma memória que poderia ser ancestral, se não tivéssemos sido domesticados. Somos docilizadas, é só ouvir um EPA, que paramos e escutamos. Não necessariamente obedecemos. Fomos historicamente treinadas para servir. Balançar o rabo, a raba, latir em uníssono quando assim for propício, comer, dormir e lamber. Mas no nosso lugar de PESSOA, vejo no outro (essa figura pode ler como universal), latidos sem fim, fins sem latidos. Não reconhecemos na nossa espécie essa lataria sem nada dizer. E assim estamos a perscrutar e a responder a todos aqueles que não reconhecemos como outros de nós, a vociferar falas feitas, como a pior das cantadas. Que nos perdoem os vizinhos, ou que se fodam todos eles. Que se fodam os fardados que invadem com seus fuzis as reuniões de professores, somos filhas delas. Que se fodam os ministros que cogitam sermos todos uteis imbecis, que cachorras como somos, não reconhecem o gaguejar dos papagaios. Que se fodam aqueles que negociam, feito armas, a nossa democracia. Que se fodam aqueles e aquelas que encontramos no nosso petshop, dizendo amém ao herói que vai usurpar a nação. Que se foda esse tempo distópico, nem a nós nos pertencia, nos colocaram numa vertigem, que do presente que comemos nossa ração, ela já virou futuro de merda, saí como tempo sólido, nada liquido, enquanto que no passado enterramos nossos vermes, ou deixamos para outros fazerem. Esses sim, fazem com maestria, sem sentir cheiro ou fedor, porque ignoram. Nessa conversa, feita na imagem mostrada, abrimos mão da igreja, de deus e do diabo, para poder dizer, quem quer foder somos nós, que vocês, que a tudo são responsáveis, como disse uma amiga, só lhes restam um catimbó feminista: QUE VOCÊS NUNCA FODAM NA VIDA. Porque a nossa resistência é o deleite, é o prazer, é morder a orelha uma da outra, é fazer roçadinho, é ser tríbade na vida, é compartilhar sorrisos, microfones, drinks e outras coisinhas mais. É SER FELIZ. Isso nunca há de ser capturado, pois é fluxo, de pernas entre pernas, de patas nas patas, de lambe lambe, de furores e ardores. Do reconhecimento de nossa diferença, de nossa animalidade, de nossos muitos. Enquanto vocês são um só, uma horda, feita de ódio, feita de escroto-esgoto, feita... como são feitas as coisas mais banais, daquelas com pés, cabeças, máscaras e sussurros. VOCES SÃO A METÁFORA MAIS ÓBVIA DO TWD: OS SUSSURADORES. E nós, cadelas, que somos, não sussurramos, mais latimos, em manada, a nossa própria potência-singularidade: CACHORRAS E CÃES DO MUNDO TUDO, UNIVO-NOS. SEJAMOS TODAS PESSOAS.

domingo, 9 de junho de 2019

ESTUPRO


Meu nome é Ema. Ema de Elisa Mariana e de Alyere. Tenho em mim os nomes das minhas ancestrais todas. Nem queria esse peso todo. Muito responsa. Sou bem pequena, orelhas magras e costelas também. Quem me nomeou já me rejeitou. Antes da rejeição, já era cachorra do mundo, resto ali, resto aqui, era assim que me resolvia. Parece coisa de cachorra mal amado. Porque em nenhuma hipótese, diria cachorra mal amada. Sou feminista, me fazendo feminista, mas só tenho cinco meses, pouca leitura, parca informação, e excesso de falatório. Vi que no zap de uma das minhas mães, houve uma mensagem relâmpago, tonitruante, dessas que parecem aparecer por si só. Um pequeno jogador, coitado dele, fino, perna torta, desses que quando entram em campo, só caem. Eu sou cachorra, dessas de esquina de rua, que de dois em dois dias comia um resto qualquer. Aliás, de semana em semana, porque bar de ralé não tem capital de giro, não tem os dias todos, eu só comia final de semana, principalmente, nos dias de crossfit, porque em Aldeia, lá onde me abandonaram, era evento fim de semana sim, final de semana não. Me perdoem, não sou eu o caso. O caso é do pobre menino, chuteira reluzente, cabelo o ó (ainda não tenho pelos para mensurar), filho menino pai de um menino só, chorei como se chora aqueles que foram desabonadas igual a mim. Não sei bem o que é a França, tampouco o que é o francês. Nem me atreveria a ir ali. Vim de Pernambuco à Paraíba. Sou fêmea. Sou mulher. Das minhas memórias, todas elas, dos dias que nas ruas vivi, tive promessas de carne a mais, de um abano na rolha que nem sabia o que era, passagens pra fora sem custo nenhum. Antes de Aly e Elisa, fui. Fui, sassaricada, pensando numa vida melhor, um pouco de ração, uma coisa qualquer. Me levaram pra casa, me deixaram um cobertor, uma conta no hotel, um espaço exíguo (nem sabia desse teor da palavra, acabei de aprender), me excitei com tanta novidade, e fiquei a esperar o príncipe dos contos de fadas a tornar isso tudo possível. Ele veio de bucho farto, com a melhor das rações, veio até tonto, como tonto só ficavam os meus amigos que só comiam de semana a semana, ele veio farto, tonto, inebriado. Achei que teria um flerte, já tínhamos combinados isso, mas ele não quis.  Ele fez de mim o que os pais, os tios e os avos fazem com os que sabem. Ele fez de mim o que os maridos, os mais velhos, vocês, fazem de mim. Ele me tornou carne comida, carne acessível, carne fragilizada. Me fez mentir, me fez ficar entontecida (como falar num país onde não sei a língua), me expos (como posso combater a máquina midiática capitalista?).

Ele me bateu, me massacrou, me ESTUPROU, PORQUE EU DISSE NÃO, EU DISSE NÃO, EU DISSE NÃO, EU DISSE NÃO. Que porra de mundo é esse que o não é não.

Eu poderia parar aqui. Mas as minhas orelhas de cachorra de fazem ouvir os mil gemidos. De todas elas, de todas nós, de tanto tempo. Quando somos tão muitas. Pq isso acontece? Onde estão vocês, irmãs minhas? Somos tantas e não precisamos estar sozinhas, nem vc q é violentada pela sua mãe, pelo seu pai, pelo seu filho, uma trindade qualquer.

Eu, Ema, cachorra que sou, estou nas sociologias. Aprendi um monte, tô trocando meus dentes, a vontade de morder, é enlouquecedora, mas já aprendi que NÃO É NÃO.

E eu escrevo isso dedo a dedo no teclado, pois sei que do meu corpo, eu cachorra, carne mulher, só posso chorar.

Mas do dia que chorei, renasci. Não estou sozinha. Esse é só o final do primeiro tempo. #lute como uma garota. Eu já sou loba, mas estou aí. Aqui.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A Ema que gemeu, no tronco da Aldeia


Eu sou Ema. Agora sou Ema. Imaginei de início que era aquela que gemia. No tronco de uma juremá. Nem dos acentos ou das ruminagens humanas sou afeita. Ainda bebê. Será que agora acertei a gramática correta? Pouco importa / fui trazida, meio viva, meio morta. Ainda estou a me estabelecer. Sei apenas que me engasgarei com as mil drogas que nos foram feitas para uma doença de um peçonhento qualquer. Estou diagnosticada com a doença do carrapato. Isso é até o de menos. Sou a única da minha espécie. Uma vira-lata, um vira-lixo, numa casa de de outros que não são da minha espécie, cheio de fruti frutis e banhos semanais. Me perdoem, mas nem tanto, das apresentações de pedigree, das origens dantescas, das verves nem sempre adequadas. Do meu viver vira vira vira vira, alguma coisa de sangue latino, cheguei morta, mortinha da silva, mortinha de fome, mortinha de dor. Não serei o lamento das crônicas de Nihal, tampouco das poesias de Zoe, da minha vida, que esperavam ter apenas dois meses, a moça das vestes brancas, pelas presas que já estou trocando, disse logo: cinco meses. Vocês human@s não sabem, mas a contagem da nossa vida é outra. Da gota a gata que recebi, numa injeção em agulhas, me alimentei de coco, de toda uma parafernália de uma farmocopornografia que deve tornar alguns mais ricos, mas que sei agora que tornam também alguns trabalhadores empregados. Não que eles lucrem com algum vira-lixo, mas os subalternos estão lá a nos medicar. São aqueles que ficam dia a dia, horas a horas, em pé, nos nichos dos passarinhos outros. Emplumados, cães impecáveis, gatos flopudos, e eu ali, pernas, pescoço e orelhas. Nunca achei que viraria muito, que do lixo que vim, do lixo voltaria, simplesmente estava a existir. Vi meu couro ser alfinetado, sangue colhido, líquido maldito a adentrar, doendo feito ferro e fogo, não conseguia engolir, tampouco comer. Não tenho currículo em Harvard, tampouco aprendi as primeiras letras, fui hostilizada pelos que seriam, aparentemente os da minha espécie, cachorras como eu, vomitei horrores, caguei as mais estalógicas das merdas (mas sou doente, tenho essa desculpa), e isso só faz uma semana. Li os textos do gato Nihal e suas prosas, da gata Zoe e suas parcas poesias, ouvi daquelas que me acolheram, lá de Aldeia, longe pra caramba, pra onde vim, agora aprendendo a ser paraibana, com o rabo fino igual meu bucho, no dia que comi ração, quando superei a rainha do norte, Sansa-carceriana, Cora, que de Lina nunca teve a suavidade, Babe, cachorra-gato ressuscitada, um canto na orelha de Aly e de Elisa. Estou no meio delas. Separo a cama das duas. A cama é grande, sei que terei mais três irmãos. Existe um caber? A partir dessa inquietação, decidi ser socióloga. Sou pequena, só tenho couro e o osso, mas (ou mais?) li a primeira das dissertações sobre Viva o povo brasileiro, acho que era de uma baiano, que falava dos canibais que preferiam as carnes holandesas, de quando eu me refestelava de uma sobra qualquer, num bar que tinha por nome Piratas. Nesse mesmo trabalho ou num livro que estava na cabeceira da cama, soube, não por ouvir dizer, mas das leituras literárias que são feitas nessa minha nova morada, que o tráfico negreiro, institucionalmente corroborado pelas mais altas instituições, preferiam dar sua cota aos piratas (pia o nome do bar que me acharam), às alíquotas de imposto de um Império, o único deles, entre todas as experiências históricas, que fez das suas colônias, o seu centro e das carnes consideradas des-humanas a sua fortuna. Assim, nesse texto autoficcional, digo de pronto meu projeto, todo fino (ou findo) do meu rabo em equilíbrio com minhas costelas: enquanto existir vida em mim, pouca ela que seja, estou na resistência, porque já cheguei trocando as presas ( portanto tenho cinco meses), e estou a resistir sobre a minha própria vida. Uma vida que só tem pungência no meu coletivo. Somos tod@s espécies.
Ps. Minha voz ainda está rouca de tanta medicação: Eu sou Ema, ainda secundarista. Serei das sociologias, das histórias, quem sabe das letras. — com Viviane Moraes

sábado, 20 de janeiro de 2018

(R)espirais


Ela chegou vinda do ontem, lá das terras baixas. Veio, talvez toda inteira, dizendo estar em missão.

Ele não compreendeu de todo, mas a recebeu todo entendido. Na primeira saída, quando pensou que a levava, errou os caminhos todos. Saiu parando, à espera de estranhos, que pudessem indicar uma rota qualquer. Pela direita de quem vinha, puxou a direção à esquerda, sabedor de que na espiral das geografias, não se perderia, voltaria ao mesmo ponto, o ponto zero.

Ela disse ter poderes.

Ele acreditou.

Ela sacou de sua bolsa unguentos dos mais variados. Secos, suaves, com cor de pele bronzeada, ardidos, apressados. Desse seu matulão, não se viam pássaros mortos ou coelhos de cachola. De lá, espiando de cá, percebia pequenos fogos de purpurina.

Ele não sabia que magia era aquela. Era desses que só levava o que lhe cabia nos bolsos das calças, quando as calças resolviam vestir seu corpo, então todo rasgado e arroxeado.

Ela passou o cravo no arranhão das mãos, a pomada lhe foi aplicada nas quedas das pernas, o perfume, do qual não sabia distinguir uma nota qualquer, foi-lhe massageado nos seus cabelos-barba.

Ele pensou que a missão estava finda. Que o círculo de suas feridas havia sido cuidado. Ledo. Daí, seu engano. Quiçá seu espanto, pois d´ela, que lhe dizia ser bruxa, um oleado foi aplicado.

Ela aplicou soprando em sua boca.

Ele sentiu o azeitamento. Sentiu que aquele tratamento não deixaria pegajosa sua pele, pois fora aplicada no dentro.

Ela assim sorriu. Disse ter chegado a hora e se foi. Missões outras?! Que seja, toda bem-vinda. Sempre à esquerda, ele pensou, como um anel, desenhado na pele e na madeira, sinalizando um eterno espiral.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma letra


Ele andava faminto pelas querelas próprias da vida que não escolhera. Seu nome era Chico Feixo. Chico tinha no seu corpo a paisagem de uma seca. Para quem o via, não, todo fornido, delineado, fofo, diziam uns e outros.

Mas Chico só sentia as pontadas agudas nas suas costelas, como se ali tivesse um infante de oito meses. Quando deitava, suas pernas e outros membros, sentindo tão descarnados, doíam quando o choque entre seus lados, tentava repousar nas camas mais macias. E assim, se Chico não fosse tão imerso numa quietude tão própria, poderíamos ouvir, quem sabe, impropérios, daqueles ressentidos, desgarrados, dignos de galinhas e guinés.

Um dia desses, nem tem tanto tempo, Chico que se achava tão sem dono de vida, remoendo desastres que se imputava, ouviu que era preciso ir, ainda sem saber de onde era.

Chico arrumou o que ainda lhe parecia indispensável, colocando numa sacola qualquer, um par de cuecas, calças, sapatos, camisetas e foi ter. Saiu sem rodas, caminhando, sabendo que a cada instante, a única urgência era que um pé seguisse o outro. Uma passada por vez. Foi desse modelo que se viu viajante.

Alguns dias, dormia embaixo de uma mangueira, bananeira, jambeiro, dormia céu aberto,vendo suas manhãs raiarem, ainda como sua passada. Uma raiada por vez.

Chico conheceu Maria, tomou café com José, com Fernando experimentou um trago. Mariana lhe fez amor. Cecília rezou-lhe com um ramo. O menino João lhe fez um retrato. Conheceu muitos. Nessa medida, se desconheceu. Percebeu que os caminhos, ruelas, terraços, palhoças eram muitas e estavam ali.

A passada de Chico começou a ter um ritmo próprio, ora galopante, ora arrastado, pois seus pés já tinham adquirido a sabedoria que um não precisa ser lembrado de ir junto ao seu outro.

Dizem que Chico agora danou-se pro sertão, pra mata, para as chapadas, canaviais, ribanceiras e até para as selvas de pedras. De tanto andar, seu corpo ficou esquio, amadeirado, perdendo a fofura que lhe era atribuída pelos alheios. Que, por fim, virou um feixe das varas que recolheu pelas suas andanças.

Mesmo os ventos mais fogosos e insistentes que, ocasionalmente, tentavam vergar o Chico Feixe, ele balançava, sem abrir mão de com isso, criar novas danças, que também passaram a embalar suas dormidas. Foi na expansão, construindo sua mansidão.

Afinal, uma letra pode ser tudo, às vezes, nada.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

das perdas e ganhos


Ela perdeu a si, perdeu seu amor, seus bichanos, seus óculos. Sobretudo, a matéria inorgânica que lhe dava a impressão de tudo ver. Ou ouvir, quando a reminiscência das melhores lembranças e suas canções singelas e ardentes ainda embalavam seus cabelos e deixava entrever seus dentes, em meios sorrisos.

Quando perdeu a si, se viu paralisada. Sua cama era seu universo. Do seu quarto, uma grande janela engradada deixava aos passantes alheios imagens de encarceramentos. Mas era daquele retrato fissurado, repartido por linhas de ferro, que ainda a permitia paisagens para além de sua galáxia íntima, prenhe de super novas e grandes buracos negros.

Largou mão dos banhos diários, não que fosse um grande sacrifício, deixou de ouvir os barulhos das ondas do mar, de degustar o amarelo e suas espumas refrescantes, andando duro, encastelada, com seus cabelos raspados.

Nos dias que se via obrigada a procurar psiquiatras, xamãs, rezas, terapias, beberagens, ia com um corpo trêmulo, ia não indo, indo não ia.

E foram horas, dias, meses... Com uma tremedeira de cão, quando os outros comemoram suas festividades, suando o céu com seus rojões.

O vermelho rebu já não pintava seus dias, suas mãos já não tinham anéis e a caveira que adornava seu pescoço torou.

Era um bicho tóxico, contaminado, empoeirado, tornado velho, tornado manada, cuja pele e carne se putrefava.

Um dia, uma leva de urubus a viram, passaram pelas suas grades e abocanharam seus restos. Depois que se refestelaram, voaram saciados, ainda famintos.


Assim, ela voou com eles, deixando-se ir. E sua cama ficou vazia, só com as marcas-fluidos de outrora.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FARTA!!!



Pra gente dar vida, precisa de morrer um pouco. É, foi desse modelo. Nasci com um sinal na testa, igual ao das matriarcas que não eram desejadas. Nasci sob o signo da infâmia. Era, sobretudo, pobre, muito pobre, dessas quando a tarde descansa, na hora da reunião ao redor da mesa, quando só tinha a tapera, a esteira, sem nenhuma cadeira, o tanto que daquele dia era possível de partilhar.

Do pouco que possuíam, como é que era costume dizer?, - a família que come unida, permanece unida. Só faltava o tabuleiro de quatro pernas, quiçá a comida.

Dessas pequenas porções, eles foram se fazendo. Se faziam do mingau de farinha, açúcar e água. Do angu, quando a terra seca, depois de tanto trabalho, deixava brotar o milho. Poderia ser uma história de São João e seus brotos, mas não era o caso. Esse era o conto de todos os dias, quando, apesar do minguado, estariam todos de buchos cheios.

O caso era de fome. Mas as fomes eram de tantos e tantas eram as fomes. Fome de ouvido, de letras, de feijão, de saber, só não fome de amor ou alegria. Mas a fome farta, ainda que a fome de um não sacie as outras. E você? Tem fome de quê?

Eu apenas sei que não sinto fome daquilo que nunca tive, tampouco do que vi em fotografia ou ouvi em versos. A ausência do sabor conhecido é impossível, porque é necessário a vivência.

Pois bem, foi assim que a abracei, quando minha aluna chegou me apertando os braços dizendo, - professora, tenho fome, - me abrace, - preciso de um pouco de sua energia, - já não como há dois dias. Eu a retive em meus braços e lhe dei minha memória, sabedora de que daquela pequena morte, mortificada ela, mortificada eu, pudemos, simplesmente, viver aquela experiência. Eu a acolhendo e lhe dando um lugar à minha mesa.

Estou farta, quisera ninguém se sentisse assim