Hoje
estou velha, muito velha. Começou assim seu discurso como paraninfa da última
turma de formandos daquela escola de freiras em que tinha ensinado mais de meio
século, estudado uma década. Muitos de vocês estão me vendo em carne viva pela
primeira vez, mas sou aquela cujo retrato está pendurado no bebedouro do
corredor do Lado B, por isso posso dizer que estou aqui uma vida inteira. Talvez
os que lhe pariram, ou os que pariram os que lhe pariram, tenham me conhecido
nos tempos em que a lousa e eu erámos amigas inseparáveis. Hoje mal posso
segurar minhas notas, tampouco posso me furtar delas e confiar na minha
memória. O salão, lindamente decorado, flores, arranjos, toalhas de linho, os
perfumes mais variados, não parecia tão atento e, assim, ela sentiu que estava
em casa. Não posso mensurar o que significou para mim esse convite. Desde que o
recebi, que escrevo poesia e leio filosofia, que voltei a ouvir música e a
pintar aquarelas, que penso no que poderia dizer a tantos jovens que estão a se
formar. Reconheço muitos dos que aqui estão. Vejo médicos, advogados,
políticos, padres, gente distinta, alguns executivos, e sinto que contribui
para isso. Nisso, uma salva de palmas vinda do lado esquerdo, puxou uma
verdadeira ovação. Não sabemos se o repentino rubor que lhe escureceu as faces,
era resultado do excessivo burburinho ou do rouge mal aplicado. De qualquer
maneira, o salão parecia mais ouvido. Não que isso tivesse feito alguma
diferença para a palestrante. Assim como o alcance de sua visão, há muito que
pouco lhe chegava aos ouvidos, nem mesma a sua própria voz ela conseguia,
seguramente, acompanhar. Nada disso a intimidou, nem quando ela disse, que
havia dedicado sua vida a educação e que essa era a sua vocação. Muitas outras
palmas seguiram sua fala. Ela sabia disso porque sentia que havia um certo deslocamento
no ar. Não daqueles que a deixavam enjoada, com ânsias, mas do outro tipo, que
parecia acender lugares há muito enregelados. Minha vida inteira dediquei ao
ensino, continuou, e hoje sou realizada por estar aqui, vendo meu trabalho
reconhecido. Quero agradecer a todos vocês que tornaram isso possível. E quero
desejar a vocês que hoje se formam um destino igualmente compromissado,
qualquer que seja o caminho escolhido. Foi minha fortuna servir como
professora. E desejo fortuna a todos vocês, porque ninguém vive sem partilhar. Recebo
essa homenagem com muito carinho e espero nunca esquecer esse dia. É isso que ainda me faz estar viva. Isso e o carinho dos meus ex-alunos. Se ela pudesse enxergar,
talvez desconfiasse do pipocar de luzes que vinham da plateia. Se ela tivesse
um smartphone e quiça soubesse o que era isso, talvez suspeitasse do efêmero de
todos os monumentos, quando sua imagem congelada se multiplicava em milhares de
retratos mundo afora, minha professora de infância#, tão querida#, me ensinou
os valores da vida#, inesquecível professora#, Dona Carmen, lúcida como no meu
tempo de menino#, Professora querida#, Foi minha professora, hoje é da minha
princesa#, amo#, Saudades eternas#, nunca esquecerei minha primeira
professora#, agradeço a professora carminha que me ensinou a ler#... O mestre
de cerimônias já se encaminhava para pegar o microfone, quando ela suspirou
profundamente e disse que queria, ainda, aproveitar a ocasião para agradecer em
especial a alguns ex-alunos, que ela não sabia se estariam na plateia, mas que
nunca a esqueceram. Agradeceu ao doutor João pelo ecocardiograma que ela não
pode pagar e pela receita genérica, que conseguia renovar mês após mês, na fila
da Pharmacia J. Um beijo no coração para a senhora Marluce, que havia lhe
deixado morar no quarto da Rua das Camélias. Os panetones que recebeu no natal, durante cinco anos seguidos, do senhor Arthur. Um agradecimento especial ao doutor Carlos, que havia
agilizado sua aposentadoria, depois de várias idas ao INSS, quando a cadastrou
como sitiante de alguma de suas terras. E, finalmente, a Eduarda, ex-aluna, tão
bonitinha, que sempre encenava, por causa do enroladinho negro dos seus cabelos,
a irmã má de Cinderela, nessa mesma escola, hoje professora e escritora, que
lhe dedicou o livro Ironias do feminino: vida que [não] merece ser vivida. Me despeço, então, com um Muito Obrigada.
sábado, 7 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Me abandone jamais
Ainda era menino moço quando tive minha mão prometida a ela. Da promessa feita, recebi, vindo de muito longe, uma fotografia três por quatro, uma carta desenhada por letras miúdas e cacheadas e um lenço manchado de batom, que no contraste com o pequeno do riscado, parecia maior do que qualquer outra boca já vista por mim.
Não sabia exatamente o que significavam aquelas ofertas nem tampouco o que viria a ser o prometido da coisa toda, mas isso não ocupava os meus tempos de mocidade. Gostava mesmo era do jogo de bila no quintal do vizinho, depois de uma chuva caída, quando a terra assentava igual cimento fresco, aguardando o escultor mais audacioso, modelando curvas, rampas, buracos, muros, como se o mundo pudesse ser desenhado e superado num tempo comum.
Nos dias de terra seca, quando o sol era o desafio maior, acendendo o mundo com a quentura do fogo, bom mesmo era quando vinha o vento por trás da serra de Seu José, espantando a brasa da pele, como se fosse o combustível perfeito para as pipas que eu e muitos dos meus amigos fazíamos com as riscas dos coqueiros, os papeis de presentes que pegávamos de nossas avós, colados com o sumo dos arbustos do sertão e empinadas com os carreteis emendados, pintassem os céus do colorido de todos os arco-íris. Nem sei porque lembrei disso tudo, pois a conta dessa memória é igual ao maior feito de um trancoso. Uma conta maior do que os trinta vezes trinta, quando os zeros não nos é familiar. Ainda assim, todo feliz, naquele sertão.
E quando nos trinta cheguei, já não tinha o tempo de me ocupar com o tido, talvez o ido, pois os marcadores já eram espaciais e ela vinha de viagem, prometida que estava por aqueles que por mim falavam. No dia que ela chegou, olhei de banda, na segunda melhor roupa que tinha, sapato engomado, bigode cerzido, perfume oleado. Reparei que ela era toda alinhada, cheirosa como cravo de rosa, bonita como uma pedra polida, viçosa como uma floresta encantada.
Todo tímido fiquei, olhei sem nem ver, sorri para dentro, fiz as mesuras todas e a promessa cumpri. Cumpri também de banda, do lado que nem era meu, com a melhor roupa que tinha. Tiraram fotos, fizeram brindes, jogaram rosas, nos deram casa, geladeira, fogão, cama, sofá e toalhas. Mas desde o primeiro dia, que eu a vi e que penso que ela me olhou, que fiquei desconfiado. Fiz como homem as mesmas coisas que sabia que tinha que fazer quando menino. Fiz assim de eito, tentando fazer certo, de jeito a não deixar faltar o pão de milho, a carne de toda semana e a conta de luz, muitas vezes atrasada.
Ocupado que estava, com as coisas por mim não prometidas, verguei sobre os dias todos. Foram semanas, meses, anos, com ela compartilhados, na labuta ferrenha, dos filhos já nascidos, das ressacas ressentidas, das traições permitidas, das rinhas envelhecidas, que depois de algumas taças vencidas, ela me olhou e cantou, quase numa rima antiga:
Eu venho de longe e do tempo
Que me prometeram
Não me disseram que seriam
Senhores do meu dia
Nem censores das minhas noites
E vim sem atinar nem nada
Mas quando lhe vi
De algodão bordado
Sandália trançada
Cigarro de palha
Pensei num mundo sem igual
Suspirei folgada
Tive os seus filhos todos
Lavei muita louça tão louca
Nem vi os dias passarem, apesar de conta-los todos
Acordei cedo, dormi cedo também
Afoguei meus calores no abanar de minhas saias
Tentei ser mais calma, mais rápida
Aprendi a ouvir suas biritas todas
E no dia seguinte, sem cor, botei meu batom vermelho
Funguei o vento de minhas deusas todas
E me despi das brincadeiras de menina
Quando me chegou pelo correio
Um pedido de promessa eterna
Acreditei na folha das postagens
E das rimas muitas vezes lidas
Outra vezes ouvidas
Dos amores cantados
E de velhas histórias de amor
Acreditei que escreveria a minha, que seria sua
Que seria nossa
Mas roubaram o que nem era meu
Tomaram a minha vida inteira
No dia mesmo do prometido
Como se eu pudesse pedir a um maestro
Podemos refazer de novo?
Como se a refazenda da vida
De hoje pra ontem
Me deixasse mais sábia ou quiça você
Nem hoje nem amanhã tampouco antes
Eu pudesse dizer
Não me abandone jamais
Ou pelos menos as cartas de outrem...
Quando me chegou sua foto, todo feliz
quando eu querendo
quando eu querendo
sertão menino.
Ouvindo assim, olhando para ela, quando a lua, combinou com um brilho qualquer, eu pudesse, no meu arfar, ser um outro, o outro possível para ela. O outro possível para mim. E, finalmente, a desejei.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Born to die
Naquela tarde quando me dei por
recebe-lo, fiz da minha vida um de tudo, sabedora do curto das horas. Sabia que
seria o tempo de uma garrafa de vinho de taças em par, uma tarde de jour. Claro
que havia duas garrafas a mais no armário da cozinha, só não desejava que minha
ansiedade pudesse ser comprovada no meu refrigerador, não com ele, que sempre
se fazia tão apressado, dizendo tenho duas horas.
Também queria ser assim, apressada.
Mas meu tempo era o de antigamente. Nas duas horas para ele, passava semanas
inteiras a pensar, hora e meia na manicure, cinco horas de faxina no meu apartamento,
duas horas na depiladora e o tempo que se gasta para se ter uma epifania sobre que
lingerie usar.
Se eu narrasse a tarde toda, você
poderia achar que sou afeita a esses encontros. Não é o caso. Só agora me
permiti. Minhas amigas, as de longa data, sabem do que estou falando. Sabem,
inclusive, que o tom dessa minha narrativa poderia ser cômico, como se apenas eu
pudesse rir de mim mesma. E apenas para mim e para elas, confesso.
Confesso que naquelas duas horas, do
momento em que ele tocou na minha campainha e chegou todo ligeiro, afoito numa
tarde de outubro, como se só tivesse me visto em fevereiro, tive receio de que
não me reconhecesse em maio, de que passasse pelo umbral da porta em julho,
cruzasse a ante sala em agosto e deitasse na minha cama em setembro, tivesse finda
as duas horas em novembro, quando o tempo se revelasse o de um ano inteiro.
Ije, disse, enquanto ele estava
sentado no meu sofá de algodão e passava uma mão por entre os seus cabelos,
enquanto a outra ocupava de segura-lo pelo queixo. Escolhi essa calcinha para
você.
Ele rapidamente se refez. Deu mais um
gole no vinho ainda frio. E me olhou profundamente, enquanto dizia, nunca a vi
tão bela, tão bela. Quero beijá-la até sentir seus lábios tremerem, como se ali
fosse um rosto, afogueado, de todo ardente, quando me disse infinitos ardores e
me declamou todos os fervores.
Seria assim minha narrativa, se fosse
por acaso publiciza-la.
Mais do
momento em que disse ije, depois da ante sala, no som de Born to die, que
comprei a duras penas, retruquei como se soubesse inglês,
Keep
making me laugh
Let's go get high
Road's long, we carry on
Try to have fun in the meantime.
Ele
nem ao menos ouviu ou me ouviu. Tampouco sabia inglês. Mas não era de todo
despido de sabedoria. Sob o fundo inglês, o algodão, a fábrica, riu gostoso e
indagou sobre o tempo, sobre as dobras, sobre as intensidades, fazendo do vinho
e da música o que nem eu sabia ser capaz.
Pegou
no nude da minha roupa intima e fez milhões de tricôs. Desse tricô, que brincou
como se fossem pelos púbicos, fez tranças. Das tranças que teceu, fez cordas,
que debaixo para cima, ia escalando, com se seus dentes a fincar as minhas
coxas, fosse a melhor aplicação do dry looling.
Enquanto
ele falava com minha lingerie, já desfigurada, posta de lado, disse para ela,
como ela era úmida, gostosa, farta, intumescida na mão e na boca, como uma
verdadeira buceta devia ser.
Eu
não sei o que sentir, nem ao menos o que dizer as minhas amigas. Senti que naquele
momento em que ele fez um monologo com ela, falava a mim e a todas depois de
mim, mais que eu queria que fosse sobretudo a mim. E como eu odiei as que
vieram depois de mim, odeie apenas, naquele momento único, em que ele me beijou
como se fosse a única buceta possível de tanta sede, como se minha buceta o
fartasse e não fosse tudo.
E,
talvez, numa tarde qualquer, quando eu quiser fuder, ligue pra ele, e diga,
você tem duas horas, venha e me coma, nem fale muito, só tenho duas horas. E estou
sem lingerie.
Da
ultima vez que publiquei, meu filho disse, pra um conto, você escreve muito
pouco, pra isso é excesso. E assim...
terça-feira, 25 de novembro de 2014
A volta dos que não foram
Como o herói da história que meu
avô sempre contava depois da ceia, ao meu pai, fui batizado Ulisses, filho de
Hércules, neto de Gideão. Meu avô gracejava sempre que a nossa estirpe era de
heróis, das que figuravam nas escrituras mais antigas, ainda que suas mãos mal
pegassem em lápis ou folhas, como se o que viesse antes do nosso vivido,
dependesse apenas de sua fala rápida, grávida de uma memória prodigiosa.
Meus antepassados, assim como eu,
desde cedo eram introduzidos nas lides da vida. Cresceram no trabalho com a
terra, sulcando aquele barro vermelho, que não apenas ocupava o vinco das
unhas, mas tomava conta da pele inteira. Sempre que eles despontavam, sob o pôr
do sol, no alcance dos olhos, vinham trigueiros, risonhos e vermelhos,
sobretudo, vermelhos, queimados do sol, banhados da terra, como se o corpo
deles fosse a extensão do que faziam entre o café com batatas, servidos ainda
com o canto dos galos, e a sopa de feijão de todos os fins de tarde.
Quando chegou o tempo que faria
parte dessa companhia, meu avô ainda era vivo. E se eu achava que ele era um
prosador de mesa cheia, descobri que as palavras eram mais abundantes do que as
sementes que eu tinha que jogar entre um sulco e outro daquele vermelhão sem
fim.
Assim como as tardes encarnadas,
vi minha pele se pintando em meio ao falatório do meu avô e ao ritmo das
enxadadas do meu pai. Curiosamente, meu pai não falava coisa alguma, quando
muito resmungava que havia ouvido, depois de ser chamado com atenção.
Logo, minha mãe, que nas poucas
horas que lhe sobrava das tardes de verão, se pegava no seu bem mais precioso
e se punha a costurar, ganhei de presente meu primeiro par de calças, dizendo, uma
roupa de gente grande, para aquele já tão crescido. Corri feliz como as
galinhas depois de um dia de debulhes e sobras. Senti que ali começariam as
minhas histórias e que eu semearia os que viriam de mim com o vivido de antes e
o vivido dali em diante, como se o tempo pudesse ser reto em sua sabedoria e a
minha vontade, de tão soberana, congelasse meus sonhos de menino a me alimentar
pela vida afora.
Mas a vida, essa sim, fica
bulindo nas nossas histórias. E quando ela falha, não tarda em dizer quem é que
manda. Um dia, meu avô viajou, como se a prosa fosse o pior dos amigos cobrando
usuras antigas, num tom zombeteiro da volta dos que não foram. E os dias na terra passaram a ser habitados
apenas pelo ritmado do meu pai, silencioso como só ele sabia ser.
Cada dia era mais longo do que o
outro. A batata que antes era colhida e cozida para anunciar a lide, parecia
triste, amarga, cheirando a ferro curtido de ferrugem. A sopa, que sempre
anunciara os risos, as pelejas, as fanfarras, minguara igual as bravatas do
velho herói.
Dei então pra me furtar do que
sempre havia conhecido. Peguei mulher, juntei barriga, dei para jogar,
desaprendi do ouvido, perdi dentes, fermentei o cereal plantado, cometi abusos
e fui abusado quando, então, pelas estradas me joguei.
Virei caixeiro, negociante,
marinheiro, cafetão, professor, mula, pesquei sereias, cacei baleias, fiz
filhos, tomei tragos, provei coisa que não era de homem macho e pelo mundo todo
fiz mil voltas, até me entontecer por inteiro.
Um dia, parado na janela de um
prédio alto, pensei sobre aquele mundo vagalume e para onde ainda me
levaria, que milhões de novas coisas botaria em minha conta, quando me peguei lembrando
de uma das histórias do meu avô, quase como se eu pudesse ouvi-lo, me chamando
de novo para sentar em nossa mesa.
Essa história é a história de um
grande guerreiro. Ele era forte como o touro escolhido pros cruzamentos. Ágil
como guinés nas manhãs de um sábado de festa. Fértil como ele só, era pai de
uma dezena de meninos. Tinha uma mulher que era linda que só ela. Um dia
chamaram ele para apartar uma briga de vizinhos que viviam trocando tiros e
injúrias. Lá das terras do alto da serra. E ele foi, foi com seus filhos mais
velhos, já todos burregos grandes, como se fosse o general do exército francês. O caminho
foi tão longe que no meio já não tinha carne seca nem pó para o café. Mas eles não
voltaram atrás no prometido, o tamanho do herói era o tamanho da palavra dada. Sua
mulher não tinha gostado dessa aventura, sabia que o tempo que ele havia dito
que estaria em cima daquela serra, seria mais alto que ela estava disposta a
esperar.
Os filhos que com ele foram,
fincaram casas pelo caminho, casaram e hastearam bandeiras mundo afora, como se
o caminho de ida e de vinda, deixasse de ser uma reta. Eles ali prosperaram,
desbravam mato, fizeram fazenda, uns criaram gado, outros descobriram ouro. E de
lá, de onde tiveram parada, mandaram presentes para sua mãe. Nunca faltou nada
a ela, nada que ela não gostasse de comer e de vestir. A fartura chegava a ser
tanta, que os vizinhos, vira e mexe, iam se empanturrar por lá. Tinha uns que levavam
violas, outros sanfonas, sem falar nos zabumbeiros. Muitas das músicas que
eram tocadas nos forrós improvisados, como se cada um dos dançantes já não soubesse
dos dias que eram o das festas, falavam das histórias do grande herói. Já sabiam
até como ele deu fim à guerra tão grande foi o sucesso de findar a peleja. Mas
ninguém sabia onde danado ele estava.
Tinha até um concurso de adivinhação para dizer o dia que ele voltava. Parecia até que tinham dado destino nele até que ele voltou, porque o que faz um grande herói é a hora de ir e a hora de voltar sem perder a própria palavra, pois mesmo quando dá uma coisa dentro da gente, de sair mundo afora e ganhar todas as batalhas, se aprende que a paz não só se ganha com a guerra.
Tinha até um concurso de adivinhação para dizer o dia que ele voltava. Parecia até que tinham dado destino nele até que ele voltou, porque o que faz um grande herói é a hora de ir e a hora de voltar sem perder a própria palavra, pois mesmo quando dá uma coisa dentro da gente, de sair mundo afora e ganhar todas as batalhas, se aprende que a paz não só se ganha com a guerra.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Dexter mata Lobão!
A grama do vizinho verdejava sem as
flores malditas. Mas nem sempre fora assim. Alguns anos atrás ele chegara com
apenas uma pequena mudança. Percebi, enquanto verificava a caixa dos correios,
que ele era de parcas posses. Não tinha mais do que um colchão, uma mesa de
quatro cadeiras, uma geladeira velha e seu gato. Lembro que na época pensei em
como ele havia conseguido entrar na nossa vizinhança, mas logo tratei de
esquecer, não parecia que seria permanente.
Dias depois de sua chegada, fiquei
levemente irritado com o som que vinha desse meu vizinho. Parecia que as vozes completavam
a ausência de posses. Eram vozes de muitos e todos falavam com um estranho
sotaque. Me aproximei da cerca viva que nos separava querendo descobrir de que
lugar ele vinha. Não soube discernir totalmente, mas alguma coisa me dizia que
eram nortistas. Não que tivesse descoberto alguma cadência própria. Mas pela
intensidade do barulho, cordas, coros, batuques e pela cor marronzinha do
vizinho, acreditei que ele tinha descido de lá.
Talvez eu até tivesse embebecido mais
minhas rosas, investigado mais um pouco, se não tivesse tido um susto daqueles,
quando o gato do vizinho, desses sem raça definida, escondido por entre os
arbustos, me pegou olhando, como se dissesse, que indiscreto. Tratei logo de
arrumar minhas ferramentas de jardim e voltei para o interior da minha casa.
Higienizei as mãos no lavabo do piso térreo
e lavei o rosto. Se fosse um dia como outro qualquer, como os dias de ontem, teria
passado a loção no rosto, tomado meu leite quente com amêndoas, conferido o
jornal on line italiano, e ido para meus lençóis egípcios, ligado minha
Foscarini e folheado os livros que o arquiteto me indicara para deixar a mão na
mesinha de cabeceira. Seria o sono certo, o sono dos justos. E nunca havia me
falhado.
Uma hora depois, farfalhei os panos,
me descobrindo todo, como se o som que se propagava pelo mesmo céu, meu e do
vizinho, tivesse invadido meu lar.
No outro dia, quando cheguei no escritório,
cheguei engomado, terno em riste, riscado, o mesmo que havia usado para os dias
especiais. Segui corredor adentro, parando apenas para averiguar minha agenda
com a secretária, quando, com a mão já posta na empunhadura da minha sala, ela
disse: O senhor está precisando de algo? Claro que disse não, claro que de forma
ríspida. Apenas não sei se ela percebeu minha hesitação. Mas ela não era paga
para perceber nada, lembrei, enquanto assinalava na agenda, um lembrete de substitui-la.
O caso é que aquele dia bagunçou o
resto do meu tempo. Entre um processo e outro, enquanto despachava, lembrava da
advertência do gato e do olhar, levemente espantado, da secretária, que cuidei
de trocar no dia seguinte.
Em casa, já ambientado, preferi ficar
sem ir ao jardim. Correram dias. Meses até. Nunca fui muito católico, mas
acompanhei, toda noite, o jornal italiano quando noticiou a aposentadoria do
papa alemão. Cheguei a pensar, que tempos loucos esses, em que festejam a saída
de um europeu, salvo de passagem, com extremo bom gosto, pois secretamente me regozijei
quando vi que ele havia usado o mesmo sapato vermelho que comprara para os dias
de verão, ser substituído por um argentino franzino, que falava em marte, que
falava em gays, que falava neles. Daquele dia em diante, preferi os noticiários
ingleses. Estava farto da cobertura italiana.
Eu sabia, pela ancestralidade do meu
nome, que ali, onde eu nasci, não era a minha origem. Cheguei até a pagar, uns
trocos qualquer, ao melhor historiador das origens, queria mandar tecer meu
brasão, em cima da lareira, pelas tecelãs usadas no último desfile prét-a-porter,
mas me neguei a pendurar a renda das paraíbas. Onde eles estavam com a cabeça?
Em meio a tudo isso, tinha o meu
vizinho. Ele ainda existia. Não sei se outros móveis haviam sido despachados no
seu endereço. Mas, com certeza, sua velha mudança ainda estava lá.
Outro dia, esbarrei com aquele
farsante de historiador que havia contratado em frente a área comum do meu
condomínio. Audacioso, me informou sobre seu último artigo publicado, falando
asneiras sobre as origens rurais das famílias que colonizaram meu país. Cortei rapidamente
a conversa, não sem perguntar para que casa ele estava indo. Ele respondeu e eu
senti uma fúria me tomando conta, como se eu reconhecesse as vozes do meu
vizinho.
Nesse dia, voltei ao meu jardim. Queria ouvir, por entre o eco
daquelas parcas posses, se meu nome seria anunciado. Não lavei as mãos, não peguei
minhas ferramentas, apenas me aproximei da cerca viva e vi que ali era um dia
de festa. Ouvi quando cantaram em coro que dois e dois eram cinco, que a estupidez
era maior, as vivas a sociedade alternativa, que se vive para consertar, que a
mente está na imensidão, que pelas vias se escorre o sangue e o vinho, que nem
se voa nem se pode flutuar, que o dia é branco, que o jogador conhece o jogo
pela regra...
Me agachei perto da mesma brecha que havia olhado no primeiro dia.
Havia esquecido do gato, quando ouvi o maior dos miados: Nós gatos já nascemos pobres
...
Voltei imediatamente. Procurei na minha despensa. Peguei caviar-salmão-linguado-meu-melhor-vinho-um-charuto-de-fora-meu-melhor-sorriso-como-se-fosse-o-primeiro-dia-sem-deixar-de-levar-alguns-vinhos-italianos-da-minha-adega-preparei-como-quem-azeita-tudo-toquei-na-campainha-e-dei-as-boas-vindas-quatro-anos-depois.
O vizinho agradeceu. A visita disse: ooooi. Me virei rapidamente,
me desculpando por não entrar. Fiz um afago no gato, meio sem graça, e voltei
para casa.
Dias depois, o quiproquó nos jornais. As
manchetes: A vizinhança desvalorizada. Professor de esquerda com rituais satânicos.
Orgia e permissividade. Empresários fogem para Miami. Juiz processa agente do
Detran por estar embriagado. Helicóptero com cocaína é da família do senador. Dexter
mata Lobão!
ps. acompanhei todas
as notícias. Eu e o gato. O adotei, pelo bem da comunidade. Era o meu
pro-brono-especial. Só lamento ele não ter raça alguma
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Eu sou...
Meu nome é Manuel e eu sou alcoólatra.
Hoje são seis anos sem tomar uma gota de qualquer bebida barata ou não. Mas minha
dor contabiliza 10 anos. São dez anos que não escuto a barulheira de Ellen ou
de João, quando ao chegarem da escola, perguntavam a sua mãe Carmen, minha esposa, papai
chegou? Ela, que também já não está no meu cotidiano, dizia sempre aos
nossos filhos, ele está quase chegando. Não
por acaso sou contador da firma que fora do meu tio. E por isso não esqueço a
contagem de cada dia passado do que aconteceu há dez anos atrás, quando cheguei
tarde para o encontro com as crianças, causando espirros na mais alérgica
delas, quando disse, desculpem papai, hoje o dia foi longo, foram muitas contas
a prestar, que tal irmos todos comermos uma pizza. A criançada adora uma pizza. Carmen
não, seu pesar de mais uma noite a dormir com o ronco da minha bebedeira, lhe
fazia pensar na farofa de cuscuz e na galinha que passara a tarde toda a
temperar. Estava cansada, eu sabia, como sabia também que não adiantava
justificar o dia todo, pressionado que estava para pôr ordem nas contas da
empresa. Ela não entendia que o fato de ser sobrinho do chefe de tudo, me
tributava uma carga maior. E que eu precisava da saída, depois do trabalho,
para encontrar com os amigos e sentir que meu corpo era como aquela cerveja
aberta, despressurizando o dia. Carmen, conformada com a alegria das crianças,
enquanto guardava nas suas gavetas seu próprio desgosto, sorriu e disse naquela voz de mãe, a Ellen e a João, não esqueçam seus casacos, a noite promete chuva. Tentou pegar
a chave da perua, que costumava rodar pela cidade, preenchendo de víveres para
o consumo da semana, para os tantos jantares não comidos por mim, sem falar nas
tantas tralhas das crianças, quando eu disse, não, vamos no meu carro, já está
lá fora. Seguimos os quatros e para quem nos viu chegar na pizzaria de
Francesca, parecia acompanhar os sorrisos dos meus filhos, como a acrescentar,
que bela é essa família. Enquanto o pedido era feito, com as arengas sobre os
sabores, pedi um balde de long neck, sob o olhar cansado da minha mulher e me
servi antes de todos. A pizzaria de Francesca era o nosso cantinho, sempre íamos, tinha balanço, quadros de pintar e tantas outras distrações para os casais
com filhos, enquanto esperavam pelo sabor quentinho vindo do forno de lenha. Enquanto
a pizza não estava pronta, ligeiramente consumi meu balde, enquanto Carmen se
serviu de suco de abacaxi com hortelã. Ela estava em outra das suas loucas
dietas, emagrecendo a olhos vistos, tão esbelta quanto no dia em que me lembro de ter me apaixonado por ela. Durante o tempo do retorno do garçom, não falamos muito,
parecia que nem era necessário, quando muito as perguntas de sempre, o que
faremos no final de semana, você viu o carro novo do José, estou pensando em
fazer yoga, me matriculei num curso de arte daquele Instituto Multicultural da
Rua Cinco. Para tudo que escutava, sem ouvir, eu balançava a cabeça e dava a
maior força, até que o silêncio tomava conta de mim e eu apenas colhia as
palavras de Carmen para poder separá-las em letras de quatro em quatro. Parecia
que os números não ficavam no escritório, mas estavam enterrados na minha consciência.
A pizza chegou, pedi mais um baldinho, que veio suado, quase como se me
prometesse um refrescamento íntimo. Juntos, depois deles se alimentarem, nos
reunimos para irmos para casa, acenamos para outros casais conhecidos, e
pegamos a estrada. Na altura da Rua São Jorge, já garoando, virei para a
direita sem ligar a seta. O caminho era conhecido e meu desejo era deitar meu
corpo, pois na horizontal os números não me incomodavam. Não lembro de mais
nada depois daquela curva. Acordei no hospital, cheio de curativos leves,
cabeça ainda meio zonza, que pareceu entrar em curto-circuito, quando o médico,
apressado em atender os outros feridos, me deu alta, não sem antes dizer, sinto
muito. Só o senhor sobreviveu ao acidente. Do meu lado, ouvi gemidos. Pareciam também
terem sobrevividos ao crash, apesar de suas ataduras terem o alcance de uma múmia. A enfermeira, enquanto eu catava os rebotalhos da roupa
do escritório, chegou, com passo macio, perguntando se poderia ligar para
alguém da família para que me acompanhassem em casa. Eu só pensei que minha
família éramos nós quatro. Agradeci. E sai. No primeiro dos bares, logo na rua
ao lado direito do hospital, parei e bebi meus mortos. Os bebi por quatro anos
seguidos. E na conta dos quatro anos, quando lembrei que a-n-o-s significa a
conta perfeita na minha mente, parei de beber. Hoje fez seis anos. S-e-i-s-a-n-o-s.
E me sinto completo na incompletude. É isso.
Os aplausos foram fortes. E ele me
pareceu precisar de muita matemática das palavras perfeitas, porque enquanto
ouvia o cumprimento dos outros, seu rosto pedia desesperadamente um trago, para
afoga-lo num copo qualquer.
A história que veio depois da dele
parecia repetir um refrão que cheirava a cravos e defuntos. Assim como as
próximas narrativas. Todos diziam o próprio nome, seguido do Eu sou alcoólatra.
E eu pensava no Eu sou como a
primeira das coisas a serem ditas naquele círculo de cadeiras. Todos sabiam que
as histórias narradas ali, embaixo daquelas telhas vermelhas, seriam ecoadas
apenas nos ladrilhos desbotados, riscados pelo arrastar de tantas sessões e
pelo passo pesado de todos, como se o ritornelo circular daquela disposição de
corpos, criasse uma sinergia em que simultaneamente as leituras sobre o passado
fizesse uma combinatória singular sobre a posteridade das experiências.
O instrutor, que ouvia atentamente
a todos, ele também um ex, olhou para mim, que ali estava pela primeira vez e
perguntou se eu queria partilhar.
Cruzei minhas pernas, passei,
nervosamente, os dedos por entre os cabelos e falei bem baixo meu nome. Quando articulei
o Eu sou... entendi que aquele grupo não me pertencia. Que eu, ainda, não poderia
me nomear. E na ausência de mim, juntei minha bolsa e o guarda-chuva que havia
deixado no chão, ao lado da minha cadeira, saindo apressada, sem nem ao menos
me desculpar ou dizer até logo.
Demorei para achar as chaves do
carro na urgência toda que me habitava. Ao dar partida no motor, soou o rádio,
na voz de Gal, “um dia eu volto, talvez eu volte, um dia eu volto, quem sabe...”
Procurei o boteco perto do
hospital que Manuel falou e dessa vez, como há muito não fazia, pedi duas doses
duplas com gelo e limão. D-u-a-s-d-o-s-e-s-d-u-p-l-a-s-c-o-m-g-e-l-o-e-l-i-m-ã-o.
4 de 6. Os anos que eram dele, contados na dor de seu relato, me pareceu a soma
perfeita, o alinhamento de t-u-d-o.
Ou quem sabe, nada. N-a-d-a.
Ou quem sabe, nada. N-a-d-a.
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
O quinto
Ela era
a senhora do mundo. Semeava a terra, o vento, o ar e o fogo, não necessariamente
nessa ordem. Apesar do saber só ser da Senhora, ela era magnânima. Instituiu como
A primeira reforma, a cartilha a ser doada para todos. E nela, doou, como quem
multiplica a vida, a consciência para todos. Disse que os tempos de outrora era
tempos de desordem, tempos de amores vis, de quiproquós insignificantes, de
colonização da legião, das paradas de multidões sem cerne, só carne sem o dom
da vida, de corpos sem espíritos.
Era preciso,
aprendi pequenina, não pelos números de anos, mas pela ausência de memória, que
a vida de outrora, do Antes de tudo, as pessoas tinham a barriga cheia, mas
eram vazias do Espírito. Não se conectavam com a terra, com as flores, com as
árvores, que deviam crescer, lado a lado, para que a colheita, de cada uma das
culturas, não se misturasse com as outras. Os campos, de terra e de água,
fecundadas, era verdadeiras miragens, coisas para um homem só.
Eu cresci
colhendo soja. Minha mãe colheu soja também. Soube que minha avó idem.
Das antigas escrituras, que achei guardada enterrada ao lado do túmulo da minha bisavó, cuja letra até hoje sinto dificuldades em decifrar, tinha mais páginas do que cinzas.
Não que
eu tivesse desejado profanar o corpo de quem um dia fora o depósito de algo
maior. Não fui eu que perscrutei a superfície das lápides remotas. Era mais uma
das reformas da Senhora. Aqueles cujo batismo não foi no Templo Divino, que
eram os chamados seguidores da legião, que pariram sem fé, que deram sem
autorização, que não procriaram na Lei, que não racharam os seios aos filhos, que
afrontaram o locatário do divino... Desculpe, pela falta de todos os registros,
eu ainda sou da quarta série. Não lembro de todos os Mandamentos. Eu apenas
passava por lá, quando as máquinas começaram a revolver a terra, desocupando o
solo profano, quando vi, que ao lado da terra revolvida, brotava como que fosse
o pecado das profundezas todas, centenas de livros e todas eram assinaladas
pelo nome da minha bisavó.
Sai ligeira
de lá, com o catecismo embaixo do braço, já sentindo o corpo em brasa, como se
fosse padecer pela ausência da Senhora. Juro, Senhora, juro aqui, nesse
depoimento, que foi assim. E, por essa falta, me martirizo.
Acho que
quando voltei ao desterrado, voltei porque estava em febre. Não tive intenção
de ir contra as reformas. Sei que o espirito fica abaixo do meu peito. Sei que
preciso ouvi-lo, mas do que a minha cabeça, que insiste em incendiar minhas
noites. Sei também que minha mente deve saber de onde o Espírito me chega. Eu
sei de tudo isso, minha Senhora. Nem fui a primeira da classe. Demorei um pouco
para entoar os cânticos. Sei que errei em algumas falas. Mas eu sempre semeie
aquilo que me foi ensinado.
Primeiro
a Senhora. Segundo Ele. Terceiro a Família.
Mas ela
era minha bisavó. Era família. E não sabia do seu passado pregresso. O
importante não era o presente, Senhora? Pensei que indo lá, sabedora da devoção
das minhas origens familiares inteiras, estava preservando o primeiro dos
mandamentos.
Sei qual
o meu lugar, sei do que ouvi da minha mãe, e do pouco que pude escutar da minha
avó. Já estou perto de fazer filho, queria poder dizer a ele ou a ela, da
origem de quem plantou num campo inteiro e comeu da sua mão. Queria dizer ao
meu filho, cujo pai seria da sua escolha, que a terra plantada e a colheita
levada, era o inteiro da vida da nossa família.
Mas eu não
pude deixar de ler. Mas eu não
pude deixar de ler. Li tudo. Li sobre um tal de Pessoa. Saramago. Manoel de
Barros. Orwell. Marx. Rowling.
Huxley. Palahniuk. Collins. Foucault. Dick. Loureiro. Assaré. Dickens.
Sade... li todos no máximo de dois dias, como se tivesse furtado algo que meu
espírito devolveria depois de um fim de semana.
Durante esse tempo, não comi o
fruto da terra, não bebi água. Me ausentei do grupo das queimadas e tampouco
consegui respirar como antes. Sei que meu tempo se foi. Já gastei o quinto da
hora me dada, mas agora estou pronta para ir. Liguem as máquinas. Que o filho
que hoje será preservado da minha morte, tenha todos os elementos. Os que a
Senhora professa e os que acredito serem minha herança.
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