segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Mortes mal anunciadas



Sabia que o tempo do meu corpo não estava mais em sintonia com o tempo dos meus desejos. Meus ossos doíam, fossem para anunciar um dia mais fresco, fosse para abraçar o calorio que já me era companheiro indesejado de tantos anos. Ainda tinha a alegria dos dias, porque aprendera, durante toda a minha vida, a lidar com minhas dores. Ah, e como foi dolorosa a minha vida, ainda que tão feliz. Aquele que eu amei me foi tirado cedo, por uma brincadeira estúpida de armas, crianças e descuidos.  Minha mãe morrera no mês que mais alegria me trazia, quando o São João, anunciava o fervilhar de batuques, de bandeirolas e dos belos requebros que sempre ficava a olhar. Meus passos, nesse som junino, foram compassados com as orações e a despedida daquela que me trouxera ao mundo.
Não era de fato uma figura triste. Se vocês tiverem interesse, podem ver minhas fotos, uma das poucas heranças que deixei, afora os afetos que plantei nos jardins onde vivi. Todas elas eram centralizadas pelo meu sorriso branco e generoso. E sempre fui uma mulher de fé e a fé não é para todos, sei disso, porque acompanhei, durante minhas décadas vividas, o esvaziamento de minha Igreja. Então, posso dizer que fui pega de surpresa, ela me veio de mansinho, com o resultado daquele exame de rotina, mas foi se alocando no meu corpo, com os outros exames que o sucederam, atestando meus desfiguramentos.
Durante um ano inteiro desfilei pelos hospitais. E lá, pude ver uma miséria maior do que a minha. Eram tantas as mortes anunciadas naqueles rostos e corpos carcomidos, que me senti uma eleita. Ainda andava com minhas pernas e elas sempre estavam acompanhadas dos meus queridos, que tanto cuidei quando ainda eram crianças e que agora zelavam por mim. Ah, o amor, só ele para ser o antídoto da dor.
Sabia que essa era uma luta minha e apenas minha. Já tinha superado outras, meu corpo já havia sido cortado e retirado aquilo que dentro de mim, se tornara meu inimigo. Durante esse ano, tomei remédios que diziam aliviar essa dor, que ora entrava em mim como uma facada sem anestesia. Mas esse mesmo remédio que me amortecia, amortecia também minha mente. E ela ficou confusa, habitada dos mais loucos delírios. Ninguém me avisou que não seria possível vencer essa guerra, ainda que muitas batalhas fossem sendo ganhas.
Mas quando meu corpo, já deteriorado, minha mente já anuviada, meu espírito de fé me disse aquilo que nunca esperava saber: estava morrendo. Era chegada a hora de dizer adeus. Assim, rezei, confessei, recebi minha família e fui ao encontro dos meus que já não estavam aqui. Minha jornada terminara.
Hoje, passado anos da minha despedida, vejo, não sei exatamente de onde, os amados que deixei e aqueles que ao nascerem depois de mim, seriam amados igualmente. Sei que eles me sentem, sei que vivo nas suas memórias, mas queria dizer que a morte não é o fim, mas afortunados eles ainda são, por estarem vivos. Só gostaria que meu afeto ultrapassasse as barreiras desse mundo físico em que já vivi para dizer a eles: cuidado com as mortes mal anunciadas, pois assim como aconteceu comigo, pode vir a acontecer com vocês de quem tanto cuidei e por quem fui tão cuidada. A vida, mal gerida, nos prega peças, e quero reencontrá-los sem as cicatrizes todas com que cheguei aqui. Essa é a vida bem anunciada que desejo a vocês, amores meus.

domingo, 28 de outubro de 2012

A eleição


O resultado visto por mim, há anos luz de distância, me trouxe de volta ao meu país de origem. Já não moro nas terras onde nasci, há muito tempo me desloquei, recriando meus espaços, refazendo meu corpo e minha sanidade, mas essa maldita memória me impede de viver totalmente exilada. Sou uma apartada da minha pátria e para isso me apartei também de minha família. Irônico como a segurança me veio de tão longe, me veio quando me apartei daqueles que me eram queridos.

Já tenho minha própria casa, uma nova pátria, um outro rosto, meus ossos estão regenerados, mas não sem o peso, insuportavelmente leve, dos pinos por entre eles. Mas ainda levo na minha bolsa os barbitúricos que me fizeram acordar e dormir como nos tempos de outrora.

Parecia tudo tão fácil, como se a história da minha vida fosse ser inscrita como as das princesas dos contos de fada. Meu casamento, festejado entre a nobreza de nossas famílias e a promessa de dias gloriosos, de vitórias faustosas, sugeridas pelos mais íntimos e por toda a imprensa prometiam que eu seria uma eterna primeira dama. O casamento do século - anunciava a elite política de minha região.

Na primeira vez que ele me bateu e quebrou parte dos meus dentes, chorei a noite inteira, sozinha, escondida do público. Na segunda vez que ele fraturou o meu maxilar, muda, sem poder falar, recorri aos meus pais, procurando novamente a segurança do meu quarto de solteira como se suas cortinas cor de rosa pudessem me proteger dos olhares do mundo. Mas só pude ficar por lá, algumas semanas, porque todo dia me diziam que o dever de uma mulher casada, o dever de uma mulher de político, era estar ao lado dele e, assim, me puseram de volta na mesma mansão que assombrava os meus dias e que apresentava tão bela fachada. Uma grande fachada.

Sorri com um sorriso novo, dinheiro nunca fora problema, sempre poderia ser substituído, e assim retornei ao lado dele, para mais uma campanha. Nem sempre ele fora tão agressivo, passávamos alguns dias, pouco lado a lado, em que meu sorriso continuava firme, como a honrar a aliança que pesava no meu dedo anular. Entre uma explosão e outra, ele me procurava, muitas vezes alterado pelos seus maus hábitos que todos sabiam, mas ninguém comentava, e assim tivemos filhos. Era impossível não tê-los, também era o meu dever.

Os mais próximos, de sua família e da minha, não me deixavam esquecer que a vida era assim mesmo e que era eu uma afortunada, nascera em berço de prata, vivia em cama de ouro. De tanto que ouvia, aquilo se naturalizou no meu íntimo e por décadas vivi como a mulher casada que todos esperavam que fosse, como a primeira dama desse que era o mais carismático dos políticos, famoso pela gentileza e simpatia com que tratava os seus eleitores, cujo sorriso desperta(va) verdadeiras venerações.

Mas eu não era a primeira, vi, não sem desgosto, depois com alívio, o desfile de mulheres, não damas como eu, a perfilarem nas muitas histórias que conseguiam chegar aos meus ouvidos. Felizmente elas não eram damas e, assim, desejava que ele as tratasse com modos mais principescos, pois não esperava para elas, que conseguiam o seu afastamento do meu corpo, o mesmo homem que por anos a fio se apresentava a mim.

Criei seus filhos e rezava todos os dias para que eles conseguissem fugir do lugar que lhes eram depositados, não foi à toa, que o meu mais querido, foi ser poeta e pensei, Deus me deu uma chance. Um de nós pode ser livre.

Envergada que vivia, nunca tive amigas, mas estava sempre rodeada de outras damas. Não que vivêssemos em silêncio, as rodas fervilhavam de papos alegres sobre as novas aquisições. Uma delas apresentava um olhar tão apagado, que me pareceu ser diferente e dela me aproximei. De forma muito vagarosa, tentei introduzir as falhas, mas não pude ir além dessas introduções, a vergonha nos emudecia mutuamente e assim nossa cumplicidade ficou marcada pela ausência da fala e pela loquacidade, disfarçada, de nossos olhos.

Tentei fazer terapia, mas não foi uma experiência das melhores. Já não conseguia a espontaneidade dos meus dias de menina e sempre havia o perigo de que aquilo dito em voz alta, o traísse ou traísse mais a mim, que já não sabia ser outra daquela dama que me foi inventada.

Há alguns anos, eu já não era necessária. Minha inutilidade foi uma das primeiras brechas que pude me apropriar para ir escavando túneis, tal como os presos com suas colheres em armas. Já não era a jovem de sorriso fácil, meus vestidos de primeira dama estavam fora de moda, vista como inapropriada para figurar ao lado dele em seus palanques e em seus programas televisionados.

Assim, não posso dizer que conquistei minha liberdade, pois da mesma forma como ela fora caçada, me fora caçado também o meu lugar histórico de figurar ao lado dele. Minhas emoções, de tão confusas, me fizeram chorar copiosamente. E as mesmas damas com quem trocava tantas frivolidades resolveram ser solidárias, como se as palavras que tive de ouvir me fizessem sentido. Elas não sabiam porque eu chorava, talvez nem eu mesma soubesse, mas era um choro ininterrupto, desses arfantes. Sabia que era um choro de perdas, nada mais.

Hoje quando vejo o resultado dessa eleição, sinto que as perdas são ganhos. E por isso abri aquele champanhe que costumava tomar em ocasiões como essa, como se pudesse reviver, ainda que numa memória catártica, aqueles tempos, mas assim como as bolhas que ressurgiam no meu copo de cristal, descendo como cócegas em minha garganta, esse tinha um sabor diferente, pois parecia pertencer a outra estirpe, principalmente quando elas me chegaram aos olhos e me fizeram perceber que, longe disso tudo, eu também era uma vitoriosa, pois passada a minha sobrevida, nunca me senti tão eleita.

Um brinde, ainda que tardio!!

domingo, 21 de outubro de 2012

A primavera de minhas flores


Já tem uma primavera que ela se foi. E a primavera ocupou de novo os dias do meu mundo. Por onde ando, vejo flores, as flores do meu sertão. Meu campo de visão está como os vestidos de chita que ela usava para me distrair do seu corpo. Ela não sabia, mas eu adorava a forma como a brisa colava o tecido por entre as pernas e os seios, delineando, delicadamente, os seus contornos sólidos.

Na primeira vez que a vi, era uma flor do algodão, como a promessa de um floco de neve em meio ao trinado do calor sertanejo. Ainda era verão, mas sempre era verão. Ela andava como se fosse imune à quentura toda que tinha ao nosso redor e em mim. Ao me ser apresentada, por conhecidos em comum, gelei inteiro por dentro como se a frescura das serras altas tivesse me consumido. Achava que já era imune e tinha adaptado minhas vestes a tempos quentes, quando depois das minhas ex-mulheres, me consumi em fogo, abrasado que estava, ressabiado que vivia, descrente como o maior dos ateus. Mas seu vestido branco, de tão leve, soerguia em direção ao céu, como se ela não precisasse ser colhida, pois o vento, meu aliado, escolheu seu caminho. Nos meus braços, ela se aninhou e despiu minhas armaduras todas. Foram tempos refrescantes estes. Tempos de luz. Iluminado que estava, acreditei que não estaria mais sozinho.

E com minha flor do algodão, passeei por entre meus familiares, amigos e desconhecidos, desejoso que estava de compartilhar tal beleza. Para todos eles, dizia: é a flor da minha vida e com ela quero um jardim, quero uma casa, quero plantar raízes.


Mas o nosso jardim parecia ter uma vontade própria. As terras cultivadas, em meio às intempéries do cotidiano, foram desenhando novas paisagens. Tinha dias, que ainda sentia o frescor do algodão, mas em outros, como as ervas daninhas que nascem espontaneamente em jardins e tempos (in)suspeitos, indiciavam tempestades.


Muitas vezes, enquanto primavera vinha e ia, troquei o solo do jardim, reguei, cultivei outras sementes, curti novas flores, mandacaru, coroa de frade, bromélia, crisântemos, violeta, tudo na tentativa de colorir os nossos dias. De sol a pique, acompanhei com esperança, da varanda de nossa casa, sentado na cadeira de balanço de palha trançada que havia sido do meu pai, cuja vida inteira amara a sua Rosa Amélia das Flores, que brotasse daquele solo uma nova safra, mas sempre antes da abertura dos botões, o tempo murchava.


Murchava a minha flor do algodão. E agora, sozinho, naquela casa tão grande, que sonhei em construir o meu jardim para todas as primaveras, já não havia nada, era um solo seco, nem quente, nem fresco. Apenas uma primavera que se foi.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Carta ²



Venho, por meio desta, informar aos colegas, que chegou pelo correio a minha carta de aposentadoria. Não sem tristeza, informo a todos que, mesmo na minha condição de professora, não poderia mais fazer parte dessa Instituição. Não reconheço esse tempo, os diálogos e os quiproquós todos. Mas desconheço mais ainda a mim e aqueles com quem partilhei mais de 30 anos de sala de aula. Como dizem os mais sabidos, sou outsider, estou fora de moda, do tempo, do lugar, estou fora.
Não sou da geração que sabe fazer uso do e-mail, mas as cartas, que coletava na minha caixinha de correio, sempre tiveram uma dimensão mágica no meu cotidiano, era o momento de aguardar palavras queridas, notícias dos meus que estavam longe, promessas de reencontro, enfim, de toda uma escritura permeada pelo mais afetivo. Mas as cartas também não existem mais, não tem mais lugar nesse presente. A minha caixa está enferrujada, talvez ela também tenha decidido se aposentar, meio a contragosto, já que não mais foi coletada ou untada em suas juntas. Talvez, assim como eu, ela tenha se ressentido da última recebida.
No passado, agora diluído pela dor despedida, sempre tinha desejado que esse dia chegasse, principalmente, naqueles momentos em que minhas pernas não acompanhavam mais a ligeireza das minhas vontades. Costumava dizer, em gracejos, que os dias que faltavam estavam sendo marcados, na minha agenda particular, como quem faz a contagem para uma viagem à lua. E, hoje, estou na lua, como a figura de um astronauta na imensidão do seu território. Apenas eu e essa terra que deixei para trás.
Nunca pensei que fosse tão doído. Nunca pensei que tão rapidamente compreenderia que ninguém é insubstituível. Talvez, finalmente, tenha compreendido a marca desse presente, pois esse é o presente da ligeireza, de tempos que corroem tudo, que plastificam os recursos, que desmantelam os desejos, que impedem a passagem tranquila, confortável.
Mas quero dizer a todos vocês, aos antigos e aos novos colegas, com essa minha despedida, já que toda carta precisa ser correspondida, como aprendi nos tempos idos, que estou aqui, disponível, para o que precisarem de mim. É o que eu espero, ainda que saiba, pela minha experimentação simultânea do tempo, que não o será.

Saudações acadêmicas,

Cordélia.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O letreiro



Todo comecinho e metade do ano, em frente ao portão central, eles colocavam aquela faixa reluzente, com letras grandes. Sempre dava uma paradinha, freando minha bicicleta, e observava o movimento, do vai e vem dos preparativos. Mas nunca podia me demorar muito, sempre tinha um serviço ou outro para fazer, graças a Deus e, naquele dia, tinha que ir terminar de botar o piso na casa de Dona Stela.
Dona Stela era diferente das outras patroas para quem já trabalhei. Na casa dela, mais do que enfeites, havia livros, muitos livros, livros na cozinha, livros na sala, livros no quarto do quintal. Eu nunca entendi como uma pessoa só podia ter tanto livro. Às vezes, eu não me continha e perguntava: a senhora já leu isso tudinho? Ela apenas sorria.
Na hora do almoço, Dona Stela segura um garfo com uma mão e a outra fica ocupada passando folha por folha. Duas vezes por ano, ela me chamava para fazer consertos na sua casa, ora para pintar as paredes, ora para aumentar a casa que já era grande. Era sempre antes da chegada de seus netos.
Mas, entre uma empreitada e outra, eu sempre ia lá aos finais de semana, fazer um servicinho ali, outro acolá. Nem me incomodava quando me chamava aos domingos, porque sempre depois do arrumado, tinha um cafezinho adoçado com histórias de sua juventude. Eram tantas histórias, mas tantas, que eu perguntava, ora Dona Stela, se a senhora gosta tanto de livro, porque não escreve um contando tudo isso. Dona Stela sorria e dizia: Seu Raimundo, algumas pessoas nascem para escrever, outras para ler, porque nascem para amar os livros. Eu nasci e cresci para amar o que outras pessoas produziram com tanto amor.
Sempre me despedia pensativo dessas nossas conversas. Um dia teria coragem de contar a ela o que eu não sabia que poderia amar. Gostava das coisas bonitas, mas nem sempre as entendia. Toda vez que pegava em mãos um pincel mais fino para fazer o recorte e os detalhes das pinturas nas paredes, portas e janelas, ficava imaginando que um dia iria botar meus pensamentos pintados. Eles já existiam na minha cabeça, eram tantas as imagens, que associava às modinhas que criava, mas que o tempo cuidava de apagar. Já não era menino moço e minhas costas já estavam mais do que arqueadas. Tinha as contas de casa para pagar, meus filhos para mandar para escola, minha mulher, que nunca satisfeita, reclamava das minhas adorações e não entendia, por que, de vez em quando, eu tinha que tirar o cheiro de bode nos banhos do mar.
Era fins de janeiro e mais uma vez passei em frente ao portão da escola. O letreiro já tinha sido terminado e parecia que naquele vai e vem já tinha o anúncio de mais uma entrada no ano. Mas não tinha tempo para isso, tinha que ir mais cedo à casa de Dona Stela para fazer a lista de compras do resto do material. Fui encontrá-la no quarto dos fundos, já rodeada de seus amores, sentada naquela mesinha antiga, que não cabia companhia nenhuma. As cadeiras estavam ocupadas de torres de livros, como aquelas torres de baralho, via a hora cair tudo em cima dela. Mostrei minhas medidas, que tinha aprendido na urgência das necessidades, com meus números caprichosamente desenhados. Não sabia fazer as contas que via meu menino, quando voltava da escola, escrevendo em seu caderno de tarefas, mas sabia quantos metros e todas as medidas de cerâmicas para assentar numa sala, parecia quase coisa de magia, eu olhava, é já sabia quantas caixas seriam necessárias comprar.
Dona Stela parecia que não tinha muita pressa. Foi puxando conversa e me mostrando umas fotografias de revista, dizendo: Seu Raimundo, quero dessa aqui, anota aí nas suas medidas, que quero uma cerâmica vitória, fosca e com aderência. Dessa cerâmica eu não conhecia não, mas também era tanta novidade no mercado. Mostrei minha folhinha a ela e disse, Dona Stela, não me ignore não, mas a senhora podia escrever esse nome aí que mostro na casa das ferragens, para saber se tem desse modelo. Não sei por que, mas ela ficou parada me olhando, como se pela primeira vez tivesse me visto ou como se eu despertasse nela o que o letreiro fazia comigo. Ela escreveu na folha e mandou dizer que depois acertava a conta na loja. Eu disse, tá bom Dona Stela.
Terminei o serviço duas semanas depois do previsto. A danada da cerâmica era mais delicada para assentar. Mas Dona Stela ficou satisfeita com o resultado. Quando já estava fazendo a manutenção do prédio de Seu Pedro, recebo uma ligação de Dona Stela dizendo que eu passasse lá, que queria me mostrar umas coisas. Claro, Dona Stela, dou uma passadinha aí, depois da hora do almoço.
Ela estava na mesma mesinha do quarto dos fundos, mas as cadeiras estavam todas desocupadas. Mandou que eu puxasse uma, sentou comigo, e disse: a partir de hoje, tire todo dia, meia hora do seu almoço, que vou lhe mostrar como ter amor aos livros. Eu fiquei nervoso, assustado, me tremi todinho por dentro, não conseguia parar as pernas, nem deixar de remexer meus grisalhos, mas sentei depois de dizer, Que é isso, Dona Stela, a senhora é muito ocupada. Foi quando ela me contou, sabe essa casa, esses livros todos, eu nunca tive nada, nasci num sítio pé de serra, para poder estudar, andava mais de duas léguas para ir e voltar da escola mais próxima, utilizava como caderno papel de embrulhar pão, fui estudar na cidade, de favor na casa de parentes, tão mirrada, mas dava conta de cuidar da casa, das roupas e da comida de uma família de seis. Meu pai dizia, minha filha, volte para sua casa, nós não temos muito, mas temos o bastante, não precisa passar por isso, e eu dizia, preciso papai, porque eu amo as letras. E assim, fui vivendo, me formei no magistério, trabalhei, dando aula manhã, tarde e noite, consegui trazer meus pais para uma vida mais confortável, mas, sobretudo, assumi um compromisso comigo, que ajudaria qualquer pessoa que tivesse sede de conhecimento.
Escutei aquilo e uma paz me levou a sentar na cadeira. Durante dois anos seguidos, a cadeira me ficou cativa, até o dia em que escrevi no meu caderno: Sou um letreiro, a letra é linda e agora ela também me pertence.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A mulher bezerra




Sempre temi que quando chegasse esse dia, acabaria por não sentir nada. Talvez por isso tenha gasto minha vida em excessos, em idiossincrasias, apostado na boemia, na boa companhia e em todas as mulheres que passaram por minha vida. Mas isso não importa mais. Diria até que o espaço não é um dos piores em que já estive, já não sinto frio, quiça fome ou aquela vontade feroz de beber o mundo me alimentando das tempestades.
Aqui é escuro e já me permito parar de pensar nela, ou melhor, parar de pensar no que fazer com ela, já que não posso mais ficar à espreita pelas esquinas e bares, na esperança de vê-la passar. Parar de pensar nela seria como fazer tudo de novo uma segunda, quinta ou décima vez. Se tivesse ainda de posse da minha escrivaninha ou dos meus pergaminhos, escreveria para os meus amigos sobre o que fiz, escreveria como um alerta, como um deslumbre, como um desvario, afinal, sempre achei que terminaria meus dias com todos eles, embalados que ficávamos nos botecos da cidade, cada um no seu batuque específico, na sua bebida preferida e nos lances de nossos carteados.
 Não que eu não tenha me casado. Lourdes era realmente uma mulher de verdade, pena que não pude ser para ela o outro da música. Nunca me faltou o guisado de bode, o feijão de corda, a roupa, caprichosamente, engomada, o sapato sempre engraxado, o caldo de mocotó ou a cabeça de galo do dia seguinte. Pena que nossa semente nunca germinou, ela hoje não estaria sozinha. Mas também não imagino com quem esteja agora. Tínhamos entrado, depois de uma década e meia de casados, num ritmo cadenciado, sem grandes trinados e nossos passos, juntos, eram sempre harmoniosos como uma valsa. Era uma música que um homem precisa ter à mão ao procurar o sossego, quando, ziguezagueando ou não, consegue achar a porta de casa e sentir que lá é o seu castelo, lá era um rei. Era nesse lar, que podia desafogar da minha sede de água.
Sempre associei Lourdes àqueles açudes cuja pior das secas não ofereceria perigos. E por alguns dias, mergulhava naquela água calma, funda, e me refazia das minhas noites felinas, procurando a quentura do seu colo. Meus amigos até me invejavam, eles não tinham uma Lourdes para quem voltar. Que deus a abençoe. Sei que ele vai me ouvir, caso São Pedro me abra suas portas.
Mas homem é bicho danado e nunca neguei minha masculinidade. Quando meus olhos injetados das noites viradas se recuperavam, quando a água não saciava mais minha sede, saia de novo, todo alinhado, com goma no cabelo, ainda luzidio, a cantarolar por baixo dos postes de minha cidade, como quem tivesse a dizer, saiam da frente, o rei vai passar e ele tem sede, sede de cachaça.
Foi numa dessas saídas que a conheci. Tinha vindo da cidade grande, alguns diziam até que vinha de terras estrangeiras e que em sua mala tinha um diploma de artes. Parecia uma artista de fato, mas não por causa de uma beleza estonteante, mas pela forma como puxava a cadeira na mesa do Bar de Seu Vicente, ao lado da nossa cativa, e acendia seu cigarro. Ficamos todos animados em saber mais sobre ela e, sem combinação nenhuma, mudamos a natureza de nossas apostas, já não interessava o campeonato de futebol, as lutas livres, as rinhas de galo. Nossa aposta era ela, quem conseguiria primeiro. Não faltavam visitas à sua mesa, gracejos, gabolices, entre outras coisas. Eu na minha mesa estava e nela ficava. Mas não sem perceber que ela nunca pagava nenhuma das bebidas pedidas, não sei se pelos meus colegas que viviam a lhe oferecer drinks ou se pelo Seu Vicente, que esquecia a tripa assada na frigideira, a famosa língua de boi na panela e o fogo do churrasco sumir por si só.
Ficava a espreita-la, numa posição que não oferecesse garantias da minha curiosidade. Afinal, estava ali para estar com meus amigos e voltar para minha Lourdes. Talvez tenha sido isso, talvez tenha sido... Não era nem mais nem menos do que meus companheiros de mesa. Mas um dia, levantando-se de sua cadeira, me interpelou e disse, como se fosse hoje ainda, percebi que gostas de cachaça, tenho em minha casa, uma que trouxe do México, um destilado especial... Nem esperei que o convite se concluísse, fui logo me despedindo e de braços dados, nos dirigimos para sua casa.
Não era bem um lar, não como o do meu reino, era colorido demais, iluminado de menos, cheio de lenços, fitas e uns objetos estranhos dispostos sem ordenamentos pelos poucos ambientes da casa. Pensei, cá comigo, seria a sua arte? Mas logo me desabonei daquele exterior que pertencia a ela e tratei de achegar nos braços seus. Não reconheci a mim no enlaço com ela. Na forma como, afogueados, nos livramos das roupas e eu das minhas vergonhas. Senti-me desalojado, porque começamos uma dança de corpos que quem guiava os passos não era eu, nem o ritmo nem a batucada, que em nada lembrava a valsa dos meus dias. Pensei que isso não era certo, pois homem não podia se deixar guiar. Mas atônito que estava, emborquei a tequila, que descia como pimenta, caindo nos seus enlaços. Ela não se fez de rogada, tirou o que restava das minhas roupas, agora desalinhadas, subiu no meu colo e me comeu. Comeu como quem tem a fome de mil dias, arrochando meu pescoço e mastigando minha virilidade. Não tive controle nenhum. Era dela e somente dela, que ora me apertava, ora me sugava, ora me bebia todo. Entendi a arte e o inusitado da vida, quando nos resumimos a uma só parte do corpo, que no corpo dela, lhe pertencia totalmente.
Fui embora tonto, amassado, desmamado, tempos depois, em direção a Lourdes. E desfalecido, me deitei. Quando acordei, não quis beber café ou água. Lourdes me achou estranho, como também estranhou, quando ao deitarmos, mais a noite, subindo por cima dela, juntei as suas pernas para penetrá-la, como se pudesse recriar o aperto e o arrocho da minha noite de tequila. Mas Lourdes era água. E minha sede era de aguardente.
Voltei ao bar, sentei-me à mesa, ao lado dela, mas ela já não me via, entretida que estava com meus amigos todos. E foi assim, durante dias, que fiquei perdido, perdi a ela, perdi meus amigos e perdi a mim. Cada um deles tinha aquele mesmo olhar que reconhecia quando fazia a barba de frente ao espelho. Vidrado, injetado e vazio de alguém que tinha misturado todos os drinks na esperança de sentir o gosto daquela bebida, daquela mamada.
Os dias foram se tornando longos, a noite mais longa ainda. E eu não pude mais esperar. Queria, novamente, o conforto do meu castelo, mas lá, já não era rei, era um desapropriado, desapropriado de mim mesmo. Foi quando decidi dar cabo nisso tudo e cá estou, depois das rezas e dos choros todos, aninhado nesse caixão, na vontade de sentir, em tão pequeno espaço, abaixo de sete palmos, o arrocho da braçada de pernas daquela mulher bezerra. Aquilo era que era mulher de verdade. E eu, já não era homem nenhum.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Lembrar de esquecer, esquecer de lembrar


Quando irei me desocupar disso tudo? Tento o tempo todo esquecer. Esforço-me a esquecê-la e quando me entretenho em meio aos meus livros todos e aos discos que vou espalhando ao redor da minha cama, um trecho, um refrão, me levam de novo a você, a nós. Com que permissão invadiu assim a minha vida, se você não pretendia ocupar-se dela? Eu, por certo, não saberia precisar o momento em que aconteceu, talvez, tenha sido no dia em que me pediu para desembaraçar os seus cabelos, tanto que você gostava que todos o tocassem, como se isso não significasse nada fora do ordinário, pois parecia que, ao fazê-lo, com seu pescoço debruçado em minhas mãos, numa sensação urgente de prazer, não sei se minha, se sua, se nossa, seria o sinal de perigo que deveria ter posto a mim mesma. Pare Felipa, vinham as letras garrafais em minha mente.
Mas éramos amigas e as amigas se tocam. Apenas não sabia que as minhas mãos tinham uma vontade própria, que minha razão estava no estômago, que minha alma estava nas pernas trêmulas. Que as mesmas mãos que delicadamente escovavam seus longos fios, faziam uma força tremenda para não pesar sobre seu corpo, arrumando-a e me desarrumando toda, nessa mesma cama que, hoje, fico treinando o esquecimento, ao escrever. As mesmas mãos que desavisadas, se meteram por entre os seus cabelos, sentindo sua nuca. Bem que você poderia ter se afastado, ao invés de reclinar-se sobre mim, retirando a blusa, para que ficasse mais confortável, como me disse na ocasião. Confortável, para quem? Lembro que pensei, ao mesmo tempo em que cuidava de penteá-la. Não sei precisar o momento em que deitamos juntas na cama, em que me vi também despida, esqueço-me das etapas, mas a lembrança do sentir, essa sim, está em mim, como uma coisa ruim que preciso enxotar, exorcizando o cheiro da sua pele, o gosto da sua boca, o deslizar de nós duas, juntas, em meio àquela cama de solteiro.
Mas não é disso que trata esse texto, essa foi o marco das lembranças, a mais custosa de expurgar. As outras, também são difíceis de esquecer, difícil esquecer os momentos de quando me roubou beijos no carro do seu namorado, de quando me lançou nas paredes do banheiro do restaurante onde costumávamos ir, dos encontros de fim de tarde, regados a descobertas, descortinamentos e desvarios. Já são anos de contabilidade dessas lembranças, mas parece que foi ontem, assim como o dia em que me deixou, em que disse que estava apaixonada por outra, que não me amava mais. Eu permiti que você destruísse pedaços de mim, que minha razão voltasse ao lugar que antes lhe era de costume, que minha alma retornasse ao seu centro, que minha vontade fosse podada e amordaçada. Já faz tanto tempo, mas nunca me lembro de esquecer, de esquecer o caos, a dor, a saudade, o desejo, as vontades, os planos todos...  
Estabeleci prazos para o meu esquecimento, mas sempre que me aproximo deles, no meu esforço de lembrar, os esqueço. Você foi a minha primeira paixão, o meu primeiro amor, a minha primeira mulher. Não que eu não tenha experimentado outros corpos, mas procurava em outros, os nossos, embolada que estava nas minhas lembranças.
Na lembrança de apagá-la, destruí-la, implodi-la nos braços alheios, mais me remetia aos contornos seus, as risadas, as confidências, os achaques, os ciúmes, os nossos gozos, as nossas bocas juntas, de mim, inteira, ao lado seu.
Mas escrevo para esquecê-la e lembro-me o tempo todo de fazê-lo, ainda na mesma cama de solteiro, sendo que, dessa vez, senhora das minhas letras garrafais: JÁ NÃO ESTOU EM CACOS, JÁ SEI SORRIR QUANDO A VEJO EM COMPANHIAS OUTRAS, JÁ LEMBRO QUE NÃO A AMO MAIS, APENAS ESQUEÇO-ME DE QUERÊ-LA TANTO...
QUE MERDA! MALDITAS RETICÊNCIAS...

Ps. Havia esquecido esse texto nos arquivos que lembrei de apagar.