segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Seu José


Seu José já fora casado 2x. Nas vezes todas, saiu da casa inteira que não sentia ser seu lar, sem eira nem beira, a ficar dormindo e comendo naquele corsinha preto, dos anos antigos, porém ainda não uma relíquia, cujo emplacamento nem valia o pago, poderia ser recolhido, como recolhido ele ficava a comer pão com manteiga naqueles bancos surrados, cujas marcas dos restos de cimentos, o tivesse sementado ali mesmo.

O curioso de tudo era que Seu José era mestre de obras e entre um cochilo e outro naqueles bancos suados e completamente empoeirados, ao despertar ficava a construir a casa dos muitos de todos os outros. Caprichoso que só ele, era atento aos detalhes, sorridente e solícito, apesar de suas opiniões fortes, pois até hoje acredita ter sido o Collor o melhor dos presidentes. Deve ser dessas coisas de quem lida com tanta tinta e transfigura os sentidos. Não o julguemos, afinal, quem somos diante de Seu José?

Franzino como um passarinho com sete bicos na coluna, não acreditava quando o via levantar tanto peso, se negar a engolir qualquer cachete, porque era das flores, das ervas, da natureza. Os que o viam, pensavam logo (ou não), que máquina azeitada, quando ele era apenas transespécie. Spinoza o adoraria e Seu José riria dele, pois, tampouco, Spinoza o compreenderia. Ele era das vivências, das outridades radicais. Era pessoa.

O causo era que Seu José, sabe lá de que Deus veio (graças) ou se seu pai era, costumeiramente, quiçá seu filho, estivesse no limiar da construção da casa dos outros, quando nem telhado tinha. Sesese, se seu carro ainda fosse daqueles de teto solar, poderia encontrar as estrelas, vislumbrando as várias fases da lua e talvez pudesse escolher a do seu melhor agrado.

Um dia, Seu José, pernoitando no posto de gasolina em que escostara seu corpo-corsa-casa, foi tido como testemunha de Z mortes. Se não fosse o reflexo incandescente daquela foice mortífera, iluminada que era pelos artifícios da natureza, refletindo em suas vistas, lhe deixando sem ver por instantes, tivesse visto pelas mãos ou em primeira mão, a hora da mortandade toda, estivesse ainda morando e comendo sobre as rodas. O acontecido foi singular, como singular são as coisas das diferenças, pois o mesmo brilho da lâmina que o cegou e lhe fez não ver, continuou resguardado até o dia seguinte, quando o pipocar dos flashes das câmeras desse noticiário que goza com cheiro de sangue, lhe devolveram as vistas.

Repórteres, curiosos, polícia, entre os outros Z, o fizeram sair do que antes lhe servia como seu entreposto. E posto assim, tirou uns dias, já com a visão descomprometida e foi ser mestre de si mesmo. Alicerçou um pedaço de terra, usou ferro para dar fundamento e prosperidade, ergueu com tijolos e argamassas paredes esmeradas e da sua sobre-vivência e saberes, fez daquele pedaço de chão uma das suas construções mais lindas, como me contou.

Da janela do norte, vislumbrava a via láctea, do sul, vinha a melodia do mar, do oeste, o cheiro de suas ervas e do leste, a sua entrada e daqueles que ele queria junto a si. Eram borboletas, beija-flores, mulheres de saias rendadas, corsas a correrem no jardim, joaninhas, abraços, beijos, esfregões. Assim, a morte Z virou lembrança e esquecimento, ainda que gerasse muitos risos quando se propunha a narrar sua vivência.

Obrigada, Seu José, por me falar dos seus caminhos e descaminhos. Como você mesmo me disse, não sou homem sem passado e futuro e para isso são necessárias as fundações daquelas do nosso próprio.

sábado, 16 de outubro de 2021

Das teresadas


 - Teresinha, você já deu de comer a uma banana?

- Como assim?

- Bem assim, abre a banana com lápis grafite, como me disseram, e mete com coisa dentro. Já pensou? É como se ela tivesse um flash?

- Num é só descascar? Teresinha pergunta.

Tampouco. Algumas feridas não podem ser curadas. Os flashes são nada. Dito isso, ela continuou alimentando a banana, se desfazendo do passado, à espera que o presente já lhe chegue maduro, amarelo, saboroso, nutritivo e reconfortante.

- Tô é morta com essa história; no tempo que ele veio de lá, do mundo de suas fugas e jogatinas outras, capturando o papo no ou ao meio, dizendo: - Isso é o que dá, dar de comer a uma banana.

- Puff(e).

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Mordida Z


  • A gente fica mordido, com medo de traspassar, como diz a música. Como queria poder morder, mordendo, de lado, de frente, nas costas, perpassando tudo. Me mordi tanto, que morri no processo. Me mordi, quando já não tinha a casa dos meus dias. Me mordi quando minhas filhas casaram e se foram, sem ao menos ligarem no ínterim de seis meses. Me mordi. Me mordi, quando um parente ficou à mercê de uma intubação, durante meses, sem saber se ia ou vinha. Me mordi, quando liguei a tv e vi o tanto que não fizeram para que fôssemos vacinados numa pandemia mortífera, expressando apenas fundamentalismos perversos e interesseiros na moeda do tempo. Me mordi, quando vi que já não podia trabalhar; me mordi, quando vi que estava falida, falhando. Me mordi, nas crises psicóticas que tive em meio a tudo isso. Me mordi, ficando toda mordida. Como morri, aos poucos, pelas mordidas ditas e pelas que me assusto e me envergonho de dizer. Morri, no tempo da batida de Nina Simone, ao piano, batendo nas teclas, tão brancas e tão pretas, dizendo “Ain´t Got No, I Got Life”, ao dizer que não tinha comida, não tinha governo, não tinha sanidade, não aguentava mais, não aguentava ter que pedir de porta em porta um punhado de feijão ou cuscuz, não suportava mais voltar sem nada para casa; não suportava a dor na minha mão queimada por tentar cozinhar com álcool, não me interessava a vida vivida de dia a dia...

  •  
    Ouvi tudo isso numa ligação dentro do ônibus que pegara para encontrar os meus amores, numa festa pós-pandêmica (?), ao mesmo tempo que lembrava da Nina cantando “não tenho mais vida” e depois ensinando, rodeada pelos seus, suas panteras negras, sorrindo ao cantar também, “tenho minha vida, minha mente, meus cabelos...”. Depois do todo ouvido, percebi que no hoje não é não tenho, mas I got life and love. Sinto por todos que falam e vivem assim nos transportes da vida e que não conquistaram ainda não possuam seus dentes e não possam se morder também em meio a tanto apertamento.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Vida dentro do arco-íris

Um dia terei um barquinho próprio, como um cantinho colorido, bem arco-íris. Nesse dia, já terei uma remuneração como os nossos pais, daqueles dos outroras, quando meu lugar era do fora da fome, e vou poder passar uns 20 anos pagando, de pouco a pouco, o programa do barco para chamar de meu e seu. E não terei medo, o sol cozinhará meu almoço, minha irmã estará lá, minha mãe, minhas amigas, com a bancada aparecida toda farta para todos, porque sei que o mar, todo amar em sua empatia para os todos, molhará o chão do barco com a sua fartura toda. Teremos peixe, algas, mariscos, de todas as coisas tão parecidas. Nele sei que cantaremos juntos, que alguém pegará um violão, outro um ukulele, outro um bongo, mais alguém um triângulo... quem souber tocar, nos tocaremos, quem não souber, recitará algo de seu, ainda que feito por outro ou por si. Assim, teremos a vida do lado bom também. Nunca mais precisarei, eu ou outra de mim, atravessar as areias da praia, porque estarei nos braços já de Iemanjá, não mais com um saco de lixo recolhendo e me dizendo sorte, encontrei latas para trocar por 7 reais, quando precisaria de um cento e vinte para um gás, pois ainda não tenho meu barco, tendo filhas me esperando na casa para um cozido, quando o próprio sol cozinha muito mais. Cabeça quente, o lenço já não protege. Assim, hoje, apenas, hoje, levarei para casa o que consegui para o botijão e a imagem daquele barquinho, verde, branco, azul, vermelho, com que sonho que seja o meu próprio, dos dentros dos arco-íris. Meus olhos não serão mais marejados, apenas mareados e assim, meu saco de latas, será a botija dos meus dias.

domingo, 26 de setembro de 2021

A Dona do Tempo

 

Ela, todo dia, tinha que acordar ainda com o céu escuro. Nos finais de semana, quando não dava plantão, isso não a incomodava, mas estava cansada de ter que acordar, arrumar o rosto e os cabelos, pegar um dos manequins que tanto lutava para poder manter, porque senão a despedida desse ritual era a do seu trabalho. Engolia seis dedos do café já feito ontem para não perder do seu cotidiano a carona da empresa. E todos diziam, ela até se convencia, como era uma dona de sorte, já que nunca pudera ter seu próprio automativo.

A maquiagem que usava para poder esconder seus bigodes chineses, rugas e outras coisinhas, pesava muito em seu rosto, principalmente, quando a luz das filmagens parecia derrete-la toda. Foram anos e anos assim, uns 6 x 3, no mínimo. Contava ela do tempo, das nuvens, das trovoadas, das secas, das queimadas para os que a assistiam, e contava para ela mesma o tempo que ainda precisaria estar lá, naquele sorriso congelado que alguns atribuíam a botox e outros a drogas psicóticas. Mas não havia nada disso, não totalmente, porque quando ela ensaiava no seu espelho retro do banheiro, conseguia antever que por baixo dos lábios, entrando boca adentro, e apertando sua garganta, o riso saia do seu esôfago já adoentado de nervoso.

Esse compromisso não podia faltar. A tensão se dissipava um tanto quando ao entrar na van da empresa o motorista, Seu Expedito, que parecia ter nascido no mesmo tempo da empresa, tirava do bolso de sua camisa de sarja um botão de rosa, sempre dizendo - uma rosa para uma rosa, que ela, ao chegar em casa, guardava entre as páginas de algum dos seus livros. Outros diziam quando entravam na van, eita, chegou a famosa bonitona da emissora. E daí ela já ia ensaiando o sorriso que aparecia do fora, porque no dentro, já havia tomado uma pastilha de magnésio em cada uma das paradas.

A roupa escolhida para aquele dia havia sido um scarpin, cujos sapatos eram de corte talhada, quase um chanelzinho, desses que a pessoa compra quando vai num brechó fora das terras onde nascera. Ou o contrário, não sabemos ao certo.

Na emissora, ela pegou o boletim, ainda olhando e pensando que sempre quisera ser uma comentarista política, mas há 6 x 3 estava ali, lendo sobre as nuvens nas suas fúrias e nas suas ausências.

Mais 2 anos, mais 2 anos, mais 2 anos... e poderia, quem sabe, cavalgar as nuvens, bem para longe, ainda que esse longe fosse dobrar apenas 2 quarteirões.

Geralmente o quadro televisivo que apresentava ficava quase no final do programa. Um dos engraçadinhos que a entediavam ao chamá-la de dona do tempo, como se ela fosse eterna ou apenas um relance efêmero, anunciou o resultado da votação da reforma trabalhista. Ela sorriu como nunca, daqueles sorrisos paralisados, pois sabia que nem na teoria existiria mais a conta dos 2. Disseram a ela, você brilhou como nunca, enquanto ela se desarmava do seu tailleur cinza e seu batom nude.

Ao ir ao encontro da van, percebeu que Seu Expedito não estava ao volante. Pela primeira e, quiçá, pela última vez, se inclinou para trás, perguntando por Seu Expedito. O rapazote das relações humanas disse, Seu Expedito foi despedido. Era muito antigo e o salário já agregava muito valor. A dona do tempo indagou “antigo”? “salário de motorista que agrega valor”? Ele era gente, enquanto os outros que assim o decidiram contavam os seus metais.

Ao chegar em casa foi direto ao escritório guardar o botão de rosa em um dos seus livros. No primeiro que abriu já haviam 2 botões. Foi tirando um por uma das estantes enquanto o esôfago gritava molhando tudo ao derredor. O chão ficou revestido de livros, páginas descoladas, folhas rasgadas, lacrimadas, vomitadas, pisadas, etc. Curiosamente, nenhum dos botões de rosa, ressecadas pelo tempo daquela que não se achava dona de nada, haviam se maculado.

Ela conseguiu coletar todos os botões e colocar numa bela caixa das coisas preciosas, o pouco de dinheiro de sua vida toda e seu passaporte. O tempo dela e de Seu Expedito não existia mais, mas foi com aquela caixa que ela partiu, levando seu batom roxo, shorts e camisetas. Os scarpins também foram destruídos tal como tudo que não servia mais. Já em terras estrangeiras, percebeu que agora, sim, era dona do tempo, do seu tempo, cuja mudança parecia ter subtraído da sua vida, do seu corpo, do seu rosto, esôfago, lábios, garganta a conta de 3 x 6, pois foi isso que ao trespassar sua pessoa, produziu a sensação de que naquela altura atravessava nuvens que pareciam um jardim de rosas.   


quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Dos lençóis dedor maranhenses

 

Emerge um sussurro, como se fosse um zumbido, por trás dos morros, daqueles que nem cabe ao mar escutar.  As claritudes do branco do riachinho, das lagoas, dos dias que me foram prometidos, eram rã, eram lama. Tudo era alegoria dos que me prometeram as imagens do infinito, quando tudo era precipício. Lá não tinha água, não tinha a vista, não tinha flor, era deserto puro, que exigia de todos os chapéus necessários para se protegerem do sol.

- Vem o coro e diz – Você será feliz, profetizou.

Esperei pela grama que plantei durante 200 anos. Ela não enverdou. Não ramou, não falou línguas outras, empacou igual um carro sem forca, quiçá, força, para subir uma ladeira. E, eu, apenas ali, na imensidão do que pode tudo, achei que estava montando o mundo em mim, todo aguado, dizendo quase assim, serei feliz.

- Vem o coro e diz: como arar um deserto?

Com um soneto, ela pensou.

- Vem o coro e diz: rsss e kkkkkk

Das risadas escutadas, sem dizer adeus a tanta aridez, fez belas imagens e memórias enevoadas de tudo que acontecera. A medida já não era do gramado, era a de ontem e a de hoje.

- Vem o coro e diz: mais uma escrita de si?

Não, respondeu ela, é sobre meu jardim, cuja cadência toda absoluta, eram garras de luto, de cólera, dedor, sem espaçamento nenhum, são muitas pedras no jardim e nem sou um maldito Drummond.

- Vem o coro e diz: que heresia...

Ela até tentou sorrir e na tonteria sentiu seu coração miúdo, moído, molestado, cansado, quase parado.

- Vem o coro e diz: sabedoria sem paralisia.

Ouviu e pensou, que coro fudido é esse, que fica a martelar, tentando colher flor, quando eu só queria uma grama verdejante?

- Vem o coro e diz: Das dores, você não nos serve mais, com uma exclamação.

Ele pensou, que porra de sonho estranho, enquanto alongava seu pescoço. Apenas desejando, cá consigo, a precisão de travesseiros novos. Ainda é madrugada e amanhã tenho muito o que fazer. E, assim, fui lá de novo engolir minhas 13 gotas de Dramin, como a dizer, ainda tem, 200 minutos e assim serei feliz.

- Vem o coro e diz: hahahha...como se fosse um rasgo.

Foda-se, pensou ele, continuando a escovar seus dentes, os que ainda lhe restavam, nem de música gosto. Quando chegou no trabalho, era o aniversário do seu chefe, o som estrondava, pois alugaram um karaokê, um depois do outro, afogueados grunhiram, não nos abandone, cante junto disse aquela cidadela, quando me fiz coro, rapidamente lembrando do meu sonho e que de todos que ali se presentificaram, era eu que menos ganhava ou que menos era ouvido. Fiz coro sem vocalizar. E assim, permaneci, sem dedor nenhum.

- Vem o coro e diz: Nunca se iluda. Muitas vezes a safira é apenas uma esmeralda que, sem os 200 minutos da razão que você planta, é um cinza qualquer.

Que merda, esse coro ainda existe, mesmo que já esteja a-cor-da-do.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Dasanas

 


 

Quando nasceu receber o nome Dasanas. Das Dores e Ana era o nome das avós. Chegou ao mundo, tão miúda e enrugada, berrando aos quatro cantos do quarto, feito de tapa e tapera, que não queria nascer naquele telhado em frente ao rio, pois os rios sempre tem mais de duas margens. Que preferia o mar com sua (i)mansidão ou o açude feito de água doce e barrenta. Do leite, não gostou, tampouco do caldo de feijão. Gostava era de banana diluída, molinha, quase machucada. Talvez fosse a herança de Das Dores. Talvez fosse a herança de Ana, cuja fruta já inscrevia um o-caso. Nasceu, disseram, como um milagre, numa casa de muitos varões. Mas já nasceu sob o signo da morte, pois caso não tivesse emergido naquela hora, naquele dia, naquele minuto, talvez a sua progenitora não tivesse sobrevivido. Estranho, muito estranho, pois ela era boa de nascedura. O caso era que Dasanas nunca gostou da ideia de parto, partida, parteira, queria era mesmo era estar parada, pois dos p(s) que aprendeu a gostar de ouvir e viver na vida era o p de puta. E assim ela o fez, foi ser p da vida.

Quando moça ainda conheceu Pablo, moço do bigode fino, da fala macia, da tez dourada, do corpo torneado, dizendo, filha, sai dessa vida, eu quero te ter, te envolver e seduzir, como na música da Marina. No p que estava, acreditou nas falas das ou-vidas e foi. Não demorou muito, voltou a ser p. Aquilo não era vida. Vida e morte, dores e rezas, Dasanas foi ficando cansada, trincada, Pois se fossemos dizer sem meias Palavras, alquebrada. Oh, vida. Toda noite, se esvaia um Pouquinho. Contudo, Das Anas não estava sozinha, dessa vida que se vai, sendo marinada na morte, eram muitas as Anas. P que p. Como ela, muitas dançaram p(s) que eram, em meia luz, “é tão difícil olhar o mundo e ver o que ainda existe”. Dasanas morreu, vítima de Covid, uma p doença, num País p desorganizado. Enquanto a música continuava na velha jukebox, “Eu acho que você nem se lembra mais”. Só você, feita de dores e bananas. P q P.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

dos ossos alquebrados e das vidas engessadas

sem querer denunciar alguma idade qualquer, assistiram num cinema do centro de uma pequena cidade dos interiores deste nosso rincão, carpete encarnado, todo desbotado, que servia de suporte para as cadeiras de madeira, arranhadas, cheias de chicletes e outras coisinhas pregadas embaixo e nos lados do espaldar da frente, que no encanto da luz apagada, eram apenas ondulações próprias da paisagem geral, esfriada, minimamente, pelo som dos enormes ventiladores dependurados no teto, cujo som parecia competir com o rugido do leão que anunciava a pelĩcula , fazendo os corpos rugirem em uníssono de ansiedade. nesse dia em especial,  o anunciado era o indiscreto das janelas, que prometia suspense e mistério. esses filmes eram os mais esperados, talvez porque naquela enorme tela, que era própria nos cinemas dos centros da cidade, prometem uma suspensão do ordinário dos dias , dos moleques que fugiam da rotina de suas escolas e tentavam insistentemente entrar em filmes cuja idade não lhes eram permitidos, dos trabalhadores que da labuta diária dos seus dias, aproveitavam o escuro do ambiente para um cochilo entre uma cena e outra, das moçoilas e rapazotes que no suspense que o som ia vindo, iam indo mais de encontro um ao outro, daquela senhora que na sua solidão procura um tico de solitude. talvez esse fosse o caso dessa narradora, que nem sei quem ẽ. o caso tão misterioso mostrava um personagem confinado a uma cadeira de rodas que do seu apartamento começa a xeretar os vizinhos através de suas janelas abertas, em seus prédios altos, na tentativa de se refrescarem. entre várias peripécias, a presença da morte e seus mistérios. aquela que buscava solitude, não se impressionou muito pela trama de assassinos e assassinatos. foi embora, com restos de pipoca e jujuba para serem o pequeno prazer antes de deitar seu corpo, para sua casa, que era térrea. nao morava num espaço que lhe permitisse assistir aos outros. dormiu com a jujuba e a pipoca espalhadas por entre os lençóis e a camisola. sonhando que morava num apartamento como o do fotógrafo. sonhou também, que sua arte não era apenas esperar suas rosas crescerem e cuidar dos afazeres de casa, registrando por lentes poderosas o pouco tão pouco olhado em seus detalhes de um cotidiano que era vivido como um eterno looping. quando acordou, alvoroçada, escorregou, não sabe exatamente em que, se na jujuba, se na pipoca, se no próprio sonho, e se viu vivendo mais um pouco da história do fotógrafo curioso. quebrou as duas pernas. a amigas da igreja a ajudaram. arrumaram uma cadeira de rodas que parecia a mesma do cinema, com suas marcas já anunciadas, e ficou a se maldizer pelo filme assistido, porque os mistérios estão aí e podem explicar o inexplicável, refletia.. curiosamente, descobriu que da altura de sua sentada, na janela que mais parecia uma porta, tal o tamanho da abertura, melhor mesmo era deixar o ar entrar e se deixar ver. os outros personagens do filme que ainda estava em si, começaram a dar ideia de novos hábitos. viúva que era, remexeu nos antigos baús do seu marido, que deus o tenha, o tenha mesmo, porque ela nunca o quis, encontrou uma polaroid que nunca havia manuseado, máquinas não eram pras mulheres, dizia ele. pela memória do filme, buliu no aparelho e começou a clicar o mundo ao seu redor, na altura que a janela e a cadeira de rodas o permitia. seu aparelho de televisão parou de funcionar pela falta de uso, o barulho do jornal que só falava de terras estranhas, nunca mais falou, a panela e o chão da cozinha foram deixadas de lado, a máquina de costura enferrujou, virou cabide, as agulhas de tricô empoeiraram em cima da cabeceira e a senhora descobriu que de tanto clicar na polaroid seus ossos das mãos pareciam doer menos da artrite já muito curtida. e as pernas, poderíamos perguntar, sem interrogação mesmo, porque esse teclado é estrangeiro ou porque não queremos dar tanta importância às pernas que só conheciam o caminho da mercearia da rua, a direção do cinema, os recantos da casa e a estradinha de barro que a levava para a igreja, da qual participava para que não pensassem que ela era uma pessoa estranha, diferente. eram tempos de eleição e os comícios, apenas de homens brancos, engomados, com cheiro de naftalina, falavam em microfone como se narrasse um filme de fantasia. ali ela desenvolveu sua arte de clicar. seus ouvidos ainda funcionavam bem e assim acabou por ser uma exímia escutadora. escutar e fotografar passaram a ser os novos mistérios de sua vida. quatro anos depois, a cadeira de rodas já poderia ter sido entregue a um outro, mas ela virou sua cadeira cativa, tal como aquela que costumava sentar sempre no cinema. ainda da altura de sua visão, descobriu outros aparelhos, tinha até um que capturavam as vozes ditas que não se comprometiam com a escrita. mas sua engenhoca preferida ainda era a velha polaroid. resolveu clicar novamente o burburinho da nova campanha eleitoral. sua memória apitava agitadamente, pois desconfiava já ter ouvido tudo aquilo dito. sua máquina, porém, registrava outras imagens. quem estava nos púlpitos pedindo votos e vomitando promessas já não eram os mesmos homens brancos que pensava ter registrado quatro anos atrás. eles ficavam ao lado, mãos levantados, dedinhos fazendo estranhos desenhos, e quem ficava nos microfones, eram a versão mais nova dos mesmos. eram a prole. isso a incomodou muito. assim, procurou nas páginas amarelas onde poderiam revelar seus cliques e mostrar aos vizinhos esse seu incômodo. incomodada mesmo, não ia mentir, tinha sido sair do conforto da sua cadeira de rodas, que nos dias mais alegres, tentava imitar as muitas. lavagens que ajudava sua mãe junto às suas irmãs, escorregando no chão cheio de bolhas de sabão. assim, partiu, com sua polaroid cuidadosamente guardada na bolsa que há muito tricotara. na loja escolhida, depois de muito vociferar com o técnico, percebeu que dos muitos cliques não havia registro nenhum. o técnico disse, senhora, faltou colocar o filme. nao tenho o que revelar. foi subindo uma indignação interna tão grande dentro dela, como se os anos passados na cadeira de rodas ao clicar o mundo, tivesse sido um grande engodo próprio, pois num tom acima que do lhe era costumeiro, disse ao técnico, como eu nao tenho o filme, foi o filme, foi ele, que me fez fotografar tanto. sentiu que o cinema a tinha enganado e voltou para sua casa, toda pesarosa, preparou um chá quente, sentou na cadeira da mesa, e lá, sem saber qual mistério a acometeu, escorregou e quebrou novamente suas pernas. curiosamente, ela ficou feliz. voltou a sua janela, a sua cadeira de rodas, pediu pelo correio um curso de fotografia, jogou o que sobrara dos restos do baú do seu marido, que deus o tenha mesmo, e o preencheu de filmes para câmera da marca fulgifilm 36 . dessa vez o registro dos homens brancos e suas proles seriam feitas, nem que tivesse que esperar mais anos. nos seus sonhos, Jeff Jefferies continuava a lhe ensinar truques de imagem, sempre a alertando que ali figuraria um arquivo de memória. anos depois, foi a hora do seu enterro, os herdeiros encontram uma casa que já não parecia a que eles frequentavam quando crianças. era baũs e mais baús, cheios de imagens, gestando memórias, cuja fortuna esperada, havia sido gasta em revelações. o espanto de seus herdeiros foi tanta, pois não havia o que receber em espécie, que venderam a casa para um estranho, sem maiores atenções para os baús e seus pertences. um rapaz que fora contratado para limpar a casa encontrou as imagens e se viu numa delas quando ainda era um infante. ao invés de jogar no lixo, decidiu transformar em história. ficou famoso, o tempo já era outro, adquiriu um apartamento no décimo terceiro andar de uma grande cidade brasileira, se especializou em palestras sobre os registros da história, viajou o mundo e por lá ficou, até que  nos escombros de uma invasão imperialista a um país resistente, na paisagem da guerra, escorregou e quebrou suas pernas. voltou ao seus país - era o brasil - e do alto da sua janela, registrou acontecimentos da sua nação. já não havia comícios a serem fotografados, a democracia não aparecia em lente nenhuma. suas pernas estavam quebradas. 


domingo, 26 de janeiro de 2020

Bola 08

esse blog é interditado
pq ele é de morte, ele é escrito por Nihal, como todos nós q nos fomos
totalmente zumbi
sem Zoe ou qualquer outro bicho além,

no furto do futuro,do céu e do mar,
nesses tempos tao sombrios
um beijo, um aconchego, um passado ou futuro qualquer
ta valendo, sem acento e com poucos caracteres





sexta-feira, 26 de julho de 2019

EMA E BABY: MANIFESTO CANINO



Na animalidade que nos habita, existe um furor que desafia a letargia. Somos jovens, não daquela juventude transviada (AINDA QUE A MULTIDÃO QUEER NOS REPRESENTE). Somos as caçulas de uma multidão. Ema diz, estrou a trocar meus dentes, então desconfie das minhas banguelices. Babe está cagando e andando para tudo isso, foi ouvido treinado em Cazuza. São duas jovens pessoas. Em constante conflito com outras gerações. No karaokê que nos convidaram, perto de casa, coisa de bairro, fomos juntas. Alegres e infelizes. Sem fala, com voz, nos fizemos presentes, entoando as músicas que antes eram máquinas de guerra. Chico, Mutantes, Jorge, Caetano, quando o nome era Gal. Não sei de vocês que se dizem humanos, mas na nossa carga genética, por mais que Ferreira Gullar, depois de tão belas poesias, disse que nós bichos não temos memória, quiça ele, a histórica, carregamos em cada pelo ou nos próprios ossos uma memória que poderia ser ancestral, se não tivéssemos sido domesticados. Somos docilizadas, é só ouvir um EPA, que paramos e escutamos. Não necessariamente obedecemos. Fomos historicamente treinadas para servir. Balançar o rabo, a raba, latir em uníssono quando assim for propício, comer, dormir e lamber. Mas no nosso lugar de PESSOA, vejo no outro (essa figura pode ler como universal), latidos sem fim, fins sem latidos. Não reconhecemos na nossa espécie essa lataria sem nada dizer. E assim estamos a perscrutar e a responder a todos aqueles que não reconhecemos como outros de nós, a vociferar falas feitas, como a pior das cantadas. Que nos perdoem os vizinhos, ou que se fodam todos eles. Que se fodam os fardados que invadem com seus fuzis as reuniões de professores, somos filhas delas. Que se fodam os ministros que cogitam sermos todos uteis imbecis, que cachorras como somos, não reconhecem o gaguejar dos papagaios. Que se fodam aqueles que negociam, feito armas, a nossa democracia. Que se fodam aqueles e aquelas que encontramos no nosso petshop, dizendo amém ao herói que vai usurpar a nação. Que se foda esse tempo distópico, nem a nós nos pertencia, nos colocaram numa vertigem, que do presente que comemos nossa ração, ela já virou futuro de merda, saí como tempo sólido, nada liquido, enquanto que no passado enterramos nossos vermes, ou deixamos para outros fazerem. Esses sim, fazem com maestria, sem sentir cheiro ou fedor, porque ignoram. Nessa conversa, feita na imagem mostrada, abrimos mão da igreja, de deus e do diabo, para poder dizer, quem quer foder somos nós, que vocês, que a tudo são responsáveis, como disse uma amiga, só lhes restam um catimbó feminista: QUE VOCÊS NUNCA FODAM NA VIDA. Porque a nossa resistência é o deleite, é o prazer, é morder a orelha uma da outra, é fazer roçadinho, é ser tríbade na vida, é compartilhar sorrisos, microfones, drinks e outras coisinhas mais. É SER FELIZ. Isso nunca há de ser capturado, pois é fluxo, de pernas entre pernas, de patas nas patas, de lambe lambe, de furores e ardores. Do reconhecimento de nossa diferença, de nossa animalidade, de nossos muitos. Enquanto vocês são um só, uma horda, feita de ódio, feita de escroto-esgoto, feita... como são feitas as coisas mais banais, daquelas com pés, cabeças, máscaras e sussurros. VOCES SÃO A METÁFORA MAIS ÓBVIA DO TWD: OS SUSSURADORES. E nós, cadelas, que somos, não sussurramos, mais latimos, em manada, a nossa própria potência-singularidade: CACHORRAS E CÃES DO MUNDO TUDO, UNIVO-NOS. SEJAMOS TODAS PESSOAS.

domingo, 9 de junho de 2019

ESTUPRO


Meu nome é Ema. Ema de Elisa Mariana e de Alyere. Tenho em mim os nomes das minhas ancestrais todas. Nem queria esse peso todo. Muito responsa. Sou bem pequena, orelhas magras e costelas também. Quem me nomeou já me rejeitou. Antes da rejeição, já era cachorra do mundo, resto ali, resto aqui, era assim que me resolvia. Parece coisa de cachorra mal amado. Porque em nenhuma hipótese, diria cachorra mal amada. Sou feminista, me fazendo feminista, mas só tenho cinco meses, pouca leitura, parca informação, e excesso de falatório. Vi que no zap de uma das minhas mães, houve uma mensagem relâmpago, tonitruante, dessas que parecem aparecer por si só. Um pequeno jogador, coitado dele, fino, perna torta, desses que quando entram em campo, só caem. Eu sou cachorra, dessas de esquina de rua, que de dois em dois dias comia um resto qualquer. Aliás, de semana em semana, porque bar de ralé não tem capital de giro, não tem os dias todos, eu só comia final de semana, principalmente, nos dias de crossfit, porque em Aldeia, lá onde me abandonaram, era evento fim de semana sim, final de semana não. Me perdoem, não sou eu o caso. O caso é do pobre menino, chuteira reluzente, cabelo o ó (ainda não tenho pelos para mensurar), filho menino pai de um menino só, chorei como se chora aqueles que foram desabonadas igual a mim. Não sei bem o que é a França, tampouco o que é o francês. Nem me atreveria a ir ali. Vim de Pernambuco à Paraíba. Sou fêmea. Sou mulher. Das minhas memórias, todas elas, dos dias que nas ruas vivi, tive promessas de carne a mais, de um abano na rolha que nem sabia o que era, passagens pra fora sem custo nenhum. Antes de Aly e Elisa, fui. Fui, sassaricada, pensando numa vida melhor, um pouco de ração, uma coisa qualquer. Me levaram pra casa, me deixaram um cobertor, uma conta no hotel, um espaço exíguo (nem sabia desse teor da palavra, acabei de aprender), me excitei com tanta novidade, e fiquei a esperar o príncipe dos contos de fadas a tornar isso tudo possível. Ele veio de bucho farto, com a melhor das rações, veio até tonto, como tonto só ficavam os meus amigos que só comiam de semana a semana, ele veio farto, tonto, inebriado. Achei que teria um flerte, já tínhamos combinados isso, mas ele não quis.  Ele fez de mim o que os pais, os tios e os avos fazem com os que sabem. Ele fez de mim o que os maridos, os mais velhos, vocês, fazem de mim. Ele me tornou carne comida, carne acessível, carne fragilizada. Me fez mentir, me fez ficar entontecida (como falar num país onde não sei a língua), me expos (como posso combater a máquina midiática capitalista?).

Ele me bateu, me massacrou, me ESTUPROU, PORQUE EU DISSE NÃO, EU DISSE NÃO, EU DISSE NÃO, EU DISSE NÃO. Que porra de mundo é esse que o não é não.

Eu poderia parar aqui. Mas as minhas orelhas de cachorra de fazem ouvir os mil gemidos. De todas elas, de todas nós, de tanto tempo. Quando somos tão muitas. Pq isso acontece? Onde estão vocês, irmãs minhas? Somos tantas e não precisamos estar sozinhas, nem vc q é violentada pela sua mãe, pelo seu pai, pelo seu filho, uma trindade qualquer.

Eu, Ema, cachorra que sou, estou nas sociologias. Aprendi um monte, tô trocando meus dentes, a vontade de morder, é enlouquecedora, mas já aprendi que NÃO É NÃO.

E eu escrevo isso dedo a dedo no teclado, pois sei que do meu corpo, eu cachorra, carne mulher, só posso chorar.

Mas do dia que chorei, renasci. Não estou sozinha. Esse é só o final do primeiro tempo. #lute como uma garota. Eu já sou loba, mas estou aí. Aqui.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A Ema que gemeu, no tronco da Aldeia


Eu sou Ema. Agora sou Ema. Imaginei de início que era aquela que gemia. No tronco de uma juremá. Nem dos acentos ou das ruminagens humanas sou afeita. Ainda bebê. Será que agora acertei a gramática correta? Pouco importa / fui trazida, meio viva, meio morta. Ainda estou a me estabelecer. Sei apenas que me engasgarei com as mil drogas que nos foram feitas para uma doença de um peçonhento qualquer. Estou diagnosticada com a doença do carrapato. Isso é até o de menos. Sou a única da minha espécie. Uma vira-lata, um vira-lixo, numa casa de de outros que não são da minha espécie, cheio de fruti frutis e banhos semanais. Me perdoem, mas nem tanto, das apresentações de pedigree, das origens dantescas, das verves nem sempre adequadas. Do meu viver vira vira vira vira, alguma coisa de sangue latino, cheguei morta, mortinha da silva, mortinha de fome, mortinha de dor. Não serei o lamento das crônicas de Nihal, tampouco das poesias de Zoe, da minha vida, que esperavam ter apenas dois meses, a moça das vestes brancas, pelas presas que já estou trocando, disse logo: cinco meses. Vocês human@s não sabem, mas a contagem da nossa vida é outra. Da gota a gata que recebi, numa injeção em agulhas, me alimentei de coco, de toda uma parafernália de uma farmocopornografia que deve tornar alguns mais ricos, mas que sei agora que tornam também alguns trabalhadores empregados. Não que eles lucrem com algum vira-lixo, mas os subalternos estão lá a nos medicar. São aqueles que ficam dia a dia, horas a horas, em pé, nos nichos dos passarinhos outros. Emplumados, cães impecáveis, gatos flopudos, e eu ali, pernas, pescoço e orelhas. Nunca achei que viraria muito, que do lixo que vim, do lixo voltaria, simplesmente estava a existir. Vi meu couro ser alfinetado, sangue colhido, líquido maldito a adentrar, doendo feito ferro e fogo, não conseguia engolir, tampouco comer. Não tenho currículo em Harvard, tampouco aprendi as primeiras letras, fui hostilizada pelos que seriam, aparentemente os da minha espécie, cachorras como eu, vomitei horrores, caguei as mais estalógicas das merdas (mas sou doente, tenho essa desculpa), e isso só faz uma semana. Li os textos do gato Nihal e suas prosas, da gata Zoe e suas parcas poesias, ouvi daquelas que me acolheram, lá de Aldeia, longe pra caramba, pra onde vim, agora aprendendo a ser paraibana, com o rabo fino igual meu bucho, no dia que comi ração, quando superei a rainha do norte, Sansa-carceriana, Cora, que de Lina nunca teve a suavidade, Babe, cachorra-gato ressuscitada, um canto na orelha de Aly e de Elisa. Estou no meio delas. Separo a cama das duas. A cama é grande, sei que terei mais três irmãos. Existe um caber? A partir dessa inquietação, decidi ser socióloga. Sou pequena, só tenho couro e o osso, mas (ou mais?) li a primeira das dissertações sobre Viva o povo brasileiro, acho que era de uma baiano, que falava dos canibais que preferiam as carnes holandesas, de quando eu me refestelava de uma sobra qualquer, num bar que tinha por nome Piratas. Nesse mesmo trabalho ou num livro que estava na cabeceira da cama, soube, não por ouvir dizer, mas das leituras literárias que são feitas nessa minha nova morada, que o tráfico negreiro, institucionalmente corroborado pelas mais altas instituições, preferiam dar sua cota aos piratas (pia o nome do bar que me acharam), às alíquotas de imposto de um Império, o único deles, entre todas as experiências históricas, que fez das suas colônias, o seu centro e das carnes consideradas des-humanas a sua fortuna. Assim, nesse texto autoficcional, digo de pronto meu projeto, todo fino (ou findo) do meu rabo em equilíbrio com minhas costelas: enquanto existir vida em mim, pouca ela que seja, estou na resistência, porque já cheguei trocando as presas ( portanto tenho cinco meses), e estou a resistir sobre a minha própria vida. Uma vida que só tem pungência no meu coletivo. Somos tod@s espécies.
Ps. Minha voz ainda está rouca de tanta medicação: Eu sou Ema, ainda secundarista. Serei das sociologias, das histórias, quem sabe das letras. — com Viviane Moraes

sábado, 20 de janeiro de 2018

(R)espirais


Ela chegou vinda do ontem, lá das terras baixas. Veio, talvez toda inteira, dizendo estar em missão.

Ele não compreendeu de todo, mas a recebeu todo entendido. Na primeira saída, quando pensou que a levava, errou os caminhos todos. Saiu parando, à espera de estranhos, que pudessem indicar uma rota qualquer. Pela direita de quem vinha, puxou a direção à esquerda, sabedor de que na espiral das geografias, não se perderia, voltaria ao mesmo ponto, o ponto zero.

Ela disse ter poderes.

Ele acreditou.

Ela sacou de sua bolsa unguentos dos mais variados. Secos, suaves, com cor de pele bronzeada, ardidos, apressados. Desse seu matulão, não se viam pássaros mortos ou coelhos de cachola. De lá, espiando de cá, percebia pequenos fogos de purpurina.

Ele não sabia que magia era aquela. Era desses que só levava o que lhe cabia nos bolsos das calças, quando as calças resolviam vestir seu corpo, então todo rasgado e arroxeado.

Ela passou o cravo no arranhão das mãos, a pomada lhe foi aplicada nas quedas das pernas, o perfume, do qual não sabia distinguir uma nota qualquer, foi-lhe massageado nos seus cabelos-barba.

Ele pensou que a missão estava finda. Que o círculo de suas feridas havia sido cuidado. Ledo. Daí, seu engano. Quiçá seu espanto, pois d´ela, que lhe dizia ser bruxa, um oleado foi aplicado.

Ela aplicou soprando em sua boca.

Ele sentiu o azeitamento. Sentiu que aquele tratamento não deixaria pegajosa sua pele, pois fora aplicada no dentro.

Ela assim sorriu. Disse ter chegado a hora e se foi. Missões outras?! Que seja, toda bem-vinda. Sempre à esquerda, ele pensou, como um anel, desenhado na pele e na madeira, sinalizando um eterno espiral.


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma letra


Ele andava faminto pelas querelas próprias da vida que não escolhera. Seu nome era Chico Feixo. Chico tinha no seu corpo a paisagem de uma seca. Para quem o via, não, todo fornido, delineado, fofo, diziam uns e outros.

Mas Chico só sentia as pontadas agudas nas suas costelas, como se ali tivesse um infante de oito meses. Quando deitava, suas pernas e outros membros, sentindo tão descarnados, doíam quando o choque entre seus lados, tentava repousar nas camas mais macias. E assim, se Chico não fosse tão imerso numa quietude tão própria, poderíamos ouvir, quem sabe, impropérios, daqueles ressentidos, desgarrados, dignos de galinhas e guinés.

Um dia desses, nem tem tanto tempo, Chico que se achava tão sem dono de vida, remoendo desastres que se imputava, ouviu que era preciso ir, ainda sem saber de onde era.

Chico arrumou o que ainda lhe parecia indispensável, colocando numa sacola qualquer, um par de cuecas, calças, sapatos, camisetas e foi ter. Saiu sem rodas, caminhando, sabendo que a cada instante, a única urgência era que um pé seguisse o outro. Uma passada por vez. Foi desse modelo que se viu viajante.

Alguns dias, dormia embaixo de uma mangueira, bananeira, jambeiro, dormia céu aberto,vendo suas manhãs raiarem, ainda como sua passada. Uma raiada por vez.

Chico conheceu Maria, tomou café com José, com Fernando experimentou um trago. Mariana lhe fez amor. Cecília rezou-lhe com um ramo. O menino João lhe fez um retrato. Conheceu muitos. Nessa medida, se desconheceu. Percebeu que os caminhos, ruelas, terraços, palhoças eram muitas e estavam ali.

A passada de Chico começou a ter um ritmo próprio, ora galopante, ora arrastado, pois seus pés já tinham adquirido a sabedoria que um não precisa ser lembrado de ir junto ao seu outro.

Dizem que Chico agora danou-se pro sertão, pra mata, para as chapadas, canaviais, ribanceiras e até para as selvas de pedras. De tanto andar, seu corpo ficou esquio, amadeirado, perdendo a fofura que lhe era atribuída pelos alheios. Que, por fim, virou um feixe das varas que recolheu pelas suas andanças.

Mesmo os ventos mais fogosos e insistentes que, ocasionalmente, tentavam vergar o Chico Feixe, ele balançava, sem abrir mão de com isso, criar novas danças, que também passaram a embalar suas dormidas. Foi na expansão, construindo sua mansidão.

Afinal, uma letra pode ser tudo, às vezes, nada.


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

das perdas e ganhos


Ela perdeu a si, perdeu seu amor, seus bichanos, seus óculos. Sobretudo, a matéria inorgânica que lhe dava a impressão de tudo ver. Ou ouvir, quando a reminiscência das melhores lembranças e suas canções singelas e ardentes ainda embalavam seus cabelos e deixava entrever seus dentes, em meios sorrisos.

Quando perdeu a si, se viu paralisada. Sua cama era seu universo. Do seu quarto, uma grande janela engradada deixava aos passantes alheios imagens de encarceramentos. Mas era daquele retrato fissurado, repartido por linhas de ferro, que ainda a permitia paisagens para além de sua galáxia íntima, prenhe de super novas e grandes buracos negros.

Largou mão dos banhos diários, não que fosse um grande sacrifício, deixou de ouvir os barulhos das ondas do mar, de degustar o amarelo e suas espumas refrescantes, andando duro, encastelada, com seus cabelos raspados.

Nos dias que se via obrigada a procurar psiquiatras, xamãs, rezas, terapias, beberagens, ia com um corpo trêmulo, ia não indo, indo não ia.

E foram horas, dias, meses... Com uma tremedeira de cão, quando os outros comemoram suas festividades, suando o céu com seus rojões.

O vermelho rebu já não pintava seus dias, suas mãos já não tinham anéis e a caveira que adornava seu pescoço torou.

Era um bicho tóxico, contaminado, empoeirado, tornado velho, tornado manada, cuja pele e carne se putrefava.

Um dia, uma leva de urubus a viram, passaram pelas suas grades e abocanharam seus restos. Depois que se refestelaram, voaram saciados, ainda famintos.


Assim, ela voou com eles, deixando-se ir. E sua cama ficou vazia, só com as marcas-fluidos de outrora.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

FARTA!!!



Pra gente dar vida, precisa de morrer um pouco. É, foi desse modelo. Nasci com um sinal na testa, igual ao das matriarcas que não eram desejadas. Nasci sob o signo da infâmia. Era, sobretudo, pobre, muito pobre, dessas quando a tarde descansa, na hora da reunião ao redor da mesa, quando só tinha a tapera, a esteira, sem nenhuma cadeira, o tanto que daquele dia era possível de partilhar.

Do pouco que possuíam, como é que era costume dizer?, - a família que come unida, permanece unida. Só faltava o tabuleiro de quatro pernas, quiçá a comida.

Dessas pequenas porções, eles foram se fazendo. Se faziam do mingau de farinha, açúcar e água. Do angu, quando a terra seca, depois de tanto trabalho, deixava brotar o milho. Poderia ser uma história de São João e seus brotos, mas não era o caso. Esse era o conto de todos os dias, quando, apesar do minguado, estariam todos de buchos cheios.

O caso era de fome. Mas as fomes eram de tantos e tantas eram as fomes. Fome de ouvido, de letras, de feijão, de saber, só não fome de amor ou alegria. Mas a fome farta, ainda que a fome de um não sacie as outras. E você? Tem fome de quê?

Eu apenas sei que não sinto fome daquilo que nunca tive, tampouco do que vi em fotografia ou ouvi em versos. A ausência do sabor conhecido é impossível, porque é necessário a vivência.

Pois bem, foi assim que a abracei, quando minha aluna chegou me apertando os braços dizendo, - professora, tenho fome, - me abrace, - preciso de um pouco de sua energia, - já não como há dois dias. Eu a retive em meus braços e lhe dei minha memória, sabedora de que daquela pequena morte, mortificada ela, mortificada eu, pudemos, simplesmente, viver aquela experiência. Eu a acolhendo e lhe dando um lugar à minha mesa.

Estou farta, quisera ninguém se sentisse assim


sábado, 29 de abril de 2017

"Não sei dançar"


Já vai novamente? O que é dessa vez? Qual foi o estalo? E se tiver uma pessoa? Qual seria a matéria da escrita? – As questões eram tantas que sem as interrogações poderiam ser uma letra de uma música qualquer, dessas que ninguém ouviria ou tampouco cantaria. Iria para o limbo, feito de verde musgo, pantanoso, monstruoso, sem fala ou audição alguma. A solidão seria o malte. O malte seria a tontura. Da tontura viria o temor. E o temor é tão grave, grave como um tenor. Um tenor que cantaria sobre o cão, a rapadura amalgamada com o maracujá.

Assim ouviu e calada ficou. Ficou se fazendo dormir. Olhos abertos. Ouvidos zunindo e um som que vinha ao longe de uma voz feminina que disse eu não sei cantar tão devagar para acompanhar. Ou para te acompanhar. Do ouvido, lembrou da letra toda, quando na descida da serra, do lado dela, que já a acompanhava havia anos, cantando junto disse tudo, quando o estalo se fez dessa música. Ali ela soube que não poderia estar mais, ainda que tivesse pelejado uma multidão de meses depois. Vá. Termine seu conto. O conto se contado todo, poderíamos dizer, seria inacabado. Teria sido deixado em paz. Teria ficado nos recalques, nos silêncios, na vontade de não existência.

Não foi o caso, porque nunca é o caso. O caso é que ela fora violentada. Tinha dez e alguns poucos anos a mais quando ouvira a primeira das canções, no mesmo tempo em que ganhara de debute a vitrola de aniversário que hoje não saberia dizer em que lixeira eletrônica ela se amontoaria. Quisera dizer liquefazia, mas essas coisas das desnaturezas não se desmontam, são como pilhas que o ambiente, quando não tratado, regurgitam ad infinitum.

O autor de tanta violência era uma década a mais. Talvez uma década menos um ou menos dois, ainda assim uma década. E com esse autor, ela se obrigou a casar. Se obrigou pela culpa, pela vontade, pelos olhos fechados, pela blusa que ela tinha vestido por cima da pele nua, pelos muitos que essas indelicadezas se consolidam na vergonha, vergonha-verde-musgo.

Então ela poderia dizer que essa música era dela. Era dela porque ela a ouviu antes de ser escrita. A ouviu uma segunda vez, quando descia a serra e uma terceira, quando cantou, sem a melodia a fazer coro, para outra de sua vida.

A mesma escrita e já outra vida.  Talvez Len e Berni tenham razão. Somos todos monstros do pântano ou, no mínimo, habitamos ele, ela pensou enquanto caminhava estalando os galhos ainda não molhados pela garoa.


Ps. Para ler ou ouvir (com) Marina Lima. 


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Bolo de páscoa



Nos dias perturbados ela aprendera sobre o fluxo da consciência.

Não que tivesse sido uma escolha própria. Foi-lhe dado pelos percalços todos, quando se apercebeu que a mente é apenas um oitavo de uma coisa maior.

Que coisa maior, poderíamos perguntar a ela?

Ela não saberia dizer, provavelmente, talvez, sua mente, tamanho-de-baleia, coisa magra, feita de RAMOS, fosse uma sensação blue.

Não que adiante perscrutar a mente dela.

Porque o tamanho do mar ou da seca eram enormes demais para serem problematizados.

Apenas enormes e tão pequeninos, disse o outro.

O outro disse mais, disse que o som de jazz, na melodia blues, eram apenas coadjuvantes, quando elas cantavam numa oitava sempre superior ao que o próprio ouvido estava disposto a ouvir.

Ela era morena, sabida de samba, feita a sorrir, ainda que pouco afeita aos demais.

Quase não conseguia dizer que só queria a você, o prazer, carnaval, sem saber que a cada balada dada era uma esquina dobrada, quando os anos mais os anos se acumulam numa música de língua toda estrangeira.

Assim passavam os fluxos nada conscientes.

Até o dia que numa páscoa qualquer, dias depois, ganhou dos ovos que esperou, apenas a embalagem mais preciosa dela.

Nada além da embalagem.

Não tinha gosto de açúcar, tampouco de farinha. Era feito bolo, bolo de amêndoas.

E ainda dizem, disse ela, que sexo com camisinha é sem gosto. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Meta


Era o que ouvia quando pequeno, sabido demais essiminino. E desse ouvido, cresci me fazendo pessoa menino. Era fazedor de barragens, o melhor dos pesqueiros de piaba, sabia fazer fogo dos fósforos apanhados, roubava o grude com os cacos de telha, carregava mais do que os crescidos os frutos das vazantes e me deleitava, cabeção d'água, na torrente que fabricaria mil voltagens, barreira abaixo, quando os açudes sangravam.

Essiminino virou uma primeira pele.
Uma segunda pele. Pele terceira.
Quarta e quinta, sexta feira,
dia de colheita, sábado já na feira
quando no domingo não lhe sobrava
carne nenhuma.
Era apenas pele, a pele dessiminino.

Tudo o que essiminino queria era fazer trinta. Trinta anos contados, não necessariamente comemorados, apenas a conta dos trinta. Nos trinta, pensava ele, ou eu, que agora narro, seria doutor de algum saber, fazedor de coisas sérias, teria meu violão, fita cassete, uma língua estrangeira, poucos amigos contados, um bocado vivenciado, gibis colecionados e um grande amor a ser narrado.

Afora a rima desejada, quando nos trinta chegado, essiminino, todo assoberbado, não soube o que fazer com o tempo aguardado, como se o ritmo do cordelado, ouvido paraibano treinado, ainda que no prosado, sem a rima cortejada, e o sacolão do passado guardado, fosse ele desacorrentado, dos sonhos que outrora tivera, quando as conversas de pingas eram sinceras, ele comigo, eu com ele, numa conversa de umbigo, e o riso, todo frouxo abundante, de esperanças e dentes brancos, pudessem tomar um malte gelado, sem frescura e proseado, sem que os trinta fosse trinta mais trinta, numa aritmética desenfreada, mesmo quando o ritmo do fraseado, não fosse ponto a ser marcado, coisa alguma, alguma coisa, num sentido bem arretado, só pra não se render ao arrebatado, numa linguagem que nem era nossa, fosse drama, prosa ou poesia, mas que o conto, esse contado, dissesse alguma coisa no cruzado, que valesse a pena o fraseado, se algum sentido desejasse ser apressado, porque da pressa dessiminino, do tempo escorrido todo, solta a meta desembestou.

Essiminino era meta, metafoto, metacoisa, metahistória, metaminino, metaconto, metaponto. Como se mete, meta esse menino. 


sábado, 5 de novembro de 2016

Uma só linha e um giradouro


Seria uma tarde como outra qualquer, se não houvesse o chamado para dissimular a ferrugem-maresia do cotidiano. Ela recebeu as receitas todas. Bolo, café, ansiolíticos, tapiocas, psicotrópicos, uma ou outra amostra grátis. Tudo mais ou menos do ordinário de todas as horas, meses ou anos, quiçá. Farmácia, padaria, mercado, dentista. Dessa linha, uma parada apenas. Na sua frente, um círculo-giradouro. Ela se viu freando. Não era dada a seguir os caminhos que não são das linhas. Não sem rapidez, como quem não pode parar e ouvir os ruídos-silêncios de sua existência. Na parada, em frente ao giro, dois capacetes negros são despidos na sua direita. Os rostos, borrados, também não pareciam a ela, alinhados, ainda que totalmente potentes naquela moto preta, das gigantescas, uma roda colosso. Da linha que parecia vir reta do giradouro, um carro enorme, na sua esquerda, um outro gigante dentro, rosto todo vermelho, não se sabe se de sol, se de álcool, se de ódio. Esse ela viu mais de perto, ou ouviu, talvez. Ouviu quando foi chamada de rapariga do cu arrombado, de escrota, de abestada, de imbecil, ouviu tudo isso, mas do outro lado o silêncio era mais alto. Era o silêncio de um 38, posto no rosto. Visto, por ela, como se fosse um filme-adrenalina, daqueles que também se assistem para ocupar o espaço que ainda não foi entorpecido. E nada disso estava previsto, logo para ela, que esquecia tudo, apenas não esquecia de comprar a agenda de todo ano, cuja encardenação era manuseada e preenchida no tempo da gravidez de um gato. A linha, esse parágrafo, era apenas para dar uma parada no café do apito. Um café, um chamego, alguém tocando sua face, limpando sua cara, e perguntando se o cartão é visa ou master. Ela não poderia precisar o mais ensurdecedor de tudo, se o disparo do 38 ou aquele rosto afetado de carmim, que tornou o trânsito e suas melodias uma música menor. Talvez o som do todo, do que viu e deixou de ver, não fosse realmente a questão. Talvez a questão fosse andar na linha ou pegar o giradouro novamente. Ela ainda não sabe. Porque as linhas de um só parágrafo são coisas que não são de onde são e elas nunca pertenceram a nenhum proprietário, especialmente dela que não tem um teto todo seu. Se essa história fosse real e pertencesse a ela, ela diria que seu fim virou multa e que um dia, quando desordenar a aquiescência do seu cotidiano, ela pagará. Um dia quando as linhas, desdobradas, se tornarem um novo parágrafo.