quinta-feira, 31 de julho de 2014

Teresinha


Teresinha phoda, para os íntimos, bem íntimos. Fazia tempo que não sentia a chamada. Não que o relógio tivesse parado, apenas ela não via mais o tique-taque das passagens, ocupada que estava arrumando a casa, o tio, a conta, o carro, o trabalho... Ninguém diria que Teresinha não phodia mais, parecia a única das mulheres que poderia rir da demanda medonha dos dias ordinários, dando conta de tudo e de todos. Eram muitos os seus agregados. Ora corria para acudir um, ora para socorrer outro. Sem perder a poesia ou a maestria, como se ela fosse uma mangueira frondosa, ofertando frutos e sombras para os que tinham fome e os que tinham calor. 

         Arvorejada, suculenta, preciosa em tempos de calor, também era especial nos dias de chuva, pois a quentura de seus braços era felpuda como um cobertor de 300 fios de algodão.

Nunca faltava um rasgar sorridente em seu rosto, anguloso, leitoso, alvo como as bonecas dos filmes de terror. Tanta alvura fazia desconfiar das origens que dizia ter, filha de cigana com um sarará. Provavelmente daí viesse o negrume de seus cabelos, soltos, pesados, ondulando sempre como uma crina nunca cortada.

O caso era que Teresinha estava cansada. Cansada de ser luz, de ser sombra. Tentou, pouco a pouco, ir se desfazendo da rotina dos seus dias, mas ela parecia toda uma primeira pele, difícil de descarnar. Já não sabia ser cobra.

A pele então foi pesando, como se em cada um dos folículos tivessem cerzido um grão de chumbo.  Quem era o costureiro maldito? Teresinha não sabia. Procurava nas mãos dos outros, as marcas de agulhas. Procurava, como quem vistoria a casa depois de um assalto, por baixo das camas, nos armários, por trás das portas, em qualquer lugar, os vestígios desse artesanato medonho.

Teresinha ficou triste, muito triste, tão triste, como ela apenas sabia saber sem que ninguém soubesse.

Quando da última promoção, com os parabéns dos colegas do seu departamento, ouviu, de longe, - Teresinha é phoda, Teresinha deixou de sorrir. E resolveu phoder.

Teresinha foi numa casa de depilação, esfoliou o couro todo e com a ajuda da esteticista, tentou pinçar algumas gramas de chumbo. Saiu de lá se sentindo mais leve, apenas algumas gramas mais leve. Sabia que teria que phoder. Quando estava indo para casa, desejosa de ser despida, ouviu seu telefone tocar. Agora não, pensou, sentindo a urgência toda. Mas era seu tio. Teresinha o atendeu. Já tinha alguns dias que não o fazia. O tio, ao ser atendido, cantou, como sempre o ouvia cantar desde pequena, o Teresinha de Jesus. Na pressa de atende-lo e segurar as compras de sua nova lingerie púrpura, Teresinha foi ao chão. Caiu pesada, apesar de se sentir mais leve. A voz do tio se quebrou, espatifada igual ao aparelho.

Ao tentar se levantar, Teresinha recebeu ajuda. Era um antigo conhecido, um cavalheiro de tempos de outrora, que lhe ofereceu a mão. Teresinha aceitou. Das mãos, vieram poesias, segredos trocados, promessas, cochichos ao longe dos corpos. Músicas e vinhos, pensou Teresinha, pronta para phoder.

Teresinha assim aceitou um encontro. Seria perto da casa de um ou de outro. Não era o terceiro a quem Teresinha dava a mão, mas era o primeiro, há muito tempo, que as mãos pareciam macias e sabedoras do que fazer.

E assim, foi...  Pronta a dar seu coração. A dar seus seios.  A dar sua boca. A dar seus braços. A dar seus pés. Suas unhas. Seu suor. Suas orelhas. Seu cheiro. Sua bunda. Suas costas. Sua nuca. Sua boceta. Seu gozo.

Mas na hora da cama, o moço de mãos macias, não soube o que fazer com Teresinha. As mesmas mãos que a levantaram do chão, pareciam concreto ao pegar em seu corpo. Teresinha passou a noite. E de noite, ainda na cama, ficou lembrando da cantiga da Teresinha. Não daquela que tinha um pai e um irmão. Tampouco da cantada por Chico, ainda que essa a inspirasse.

Lembrou da música que ouvia quando era bailarina. Da Teresa que não era inha. Assim, levantou-se da cama, dizendo não quando o cavalheiro pediu que pernoitasse por lá, foi ao banheiro, banhou-se. Recolou a púrpura de sua roupa íntima e pensou sobre as costuras em seu corpo. Viu que sua pele era peso. Chumbo. E não desejou mais trocá-la.

Ah Teresinha, como você saiu bela de lá. Toda armadura. Sorriso frouxo. Enorme.

Enquanto Teresinha ia para casa, foi engolindo o mundo. Entre o que engoliu, sem medo, feliz pela pele que costurara, saiu phodendo com todos os cavalheiros e, quem sabe, com algumas damas, que esbarrara no seu caminho para casa. Chegou farta, comida, toda enterezada. Havia deixado o inha no banheiro do cavalheiro.





sexta-feira, 4 de julho de 2014

Tal como um orgasmo... (Jogos da Copa²)


O cuidado que tive com ela foi o mesmo de digitar aqui, medrosa que sou, de bagunçar a ortografia toda.

Mas esse conto não é sobre mim, quiça sobre ela, talvez, quem sabe sobre uma sensação, de alegria pura, júbilo, como se finalmente as cartas do baralho se alinhassem.

Nem foi o caso. Abri mão de muito para relatar o mínimo, tão máximo, apenas 2 X 1.

Para explicar a ela, macho que sou, falei das jogadas do futebol, falei do meio campo, do zagueiro, do que seria a trave... Ela apenas me olhou, como se estrangeira eu fosse. Mal tinha me espacializado, decalcado minhas terras todas, me vendo na situação de dizer para ela, logo para ela, o que era o gol.

Na ausência de palavras, disse – goze, como quem goza o bailarino. Ele ganha milhões; e ela, como quem indaga, por trás de todos os óculos, e você?

Sei lá o que ganho eu, não estou para jogo nenhum, apenas apostei minha vida. Apostei que poderia, apostei que o rinchadeiro todo não veria acrescido das misérias do sertão. Apostei que, naquele jogo, teria a eternidade pega entre os pés. E eu era apenas transeunte.

Mas era danada. E na danação, expliquei para ela. O jogo, imbecilizado, de pernas a correr atrás da bola, nada mais é do que o jogo da vida, daquele entremeado, em que você corre o corpo dela inteiro, horas depois, toda suada, e diz – bola na trave.

E a coisa lhe consome, lhe toma toda, como se 75 minutos fosse pouco e apenas lhe restasse a prorrogação.

De quem foi o gol? Que trave lhe abateu, poderíamos conversar se o jogo já fosse ganho, se eu soubesse em que lugar estavam as vírgulas, mas elas sempre foram um problema... uma vez corrido o texto, no mínimo três pontinhos... como se o aberto de tudo fosse o fechamento perfeito.

Nem foi o caso. A história da bola rolou horrores. Do que me é permitido falar, sorrio das associações com o acasalamento, riu como quem ri do riacho seco, daqueles de terra crestada, marcada pela presença e pela ausência. De quem faz da vida, uma copa, como se num momento apenas tivesse a verve e a verdade.

Mas choro junto, choro se pudesse fertilizar as terras todas. Se me fosse permitido, sertão meu, jamais veria a falta d água, o verde nos alcançaria e o gozo seu, e o meu, fertilizaria o mundo inteiro. E assim, toda copa, seria como nós duas na cama, eu e você, gozando juntas.




quinta-feira, 26 de junho de 2014

Jogos da Copa



Eles tinham vindo de longe. De muitas serras além. Não que precisassem escalar nenhuma altura ou trouxessem na sua mala cordas, pinos ou alavancas. Era um grupo festivo, trazia apenas as gargantas secas e a vontade de engolir o mundo. Se reuniam, religiosamente, no altar de Baco, como a celebrar a vida, se juntando a outros, que ali já estavam. A cidade tinha sido escolhida a esmo, uns pensavam, outros, munidos de seus aparelhos rastreadores, não, sabiam que naquela pequena cidade, encravada por entre montes, em que o vento tinha que pedir passagem, e chegar de mansinho quando o sol se punha, a oferta e a procura pareciam se dar as mãos.

Eram ainda jovens, quando ali botaram morada, fincavam chão, levantaram teto e construíram famílias. As famílias que eles formaram sabiam da devoção sagrada de cada um deles e, por isso, não eram empecilhos para os ritos, cotidianamente, prestados entre eles. E se empecilhos fossem, eram deixados de lado. Era preciso celebrar a vida.

O curioso de todos eles é que a celebração acabou por tornar-se a própria vida. Um deles, em depoimento, ansioso, sempre dizia - tenho que ir bater o ponto, mas chego já. O templo escolhido era na recém inaugurada praça. Lá, improvisaram, na alegria que era costumeira, banheiros para se aliviarem, sombras para os dias mais quentes, um pendura para os dias sem espécie, afinal, tinham vindo de longe e o importante mesmo eram estarem juntos. 

   Era um bando ruidoso, cheio de gargalhadas, cuja (anti)monotonia era engolfada com a mesma voracidade daquele espetinho duro que acompanhava os goles todos. Era um belo grupo, grande em sua formação e grande em sua hospitalidade. Os que viam de longe, não compreendiam como havia tanto a se dizer e a compartilhar. Mal sabiam os transeuntes que eles trocaram de pele uns com os outros. Que eram uma tribo, um coletivo, sem papéis pré-determinados e sem as regras hierárquicas. Se viam todos iguais, e assim como riam um do outro, numa alegre comemoração, aprenderam também a rir de si mesmos, compartilhando as piadas intimas.  

Assim, foram-se os anos. Foram-se décadas. Os filhos cresceram, algumas das companheiras foram embora, uns enviuvaram. Outros ficaram órfãos. Muitos perderam seus empregos. Mas a festa continuava, era isso que lhes permitiam se sentirem vivos. As conversas e as rinhas só não caducavam, porque eles sempre lembravam-se de esquecer e assim, reatualizam as histórias todas. Tinham sempre um repertório completo delas, como se fossem autores de literatura feminina, o mote era o mesmo, apenas cruzavam as personagens, misturando situações, etnias, valentias e outros retalhos.

O templo estava sempre aberto, o coração era grande, sempre cabia mais um - era o lema. Alguns permaneciam um tempo, como a desejar aprender a rir também, numa risada conjunta, espantando os fantasmas, espanando a pasmaceira, como se ali, através das risadas e da melodia dos goles, existisse uma heroína desativada, sem o perigo das agulhas infectadas. Alguns iam embora, se sentindo fartos de celebrar a vida. Os outros transformavam a ida em fuga, na mesma cadência de uma piada – só os fortes e os crentes permanecem, era o olé da tribo.

Mas eles também falavam de suas famílias, daquelas que permaneciam em casa, à espera do fim dos ritos. Era famosa a história, nunca esquecida, quando um deles, narrava para todos, que já tinham ouvido e para aqueles que estavam ali pela primeira vez, a história de sua filha – dia desses, minha bichinha, foi num centro atrás de espíritos pedindo ajuda para eu deixar o templo. Ela foi várias vezes, até que os espíritos disseram, como se tivessem ouvido o recado de mim, minha bichinha, tem jeito não, desista – no que ele comemorava, pedindo mais um vinho, como se só assim, pudesse engolir a própria piada.

Entre eles, tinha um que era atleta. E sempre que entrava em regozijo partia para casa numa carreira desabalada. Parecia que as rezas todas eram o combustível necessário para tamanha façanha. Um outro, gostava de jogos. Levava baralho, tabuleiro, dominó... até que as telas saíram das casas e ocuparam outros ambientes. No templo, tinha uma grande, plana, com os canais especiais, que passava de tudo, luta, futebol, basquete, tênis, só não havia espaço para as novelas. As novelas, diziam eles, já bastam as nossas, enquanto continuavam celebrando.

Num dos encontros casuais, ocorreu algo inusitado. Apareceu no meio deles um rapaz garboso, talvez uma década e meia mais jovem, todo alinhado, sorriso perfeito, gestos teatrais, corpo de bailarino, pedindo para se juntar com eles na mesa central. Alguém puxou uma cadeira, fique à vontade. Ele não disse muito quem era nem de onde teria vindo. Mas também nem foi necessário. Logo foi incorporado pela onda de alegria. É verdade, que alguns ficaram ensimesmados, apenas consigo mesmo, se posso usar da redundância para melhor visibilizar a entrada de tal elegante intruso. O sorriso perfeito de dentes alvos, fez alguns lembrarem do riso de agora já destorcido. O corpo, rijo, também trouxe lembranças para os dias das carreiras dadas nos jogos de pelada. O cabelo, solto e brilhante, incomodou aqueles já acostumados com os bonés da vida. Mas nem por isso, ele foi rejeitado. Não quando propôs, quase em seguida, esse jogo, quem vai ganhar? Alguém topa uma aposta?

Parecia que naquela mesa tinha um maestro a deixar rolar os ritmos das batucadas. Foi cerveja, cachaça, vodka, riso, espetinho, cigarro, recordando a todos das antigas reuniões. O intruso, sacou lápis e um caderno do bolso de sua calça e começou a anotar os bolões. E assim, o rito se atualizou numa outra velocidade.

A harmonia foi tão sincronizada que já brindavam pelos jogos que iriam ocorrer no campeonato mundial de futebol. Parecia que o templo precisaria alargar seus limites. Até que veio o primeiro dos jogos. Brasil x Croácia. Alguns perderam, outros ganharam tostões. Tudo acompanhado e marcado por ele, que todos já chamavam de Bookmaker. No segundo dos jogos, todos já estavam presentes. Aliás, não todos. Um deles tinha viajado, como as viagens de antigamente, vestido no paletó de madeira. Brindaram pelo companheiro que se foi, quase conseguiram fazer um minuto de silêncio quando a notícia chegara, mas o jogo deu início e logo a torcida habitou os últimos segundos.

Sempre depois dos ritos, poucos conseguiam lembrar da linearidade dos acontecimentos. Era o mote de outra reunião. Entre o esquecimento de um e o flash de outros, conseguiam montar um surrealista mosaico dos dias anteriores. Mas a lembrança mais arraigada era sempre recoberta tão logo pesava sobre a mesa.

Bookmaker, então, propôs, sorrindo do jeito deles, brindando da mesma forma, posando para as fotos, que futuramente seriam compartilhadas na rede, uma nova aposta, como se a natureza, vida e morte, se naturalizasse assim, entre perdas e ganhos - aposto que no próximo jogo João pega o bonde e viajará também. O jogo então virou outro. E para cada jogo, a aposta era sobre a presença ou a ausência de um. Que coisa mórbida, um ainda arriscou, quando outro disse, deixa de ser besta, sabe jogar não?

O Brasil teria ainda seis partidas pela frente. Afinal, era a Copa do Mundo. E seis foram anotados, como se cada um dos nomes dispostos no alinhamento daquele caderno obedecessem a mais estranha lógica daquela vida em tribo. Ocupados que estavam em tal jogo, realinharam seus próprios times. Como se o time fosse um 'time', diziam, rindo dos ingleses. A única certeza era que todo jogo se encerra. Bookmaker, não era de dar palpites, mas entre um drible e outro, resolveu abrir o jogo, quando disse, eita gota, não sou a camisa dez, mas nunca perdi uma partida, sou o artilheiro de todos os tempos, já me chamaram até, num livro qualquer, de indesejada das gentes.

Se entre eles tivesse um bom entendedor ou quiçá algum leitor, talvez o jogo virasse. Talvez...



quinta-feira, 19 de junho de 2014

V-IVO


O ar era rarefeito. Competia com as gotículas coloridas que eram irradiadas pelos velhos aparelhos suspensos na cúpula daquele bar. Dois contos, um trago. Cinco contos, três tragos.

Enquanto ele mijava um sem número deles, balançava a cabeça, como a espantar a fedentina toda. Ou quem sabe, o embotamento. A vizinhança não era das melhores. As vitrines vivas, recheadas dos corpos-cibernéticos, pareciam convidar a um lugar de fatal. Uma tal fatalidade. Mas ele parecia imune, como se nem ali estivesse.

Do primeiro dos bares, fez as vontades, perdendo as contas que trazia no calce da bota. Quem o olhasse de perto, saberia, rapidamente, que ele era um estrangeiro, ainda que aquela terra fosse de outsiders.

A casaca, apesar do desgaste, não tinha as marcas do corpo que recobria. O porte, indiferente, parecia indicar caminhos outros, pois a pele era por demais curtida, como se o sol, já esquecido pelos daquelas órbitas, tivesse pincelado seus orifícios, dando uma inusitada coloração, mesmo ali, onde a penumbra cuidava de tornar tudo mais belo.

Enquanto ele coloca perna sobre perna, uma mão lhe enlaçou o pescoço. Vinte contos e você come meu cú quadrado. A mão que o enlaçara era mais longa do que qualquer um pudesse pressupor. Vinha da extensão de um beco, saída como se esvai a língua de um lagarto ou um bote de uma víbora.

Meu amor, disse o braço estendido, ainda enroscado nele, consigo lhe fazer uma chupeta enquanto você enquadra em mim.

Ele balançou o pé, como a mensurar os contos de sua bota. O peso daria de sobra. Acionou a membrana ótica enquanto registrava o escuro do fim do mundo. Nada em seus registros internos, cujo acúmulo seria a fortuna de uma colônia inteira, lhe deram qualquer sobreaviso.

O braço sentiu seu desconforto, como se de repente aquela indumentária toda o tivesse desnudado finalmente. Enroscou mais um pouco... e ele lembrou dos antigos arquivos, que tinha visto ainda na idade impúbere, do gato de Alice. E assim, o seguiu, tal como a menina atrás do seu coelho, em busca de fofuras e de pelos, pensando ainda, por que não? Nunca comi um cú quadradro.

O braço que anteriormente fora em busca de sua gola, o trouxe para perto. As gotículas aumentaram de ritmo, como se fossem milimetricamente dispostas naquele ambiente, tão desregrado.

Ele lembrou que antes de adentrar, traçado que estava pelo braço, olhou de um lado e registrou, numa piscada, o congelamento do momento, como se a posteridade, da polícia, o fosse agradecer.

Seus olhos já tinham feito o melhor dos upgrades todos. Por isso, foi seguro, seguro pelo braço torneado, longo, de pelos dourados, cujas unhas, estranhamente, eram esmaltadas de rubi.

Assim que foi puxado para aquele estreito beco, recebeu nos seus dispositivos todos os toques de segurança. Mas ele já não ouvia. Parecia estar enfadado de tanta informação, de tantas cifras, de tantos algoritmos. E assim, ignorou tudo que lhe parecesse vir do olhar e do ouvir, sem deixar de recordar do sorriso dado, quando seu gerente, todo espantado, lhe interrogou, tão educadamente, como se manda a lei da robótica, senhor, o senhor tem certeza que deseja carregar todos esses pesos...

São apenas contos, ele respondeu, ávido de histórias. Mas entre o registro, que foi largamente midiatizado e o momento em que permitiu ser engolado, apenas lembrou de sua urgência e do prazer de sair do sol, quando subiu no táxi lunar, lotado de corpos suados, engraxados, autóctones, mecânicos, como se a hierarquia tivesse se carnavalizado. Carne. Máquina.

Assim que ele entrou naquele beco escuro, quis tirar sua bota e entregar os contos exigidos. Mas o braço o ignorou completamente e  a toda aquela vontade de maestria, dando outro ritmo, um ritmo acostumado de garoa ácida e de vida de becos.

Febrilmente, o despiu daquela vestimenta que não lhe pertencia, deixando-o em pele. Absolutamente nu. O ar que o rodeou, parecia reiniciar um velho aparelho há muito esquecido. As engrenagens de sua carne arrepiaram seus folículos e se ele tivesse optado por ser bio-feminino, teria se molhado todo, com o sumo descendo pelas coxas. Mas não foi o sentido. Sentindo seu corpo rijo, como se seus poucos pelos, ainda existentes, em função de sua inconformidade, apontassem para o céu, se o céu ali existisse.

O braço tinha uma boca e ele o abocanhou como se fosse um encaixe milenar. O desejo dele era apenas meter, já se despedindo do redondo do seu mundo, enquanto ansiava pelo cú quadrado.

Ali mesmo sentiu a verdade das máquinas. Sentiu também o clamor dos tambores. Eu quero meter em você, quero seu cú quadrado. O braço, então, subiu pelo torso, como se desenhasse uma profecia, chegando junto à sua orelha, como um liquidificador enguiçado, sussurrando, você jamais se encaixaria.

Assim, ele gozou e se foi, rendido na mão, daquele braço todo registrado. Mas havia apenas o braço, nenhum outro indício. Foi caso arquivado, o único em séculos, pela ausência da prova dos tempos, como se o tempo, assim como os braços e abraços, estivessem para além de qualquer geometria.


Eu, por um lado, apenas observo, sou o Vigia, mas já cansei de punir. Estou entre as estrelas e as altitudes todas. Apenas registro. Talvez os outros, o Destino, o Acaso, a Vida e a Morte, queiram, um dia, conversar. E, por isso, registro.

sábado, 14 de junho de 2014

O baú dos livros



Quando desci, desci fazendo renda. Claro que eu não sabia como fazer. Era apenas uma descida. E eu desci, linda, fazendo renda. Desci como quem desce uma ladeira, daquelas calçadas, assentada como se estivesse numa sela, corpo todo deriva do vento, tão destino.

Da primeira descida, lembro apenas o frenesi, lembro-me de meses ensimesmada num casulo, toda fechada, ouvindo apenas o alheio do converseiro, mas não me recordo de nenhum rendeiro mor.

Quando desci, me sentindo tão linda, sem saber se os fios eram certos, se estava no ritmo do mundo, apenas vi uma estranha paisagem. Era uma mulher, aliás, era uma menina, era qualquer coisa, apenas não era da minha espécie. Olhei ao meu derredor, a casa era velha, os caibros carcomidos, sem laje, cheiro de umidade, cenário perfeito, para mim, perfeito.

Fui descendo, devagar, bem devagarinho... Não queria ser destruída na primeira vasculhada. Sabia que meu tempo era curto, mas queria deixar minha renda, como a ofertar, para os outros, mistérios alheios.

De peça em peça, descia lentamente, sem deixar de olhar pelos olhos que possuía, todos em minhas costas. Do telhado para aquele chão de casa caiada.

Não sabia o que deveria ver. Talvez meu devir fosse a cegueira, talvez...

Mas eu via, de longe, ainda do alto, quando ela, tão pequena, chegou, como se fosse um cachorrinho farejando, a cama de molas altas, os gatos todos peludos, a brincar com suas peripécias, pulando, com seu cachos a acompanhar os balanços todos, alquebrando o silêncio daquele sítio, que me disseram, fique calma, é tão tranquilo, sua vida será longa, ali não se faz faxina, não se passa a vassoura de milho no alto, porque o telhado só Deus alcança. Bem que eu poderia ter ficado lá no alto, toda segura, apenas a destrinchar os mistérios das rendas.

Mas talvez eu seja de 16 de maio. Talvez eu tenha um devir de chifres. Talvez eu queira apenas descer, como quem desce para além da terra, a perscrutar o além, seja fogo, seja gelo. No quente ou no frio, minhas teias iriam se dissipar. 

Mas eu nem tinha formação, mal tinha entendido as linhas, quiçá os quiproquós todos, debatidos muito antes da minha existência.

Apenas desci, então, graciosa e delicada... E se pudesse dizer, com meu melhor vestido. Mas eu era bicho e desci nua.

À medida que minha quadrilha era trançada e eu vinha mais ao chão, vi aquela menina, que não sabia se era moça ou mulher. Vi quando ela abriu o baú. Foi uma zuada enorme, quando dobradiças enferrujadas, gemeram junto a ela, que segurou o folego e olhou para fora, como se esperasse ser descoberta.

Nada se ouviu além do vento que se aninhava junto ao pé de cajarana. Eu tinha ficado suspensa, sem descer mais um centímetro, ela me pareceu ter ficado também.
Mas suas mãos foram rápidas, lépidas como a desbravar o tesouro dos astecas. Surrupiou todo seu interior e ficou horas a fio, como se o fio não dependesse de mim, a folhear seu tesouro. Ouvia apenas, com meu olhos todos, a passagem das folhas, uma por uma, hora por hora, como se os dias e as noites estivessem apenas ali e nada mais fizesse falta.

Eu já não tinha mais mãe, desde cedo aprendera que meu caminho de aranha era tecer teias. Não sabia que havia aranhas sem todas as minhas pernas.

E ela, aranhada, lia, livro por livro,  todo aquele baú, como se o ar lhe faltasse, como se aquela fosse uma lição eterna, e a qualquer momento, alguém pudesse surgir por entre as janelas em trava, a dizer, menina, o que tanto você faz.

Eu vi, quando ela viu, seu primo, a olhar pelas brechas, seu enlace, de livros, lençóis e redes, animada pelo tesouro todo, daquela fartura de folhas molhadas, daquilo que ela nem sabia traduzir, quando lia, a donzela fescenina, se derretia toda... Folhas e folhas sendo passadas em mãos, desfolhadas, até o segredado das mil e umas noites, como a sugerir, eu vi – vi seu tesouro, vi sua fartura toda...

Ela pulou num salto só, desse salto, ela me derrubou. Caí sem rede de segurança, sem fio a me segurar, e na pressa dela, no intuito de se recompor, pisou em meu corpo, quando morri, do jeito das pequenas mortes...


Um dia desse, ela contou isso a uma estranha. Ela não sabe, mas minha morte não foi inteira. O fio, seja lá quem traçou, permanece vivo, e eu me recuso a morrer, não enquanto ela lembrar...


quarta-feira, 28 de maio de 2014

O cavalo da chuva



Quase todos os dias, era dia de pegar estrada. As duas, quase sempre, viajavam uma na companhia da outra. Revezavam a direção, mas a estrada era sempre a mesma. Longa, muito longa. A lonjura era tanta que o silêncio de uma, o ronco da outra, parecia uma nuvem grávida, prestes a parir.

Viviam cansadas de viver naquela estrada. A sorte é que a paisagem roda igual à fortuna.

- Vixe Maria, hoje a gente não chega.

- Chega.

A vinda parecia mais curta. Havia um ponto em que uma delas suspirava, pensando que ia arriar suas saias. Na mesma curva, a outra só pensava que quanto mais perto, mais distante.

Um dia, numa subida, motor rugindo, uma disse, como a suspeitar da chuva que se avizinhava. – Estou triste, me sinto tão triste, estou nua.

A outra, tomada pela voz, pensou em retrucar. Apenas pensou: - a língua é um músculo. E faz tanto frio, enquanto ajustava a calefação. Mas quieta estava, mãos postas no volante e quieta ficou, não sem deixar de responder em pensamento - Isso passa, passa tudo, é como a estrada e a comida que nós damos nela, bocado por bocado, até farta-se de chão e regurgitar nos banheiros próprios.

- Se dependesse de mim [ela continuou a competir com a velocidade], hoje não estaria aqui, estaria lá, anos atrás, quando a casa era minha, quando ele estava vivo e eu tinha as minhas amigas todas.

- Hum rum – a outra resmungou, aumentando o som do noticiário da cidade mais próxima,  apenas estática.

- Eu fui feliz. Sempre tive minhas estradas, nunca fiquei sem andar. Mas as mãos que me recebiam e pelas quais me apaixonei, eram tão cálidas, afáveis, como se minha casa fosse como essa nuvem. Essa mesma, ali, olhe, apontando. Você consegue sentir a cor? A densidade? A poesia? Eu estava lá, mesmo estando cá, na estrada, mas estava lá, e era um sonho bom, como se meu corpo, suspenso no céu, rodeada do etéreo, daqueles de algodão doce, me diluísse num manto quente.

- Hoje tá frio, vai cair um dilúvio, resignada ainda uma delas disse. E junto ao som do motor, cansada de tanto mastigar comilança, veio uma bateria, como numa banda de jazz, a vocalizar a chuva que se alocava como uma estranha melodia, tal como a zuada do para-brisa, que já deveria ter sido trocado ontem.

- Eu nem creio na minha sorte, continuou a que falou primeiro, como se tivesse ainda um rosário todo. Sou justa. Justa com os outros. Aprendi, com minha mãe, lá daqueles lados, apontando para trás, continuou falando... Apreendi o outro. A ver o outro. Eu só não gosto de amar. Já perdi todos que amei. Eles já se foram, viajaram afinal. E eu sigo minha estrada. Meu maior medo sempre foi ficar só ou ficar inválida numa cama dependente de outrem.  

A outra, simplesmente acelerava, sentindo o carro como uma extensão sua. Seu carro nunca havia lhe deixado na mão. Zelava por ele como quem zelasse por um gatinho recém-nascido-órfão. Sem conseguir deixar de pensar, por que ela fala isso para mim, interrogações... Não sou obrigada a ouvir. Ela simplesmente continuou, no compasso de uma ópera, baixa, alta, crescendo, arrefecimento. A outra olhava de lado, balançava a cabeça, dizia tá, hum rum, certo, até que saiu um “e”, “foi”, “e depois...”.

No interlúdio, aquela que competiu com o som da estrada, indagou: e você?

A chuva foi embora, sempre vem e vai, pensava, enquanto acelerava, deglutindo quilômetros. – Meu pai dizia que quem trás a molhadeira e leva aonde quer é o cavalo da chuva, independente do meu ou do teu caminho.

Rodaram ainda algumas léguas ordinárias. Cada uma cavalgando seu cavalo, ou, quem sabe, uma na garupa da outra.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Borboletas e violetas


A primeira vez que a senti, procurei não vê-la mais. Não sabia nada ao seu respeito, de onde viera, o que desejava, tinha apenas uma lista com o nome de todos que estavam na fila, esperando por receber um crachá. Provavelmente um daqueles nomes era o dela. Entregava as pastas daquele encontro que era um misto de catarse, estudo de grupo, confraternização, como se fosse um daqueles funcionários públicos que nos atendem sem nem ao menos desviar o olhar da sua mesa. Assine aqui, disse, me desviando toda.

A primeira vez que a vi, vi que ela me olhava sem nem, ao menos, me ver, como se seus olhos escorregassem como manteiga quente. Incomodada com a cegueira que em mim era posta, peguei o meu crachá e fui sentar naquele longo auditório. Mas sabia que sentaria bem na frente. Queria que ela me visse. Seriam muitos dias juntas e num deles, pensei, a roubaria num olhar qualquer.

Na segunda vez, não a senti no alcance da minha circunferência. Mas sabia que era ela. Sentia, como os caçadores, concentrados que eram em escutar o derredor e ver a totalidade a partir dos rastros, que era ela que vinha nas minhas costas, não que a melodia dos seus saltos naquele chão de mármore tivesse me alertado. O alerta veio de um suor gelado nos meus pés, como a enunciar o fantasmagórico de outra presença. Senti, apenas, quando um braço, delicadamente, roçou meu ombro. E eu nunca mais fui a mesma. Percorri o mesmo corredor com minhas solas de borracha, quicando como uma atleta de saltos curtos.

Não pude conter o sorriso quando a vi de costas. Não sabia que tipo de traje era aquele que de tão destoante não me fez esquecer, ainda daquela primeira vez, aquele chinelo de couro cuja presilha era o símbolo da paz. Uma hippie, pensei, sorrindo internamente, que démodé. Mas esperava ver de novo os seus pés. Pareciam pés de princesa ou daquelas bonecas de bibelô. Senti vontade de ver o rosto, mas ele ainda não se mostrara.

Aquelas reuniões sempre pareciam demorar décadas. Como era responsável pela entrega das listas de presença, das águas e dos cafezinhos, não me detinha nas frases, que pareciam proferidas pela elegância das línguas corretas, pausadas e claras dos palestrantes. Não me interessava, nem queria aprender mais do que já sabia ser excesso. Apenas concordava entre uma hora e outra com qualquer um que falasse, meneando a cabeça, olhando sem ver. Mas esse encontro, sem vistas, tinha criado um descompasso em mim, como se um oficial de justiça tivesse vindo a minha casa me destituir de tudo aquilo que eu nem possuía e ainda assim eu temesse como quem teme pela própria vida, ficar privada da minha privação. Não era lógico. Será que estava desenvolvendo aquelas manias medicalizadas das primas distantes?

Ela era curiosa, não, não era curiosa, era desconcertante. Não que aqueles tênis surrados fossem diferentes da maioria das moças que ostentavam a mesma farda. Alias, pensei, bem surpresa, preferia o chinelo. Pelo contorno dos seus dedos poderia, quem sabe, desenhar o resto. Quem sabe poderia chegar ao seu rosto. Ficava acompanhando suas idas e vindas com aquela bandeja trêmula, como se a qualquer momento viesse um descarrilhamento de copos, xícaras e cacos. Seu rosto estava sempre coberto por cachos ou pelas sombras que a encobriam enquanto andava com o olhar baixo. Esse olhar cabisbaixo me pegou, como se tivesse me visto de frente e de dentro, e me vi saindo do auditório, apressadamente, acendendo um cigarro em direção ao carro, como a exorcizar os tempos em que também não tinha olhos para o mundo. Já havia tratado disso em milhares de sessões, das mais diversas linhas. Tinha entendido porque era preciso olhar à frente como se o correr dos passos tivesse deixado em cada passada já dada as vergonhas, os risos, as quebras, os desejos recalcados. Talvez não voltasse a esse seminário, pensou ao mesmo tempo em que pediu ao barman um Dry Martini duplo.

Ninguém sabia nem eu poderia compartilhar com nenhum outro a não ser com minha própria divisão que minha vista era curta e que para servir os cafés, os chás, o buffet ou qualquer coisa que me colocasse às mãos, tinha desenvolvido uma estranha forma de ver. Na minha barriga moravam milhares de borboletinhas e eu via através delas. Não que isso ajudasse muito, o olhar da borboleta, sem a luz ultravioleta, só era compensado pelas suas antenas. Raramente elas me mostravam muito, mas quando o faziam pareciam indicar todas as cores dos arco-íris. Era uma estranha combinatória, pois as cores só me vinham através da pele. Quanto mais quente a cor me vinha, mais ruborizada ficava, como se a qualquer momento o sangue pudesse pedir licença se despedindo pelos poros. Era uma manada desgovernada me indicando o derredor. E de tanto ver e não ver, senti tonturas, daquelas de câmera lenta, percebendo o deslocamento do ar e o espirrar dos líquidos quando a bandeja deslizou das minhas mãos, bem no colo daquele tailleur violeta.

Fiquei totalmente banhada. Ela apavorada, com a voz alquebrada me chamando de senhora, me desculpe, como posso ajuda-la? Me leve ao toalete. E assim segui aqueles tênis surrados, ao mesmo tempo em que me desfazia do meu blazer.

Meu Deus, o que eu fizera? Pensava, enquanto apressava os passos para não errar o caminho.

O grande lavabo estava desocupado. Todos ainda estavam em seus acentos no auditório. Vi, quando ela pegou lenços higiênicos e molhou, me entregando de lado. Eu me recusei a segurá-los. Senhora, sei que pode não ser o suficiente, mas pode minimizar o desastre, desculpe, sou muito desastrosa. Não resisti mais muito tempo e me aproximei daquele corpo estranho. Puxei-a para minha frente e levantei aquele queixo tão cabisbaixo. Foi quando eu vi, vi seus olhos, eram escuros, como um céu sem estrelas, carregado de nuvens densas, como um buraco negro que não tinha luz nenhuma. Eles não eram grandes, mas profundos, como se pudesse sugar o mundo para dentro de si e ainda assim pareciam não ver nada. Não poderia dizer mais nada sobre seu rosto. Apenas sobre seus olhos.

As antenas dentro de mim entraram em frenesi. As borboletas começaram a sair do meu corpo, pelos ouvidos, pelas pontas dos dedos, pelos fios dos cabelos, pousando na iluminação daquele ambiente, como se o seu feixe de luz, ao ultrapassar as batidas de suas asas, jorrassem todas as cores que faziam minha pele abrir em milhões de olhinhos que ora se concentravam no âmbar dos seus olhos, ora no carmim de sua boca. Só havia sentido algo parecido quando provei meu primeiro pedaço de caramelo com morango, ainda que o gosto fosse  anos luz de tudo que fosse imaginável ou semelhante. Pousou na minha boca lentamente como a me confundir com as borboletas todas. Levemente no começo, depois profundo, aberto, sedento. Eu formigava inteira, sentindo que o universo era uma liquidez só e que eu poderia me embriagar com todos os seus quadrantes.

A beijei de olhos abertos. Ela recebeu meu beijo com olhos mais abertos ainda, me tragando toda, me cheirando como se seu nariz fossem mãos a me enlaçar. Desvencilhou-se dos meus dedos que seguravam seu queixo e afundou na curva do meu pescoço, sem respirar nem nada, apenas aspirando, como se aquele fôlego fosse o primeiro dos seus dias.

Não era possível, o tom violeta do seu traje reverberava por todo o ambiente e eu quase pude ver. Parecia que a tinha visto me despindo toda, me habitando inteira. Parecia que tinha visto sua blusa de seda colada aos seios, molhada pelo meu desastre, ser descartada num meneio urgente. Parecia que eu tinha visto a coisa mais bela do mundo. Mas desse meu quase olhar os sentidos explodiram, sobrecarregados que estavam, como a me colocar em curto-circuito, como a me fazer sair do corpo, tal como meu espírito naqueles dias de viagem astral, a entrar num espaço que não era mais de queda, de escuridão, mas de êxtase, como um gozo sem fim.

Nunca havia sentido tanta urgência e tão pouca pressa. Poderia rasgar o mundo com minhas próprias mãos e o quebrado em mil linhas só para monumentalizar aquele instante, aquele momento em que a grudei na cerâmica e a provei da mesma forma que ela tinha me cheirado. Não sei quanto tempo durou, que fome era aquela, que lugar estava indo. E nem como poderia parar. Mas nossos corpos pararam, enxagues, mas ondulados pela ressonância de todo aquele encontro. Virei-me de lado, para poder ver seu olhar negro novamente, quando vi que a densidade da tempestade desabada lavara seu olhar, antes nublado, deixando uma manta de estrelas. Ela apenas suspirou.

Quando suspirei, as borboletas voltaram todas pra mim e fizeram uma bagunça total, se deslocando por todos os meus membros, que pareciam não obedecer mais seus territórios familiares. Pensei comigo, teria que me acostumar que minha forma de ver jamais seria a mesma. E nem eu queria...

No outro dia, depois que nos fomos, a vi servindo os cafés ainda cortinada pelos seus cachos. Era o último dia do evento. E sabia que poderia ser a última vez que nos veríamos. Enquanto os colegas terminavam suas apresentações e davam início ao coquetel que finalizava o evento, ouvi quando me perguntou, sem falar, por que você não fica, gostaria de ver novamente, no que respondi, sem voz, venha comigo...



Eu fui e hoje vejo tudo ultravioleta.